“Todo o Chile sabe que é preciso mudar”
 
Paul Floor Pilquil, Secretário da Confederação de Estudantes do Chile, destaca o perfil regional do protesto educativo chileno e sublinha a continuidade com os apelos dos chamados “pinguins” de 2006. Por Adrián Pérez, Página 12
 

Depois de participar no XVI Congresso Latino-Americano e Caribenho de Estudantes de Montevideu, Paul Floor Pilquil, secretário de Relações Internacionais da Confederação de Estudantes do Chile (Confech), destaca o perfil regional do protesto. “Enquadramo-nos na luta que o movimento estudantil vem a dar desde a Reforma de 181, também na luta que os estudantes estão a dar em Porto Rico ou na Colômbia”, adverte em diálogo com o Página/12.

Em 2006, os “pinguins” surgiram como um actor político que reclamava mudanças estruturais. Muitos desses jovens voltam a manifestar-se hoje pela reforma do sistema educativo.

Esse foi o primeiro vislumbre de uma troca de peças geracional e de um olhar mais crítico e livre sobre como se vinha a manejar a educação. A relação entre os “pinguins”2 e o actual movimento de estudantes é clara. São os mesmos jovens que naquelas mobilizações fizeram um tremendo esforço e todo o Chile se convenceu de que a educação tinha de mudar.

Que aprenderam com aquela experiência?

Hoje propomos uma exigência mais estrutural. Não vamos repetir as concessões de 2006 para que amanhã saia uma lei impulsionada pela direita ou pelos sectores mais conservadores.

A que concessões se refere?

Ao tema da estatização dos secundários ou ao fim do lucro na educação, questões que se levaram a uma mesa de diálogo de onde saíram propostas que se deviam respeitar. A Lei Geral da Educação só aumentou as subvenções para os colégios municipais, não tomou em conta a desmunicipalização nem a estatização dos colégios.

Esse palco de propostas incumpridas pelo Acordo renova-se com a oferta do presidente Sebastián Piñera?

As bolsas que o governo oferece são dirigidas a universidades privadas que não garantem qualidade, não fazem investigação e que nasceram para lucrar. São universidades com altas taxas de abandono e pouco índice de inserção laboral. Primeiro, planifiquemos a educação para determinar como e a quem se vai entregar esse recurso.

A esses apelos subjaz uma forte rejeição de um modelo político elitista e concentrador.

Na Confech declaramos-nos contra a educação de mercado e o projecto económico neoliberal. Cada ano vemos como os direitos do povo são arrasados pelos interesses empresariais. Esta crise que a educação reflecte e que há meses se viveu no sector energético amanhã reflectir-se-á no mundo dos trabalhadores.

Essa perspectiva torna-se evidente na adesão estudantil à greve convocada pela Central Unitária de Trabalhadores.

Historicamente, partilhamos a luta. Marchamos convictos de que o movimento popular no Chile se vai erguer com base na organização desses sectores. As transformações políticas e económicas que queremos realizar vão por esse lado.

Precisamente, trabalhadores e estudantes estão de acordo na necessidade de renacionalizar a exploração do cobre.

A utilidade que o sector privado tira da extracção do cobre chega ao ponto de pagar educação, saúde e habitação. A renacionalização do cobre poderia converter o Chile num país com possibilidade de fazer grandes contributos em ciência e tecnologia. Por isso, deve colocar-se a questão de uma nova reforma tributária para as empresas que exploram o cobre.

Piñera assinalou que nada é grátis nesta vida e que alguém tem que pagar. Como analisam essas expressões?

O presidente Piñera representa um sector da sociedade que considera que o labor individual deve primar sobre o colectivo. A única maneira de garantir a educação como um direito humano fundamental é entregá-la gratuitamente.

1 NT - «A autonomia universitária foi o valor máximo que a conhecida reforma de 18 sustentou e instituiu na província de Córdoba Argentina em 1918, a qual se foi expandindo por toda América latina. Implicava que os universitários se atribuíssem o seu próprio governo, que o ensino estivesse assente na ciência e não nos dogmas, que a admissão tanto dos docentes como dos alunos fosse pública. Estes ideais, entre outros, foram instaurados na universidade a partir de uma forte participação estudantil». Extraído de: MAZZOLA, Carlos. Crisis institucional en la Universidad Argentina. Avaliação (Campinas) [online]. 2008, vol.13, n.1 [consult. 2011-08-27], p. 89-100 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-40772008000100005&lng=en&nrm=iso>. ISSN 1414-4077.  http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772008000100005>.

2 A mobilização estudantil de 2006, entre Abril e Junho, e retomada depois em Setembro e Outubro, ficou conhecida como “Revolução dos Pinguins”, devido ao tradicional uniforme usado pelos estudantes.

Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

 
 
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