A primeira recessão do Pico Petrolífero
 
Por Steven Kopit,entrevistado por Steve Andrews "... assistiremos à migração do gás natural para as utilizações tradicionais do petróleo, tais como os transportes"
 

Steven Kopits dirige o gabinete de Nova York da Douglas Westwood . Na semana passada conversou com Steve Andrews acerca do seu estudo mais recente sobre o Pico Petrolífero e a intervenção que fará no próximo na conferência da ASPO-USA. Nessa entrevista lançou algumas questões novas.

Pergunta: Fale-nos da sua experiência.

Kopits: A maior parte da minha carreira foi como consultor de administração estratégica e banqueiro de investimentos. Centrei-me no negócio da energia durante os últimos anos e agora administro o gabinete de Nova York da Douglas-Westwook, uma consultora em negócios de energia com sede no Reino Unido. Somos bem conhecidos devido à nossa investigação de mercado a montante do negócio do petróleo e do gás. Na indústria, somos considerados a consultora de referência pela nossas previsões quanto à perfuração e produção offshore, bem como por renováveis marítimos como a eólica offshore. Estou pessoalmente interessado em mercados petrolíferos e escrevo frequentemente sobre questões relativas ao Pico Petrolífero.

Pergunta: Quando tomou conhecimento da ocorrência do Pico Petrolífero?

Kopits: Eu estava a preparar documentação para investidores – um prospecto para uma oferta pública. Fazia parte deste trabalho examinar questões de oferta e procura, em particular quando se relacionavam com a China. Quando examinava os números descobri que a procura projectada tornava-se consideravelmente maior do que aquela que a Agência Internacional de Energia (AIE) estava a declarar. Apenas por amor à completude, procurei confirmar que a oferta de petróleo era adequada para atender à crescente procura chinesa. Agora você deveria ter em mente que, naquele tempo, eu pensava que o Pico Petrolífero era pura fantasia. Mas quando verifiquei, o crescimento da oferta prometia ser muito menor do que a AIE estava a indicar. Fiquei preocupado porque não podia encontrar os recursos naquele documento.

P.: Seria correcto dizer que tem tido uma visão sóbria da oferta de petróleo a longo prazo?

Kopis: Isso é totalmente certo. De facto, as minhas visões evoluíram em parte devido ao meu relacionamento com a firma antes de entrar para ela. No passado, também trabalhámos com a Simmons & Co., por exemplo, e os consideramos como amigos. Falando filosoficamente, estamos no mesmo campo. A visão formal da nossa firma é que esperamos o Pico Petrolífero no meio da próxima década. A minha visão pessoal é que o Pico Petrolífero — pelo menos no sentido do "Pico Petrolífero prático" — provavelmente já está atrás de nós.

P.: A visão da firma evoluiu muito ao longo dos últimos três a cinco anos?

Kopits: Penso que a história da oferta está seguir mais ou menos o caminho que a firma previu. Não houve cisnes negros [1] na nossa previsão, pelo menos em termos da oferta de petróleo. A Douglas-Westwood tem sido razoavelmente boa em prever volumes com avanço e tem sido assim durante tempos. Esta foi uma das razões porque entrei para a firma: eles são bons no que fazem. A outra razão, a propósito, é porque são grandes pessoas. Sou privilegiado por trabalhar para a companhia.

P.: Que espécie de reacções obtém quando escreve acerca do Pico Petrolífero?

Kopits: Em geral as reacções têm sido muito positivas. Eu destacaria, entretanto, que não estamos envolvidos no Pico Petrolífero; somos simplesmente analistas técnicos. Analisamos mercados e relatamos o que dizem os números. Quando escrevo acerca do Pico Petrolífero, apenas apresento gráficos e interpreto-os. Incidentalmente, o que é interessante é a diferença de reacções entre Washington DC, Nova York e Houston em relação ao Pico Petrolífero. Quando estou na costa leste, tendo a utilizar "Pico Petrolífero" entre aspas e habitualmente sou um pouco mais cauteloso ao falar acerca deste assunto. Em Houston, não é preciso ser precavido. Quando mencionei o Pico Petrolífero aos administradores de companhias de serviços em campos de petróleo eles não se encolheram. Eles podem qualificar a expressão Pico Petrolífero com um "razoável" ou "prático", mas os nossos amigos no Texas são aqueles que têm de encontrar e produzir petróleo diariamente e sabem que isso está a ficar cada vez mais difícil à medida que passa o tempo. O Pico Petrolífero não é uma concepção teórica em Houston, é uma realidade operacional diária.

