Neoliberalismo, o combustível da revolta no Chile
 
Movimento contra apartheid educacional conta com apoio da população, ganha força e radicaliza-se. Artigo de Luciana Silvestre Girelli Santiago e Valparaíso (Chile)para o jornal Brasil de Fato
 

A luta em defesa da educação no Chile, iniciada nos últimos meses, tem surpreendido pelo caráter massivo e pela radicalidade, bem como pelo grande apoio recebido da população. Além de marchas que reúnem mais de 100 mil pessoas nas ruas de Santiago, as escolas e universidades estão tomadas pelos estudantes nas cidades de todo o país. A luta pela educação converteu-se na principal luta política do Chile e canaliza o descontentamento social com o modelo neoliberal implementado desde o período do regime militar.

De acordo com a estudante de psicologia da Universidade do Chile e integrante do Partido Igualdad, Valentina Olivares, a educação chilena, bem como outros direitos sociais, é profundamente mercantilizada. “A população vive num verdadeiro apartheid educativo. Essa situação foi imposta desde a época da ditadura militar e a legislação neoliberal apenas ordenou e legitimou a educação de mercado no nível universitário e secundário”, explicou. Durante a década de 1990, quando houve a introdução da contrarreforma da educação, os movimentos sociais estavam muito fragmentados e o movimento estudantil assumiu pautas de resistência, de retorno à democracia e em defesa dos direitos humanos. “A juventude se volta a um trabalho cultural nesse período, com bibliotecas populares e esportes, como uma resposta ao descrédito à política. Essas iniciativas irão politizar os jovens para as lutas da década seguinte”, avaliou Valentina Olivares.

Na década de 2000, período em que predominaram governos vinculados à Concertación de Partidos por Democracia, a luta pela educação pública emergiu em diversos momentos, mas não avançou para além das mesas de negociação com o governo. Em 2004, os estudantes universitários realizaram uma forte luta contra a lei de financiamento e crédito, pela qual o Estado reduziu os recursos públicos destinados ao fundo que financiava a educação superior. Os empréstimos às famílias passaram a ser feitos por um sistema bancário de crédito, semelhante aos que financiam a casa própria, o que ampliou o endividamento familiar e dificultou ainda mais o acesso ao ensino superior. Em 2006, os estudantes secundaristas despertaram em um grande movimento nacional chamado Revolución Pinguina ou Pinguinaço, em que lutaram pela revogação da Lei Orgânica Constitucional de Ensino, promulgada por Pinochet em seu último dia de governo, bem como pelo passe escolar gratuito.

Para a integrante do movimento social Universidad Popular, de Valparaíso, Ximena Muñoz Canobra, os estudantes tiveram uma grande lição nesse período histórico, o que explica parte da radicalidade do movimento estudantil nas manifestações deste ano. “Os secundários colocaram em xeque o governo de Michelle Bachelet, que foi obrigada a mudar o Ministro da Educação. No entanto, para solucionar o conflito, o governo propôs uma mesa de negociação integrada por todos os setores sociais, na qual aprovou uma lei geral de educação que mantém os principais pontos críticos da lei orgânica de ensino. A lição desse momento para os estudantes foi que as mesas de negociação com o governo não funcionam e que é preciso lutar até o fim”, disse Ximena.

Partidos em descrédito

O acúmulo desse descontentamento social e do descrédito diante dos partidos tradicionais impulsionou o movimento estudantil e outros setores sociais a avançarem na radicalidade da luta em 2011. “O desenvolvimento do modelo neoliberal no Chile gerou a situação em que vivemos hoje. A explosão da luta não ocorre porque a direita está no poder, com Piñera, mas porque há um desgaste no modelo neoliberal. Nesse marco, há um desenvolvimento político dos movimentos sociais, que saltam das reivindicações pontuais para a luta política e de disputa por hegemonia”, opinou Valentina Olivares. Para ela, também existe uma questão geracional que impulsiona a luta da juventude. “Os jovens hoje mobilizados nasceram no governo civil. Não temos o histórico da repressão militar nem fomos partícipes do pacto que tentou solucionar a crise intraburguesa por meio do governo da Concertación, o qual possuía um discurso progressista sem, no entanto, modificar o modelo econômico. Somos uma geração diante de um novo contexto político”, explicou.

A expressão de que a luta estudantil consiste em uma luta contra o modelo neoliberal pode ser percebida pela convergência de pautas sociais, que incluem desde a luta por moradia e a defesa da Patagônia e dos índios Mapuche, à nacionalização do cobre. “Uma característica do movimento estudantil em 2011, além de sua massividade, é a pauta ampla. Temos que recuperar não apenas a educação pública, mas o Chile, porque o que nos roubaram não foi apenas a educação, mas nosso território”, afirmou o integrante da Federación Católica de Estudiantes de Valparaíso, Aquiles Hernández Barraza.

De acordo com o integrante da Mesa Nacional da Unión Nacional Estudantil (UNE) que congrega diversos coletivos estudantis do Chile, Gustavo Pacheco Figuera, o movimento estudantil emerge justamente no momento em que houve uma resposta contundente do povo de não aceitar as posições do governo. Por isso, as demandas mais corporativas saltaram rapidamente ao problema de fundo, que é o conjunto do sistema político e econômico. “A luta estudantil converge como a principal luta política hoje não porque exista a compreensão de que a educação irá resolver os problemas do país, mas porque canalizou um descontentamento social anterior e foi capaz de integrar a pauta de outros setores, recebendo respaldo popular”, analisou Gustavo.

Além da participação nas manifestações, o apoio popular e a adesão à luta estudantil por outros segmentos sociais podem ser percebidos de diversas maneiras. A Central Unitária dos Trabalhadores do Chile (CUT), por exemplo, convocou uma paralisação nacional para os dias 24 e 25 de agosto. De acordo com a militante do Movimiento de Pobladores en Lucha (MPL), Maria Mendez, a pauta da educação tem sido levada constantemente às assembleias de moradores nos bairros organizados pelo movimento. “As donas de casa se mostram a favor da luta e essa discussão tem ocorrido dentro das famílias, o que é uma mostra do interesse dos moradores”, disse Maria. Ela também pontuou que os filhos das famílias pobres não têm como ingressar em uma universidade e muitos saem antes mesmo de terminar os estudos.


Foto: Claudio Olivares Medina/CC

 
 
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