P.: Mas Daniel Yergin e Michael Lynch não parecem acreditar no Pico Petrolífero.

Kopits: A perspectiva da Douglas-Westwood tem diferido da do CERA [2] desde há muito sanos. A visão da nossa firma tem-se mantido, até à data, a do CERA não. Em 2005, o CERA previa uma capacidade de 101 milhões de barris por dia em 2010; seremos felizes se alcançar os 90, talvez 89. Por outro lado, não podemos descartar a possibilidade tanto de melhoria tecnológica como de encontrar petróleo que não previmos. Veja quão radicalmente mudou o quadro do gás natural nos últimos dois anos — a perspectiva pode mudar do ponto de vista material. Ao longo dos últimos cinco anos, um investidor ou companhia de energia teria recebido uma visão mais exacta do mercado utilizando previsões da Douglas-Westwood.

P.: O seu documento recente soa como se estivéssemos num planalto da produção de petróleo desde o fim de 2004.

Kopits: Isso é correcto. Se eu olhar os números desapaixonadamente, a oferta de petróleo não melhorou muito desde o 4º trimestre de 2004. E não vejo nada no horizonte que faça parecer que estamos em vias de irromper dentro de um nível realmente novo de produção que seja muito diferente do que temos hoje. Assim, se estamos a falar acerca do Pico Petrolífero prático, a minha visão é que ele começou no fim de 2004.

P.: Qual é a sua percepção de quando deslizaremos para o declínio no fim deste planalto?

Kopits: É difícil dizer. Na minha perspectiva, o início do declínio é menos importante do que o fosso entre a oferta e a procura. Se a China não estivesse a crescer tão depressa, o Pico Petrolífero poderia vir sem que o percebêssemos por algum tempo. Agora, mesmo se a oferta de petróleo crescer, não é provável que alcance a procura. Assim, podemos sofrer os impactos económicos do Pico Petrolífero mesmo com uma oferta de petróleo a crescer em proporções modestas. No essencial, essa é a história do período fim de 2004 até meados de 2008.

P.: Que taxa de declínio espera, em 2012 ou quando ocorrer?

Kopits: Não tenho uma visão independente sobre isso. A AIE salientou que as taxas de declínio parecem ter aumentado para 6-7%, e a PFC tem um gráfico muito interessante sobre o aumento das taxas de declínio nos furos offshore ao longo do tempo. A propósito, estes géneros de desenvolvimentos — aumentos seculares em taxas de declínio, por exemplo — são uma razão porque penso que o Pico Petrolífero já está sobre nós. Serão prova? Não, mas são sugestivos. E se trabalhar na indústria, deparar-se-á com gráficos semelhantes, indicativos de um sistema em perturbação, ainda que não sejam conclusivos. Ao mesmo tempo, é preciso ter em mente que acima do solo há constrangimentos sobre a produção os quais poderiam influenciar as taxas de declínio agregadas. É preciso considerar, por exemplo, se os sauditas aumentarão a produção ou se o Iraque conseguirá mais ao administrar sua indústria do petróleo. Há um bocado de coisas que não sabemos neste momento e que determinarão as taxas de declínio.

P.: Poderia contar-nos acerca da sua visão sobre o patamar do preço do petróleo nos EUA para o efeito de recessões?

Kopits: Os EUA experimentaram seis recessões desde 1972. Pelo menos cinco destas estiveram associados aos preços do petróleo. Em todos os casos, quando o consumo de petróleo nos EUA atingiu 4% do PIB, os EUA entraram em recessão. Neste exacto momento, 4% do PIB é petróleo a US$80. De modo que a minha visão actual é: Se o preço do petróleo exceder os US$80, espere então que os EUA caiam outra vez na recessão.

P.: Pode comentar sobre a razão porque, durante uma recuperação económica, assiste-se ao consumo de petróleo crescer mais depressa em economias em desenvolvimento do que em países da OCDE?

Kopits: O consumo tenderá a crescer mais depressa nas economia em desenvolvimento por duas razões. Primeiro, pela sua própria natureza as economias em desenvolvimento deveriam crescer mais depressa do que aquelas já maduras e isto geralmente tem sido verdadeiro para o Extremo Oriente e notavelmente no caso da China. Assim, crescimento económico mais rápido significa crescimento mais rápido da procura de petróleo. Além disso, o crescimento do consumo de petróleo segue uma curva em "S". A níveis baixo de PIB, o crescimento da procura de petróleo é bastante lento. Uma vez que um país atingiu níveis de rendimento de classe média, o consumo de petróleo per capita estabiliza-se. Contudo, no meio, quando um país se torna classe média, o crescimento da procura de petróleo pode ser explosivo. Tome-se a Coreia do Sul, por exemplo. O consumo per capita sul coreano atingiu o pico em 1996. Contudo, nos 12 anos anteriores, o consumo do país aumentou aproximadamente quatro vezes. A China agora está firmemente na curva S. Com base na experiência sul coreana, esperaríamos que a procura chinesa se estabilizasse em torno do 50 milhões de barris por dia em torno de 2032-2035.

Mas de onde virá este petróleo? Se você tem uma oferta de petróleo constante (flat) — ou, os céus ajudem-nos, declinante — então as economias emergentes e em crescimento rápido não terão opção senão começar a negociar em outro lugar o petróleo das economias avançadas ou em crescimento lento. Isto é coerente com o que temos visto nos dados a partir de cerca de 2006. Para a China crescer, terá de tomar alhures o petróleo do Japão, dos EUA e da Europa, tal como tem feito nos últimos três anos.

Se eu efectuar as projecções, isto implica que o consumo dos EUA provavelmente cairá em cerca de um terço, em relação ao seu pico de 21 milhões de b/d antes da recessão, para cerca de 14 milhões de b/d em 2030. Isso será potencialmente um longo e penoso ajustamento.

P.: No mundo da análise do petróleo, que regras é que o Pico quebra?

Kopits: A coisa primária que aprendemos — ou, mais precisamente, reaprendemos — no ano passado é que a economia global não tolerará petróleo a qualquer preço. No primeiro semestre do ano passado, tínhamos alguns prognósticos de petróleo a US$150, US$200 e até mesmo US$500 e eles eram entendíveis devido à dinâmica da oferta e procura naquele tempo. Mas como vimos desde então, uma vez que o nosso consumo de petróleo excede os 4% do PIB nos EUA, entramos em recessão e cortamos o nosso consumo de petróleo. A economia global não pode sustentar petróleo a qualquer preço. Para além de um certo patamar, é provável que o resultado seja estagflação ou recessão ao invés de preços do petróleo em aumento perpétuo.

P.: Pode o Humpty-Dumpty [3] juntar isto outra vez, ou estaremos num terreno completamente novo devido ao planalto do Pico Petrolífero?

GÁS NATURAL, O SUCESSOR DO PETRÓLEO NOS TRANSPORTES

in http://www.apvgn.pt. Kopits: Estou pessimista quanto à oferta porque penso que é o que os dados indicam neste momento. Não, quanto ao petróleo não penso que possamos juntar todas as peças outra vez. Isto significa que temos de olhar para a oferta de combustível mais aproximada que vem a seguir e que é o gás natural. Penso que assistiremos à migração do gás natural para as utilizações tradicionais do petróleo, tais como os transportes . Não vamos resolver isto da noite para o dia, mas precisamos de progressivamente retirar pressão sobre a oferta de petróleo. Se o preço do petróleo for alto, como acredito que será, o mercado conduzirá os compradores na direcção do gás natural.

Última pergunta: Tem algo em mente que eu devesse ter perguntado?

Kopits: Numa perspectiva política, penso que é importante entender que estamos nisto todos juntos. O Pico Petrolífero não é um problema dos EUA, mas um problema global. É um problema tanto para os países consumidores como para os produtores. A Arábia Saudita desfrutou desta recessão? Ou o Irão ou a Venezuela? E o que dizer acerca da China e do Japão? As recessões do Pico Petrolífero — e argumento num artigo a publicar que esta é a primeira recessão do Pico Petrolífero — são penosas para todos e vale a pena evitá-las ou minimizá-las. Para fazer isso, precisamos pensar em conjunto acerca das questões, construtivamente. Também, no lado político, há limites para o que possamos fazer no capítulo da conservação. Um programa de conservação super agressivo chama-se recessão. Assim, precisamos melhorar a oferta de energia nos transportes , mas precisamos de soluções que possam ser executadas dentro dos próximos 2-3 anos e, na minha perspectiva, a solução é o gás natural .

Notas
[1] Alusão ao livro The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable , de Nassim Nicholas Taleb.
[2] CERA: Cambridge Energy Research Associates
[3] Humpty-Dumpty: Personagens de histórias infantis (aparecem em "Alice no país dos espelhos", de Lewis Carroll).


O original encontra-se em www.aspousa.org
 
 
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