Os livros escolares gregos contêm uma dura lição econômica
 
Quando as crianças gregas são forçados a se contentar com fotocópias em vez de livros, fica claro o custo real desta crise da dívida. Por Aris Chatzistefanou e Katerina Kitidi, autores do documentário 'Deptocracy'.
 
Desde o primeiro dia, a questão não era se a Grécia ia entrar em incumprimento, mas em que termos iria fazê-lo. Foto de ΠΡΙΝ

A semana passada marcou o início do ano lectivo na Grécia. As crianças sorriam, mas as suas mochilas estavam vazios, pois o Estado não conseguiu distribuir os livros escolares. Em vez disso, o governo recorreu a medidas ridículas, como produzir milhões de fotocópias ou distribuir DVDs. Talvez pela primeira vez, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, há um perigo claro e presente de perder um ano académico inteiro. Pior ainda, há um perigo claro e presente de estar a ser criada uma “geração perdida”.

Em teoria, o governo de George Papandreou tem problemas mais sérios para resolver. Quando não estão fechados, os hospitais funcionam com uma enorme escassez de medicamentos e de pessoal médico. Os transportes públicos estão a cair aos bocados, enquanto o governo transfere maquinistas de comboios e motoristas de autocarros para outras funções, no sector público, para o desempenho das quais muitos não têm qualificações ou experiência. O sector público, bode expiatório favorito dos média, está a desintegrar-se devido ao êxodo em massa de funcionários públicos. O desemprego está a disparar no sector privado: actualmente, sete em cada 10 empresas estão a despedir trabalhadores. O número de sem-abrigo aumentou 25%, o de suicídios 40%.

No entanto, foi a falta de livros escolares que representou o golpe mais duro para o coração das famílias gregas. A Grécia era um país em que os pais costumavam vender os seus bens para garantir o estudo dos seus filhos. Um diploma universitário e o domínio de uma ou mais línguas estrangeiras, eram consideradas as qualificações mínimas para uma sociedade que desesperadamente desejava provar que não era o “parente pobre” da Europa. Agora, milhares de crianças já só anseiam concluir o ensino secundário.

A questão dos livros escolares é típica da lógica do governo. Quando viu que não conseguia imprimir os livros, o Ministério da Educação sugeriu o uso de fotocópias, ignorando que isso implicou custos cinco vezes maiores. A mesma lógica está por trás de cada decisão do governo. O custo do sistema de transportes públicos que funciona mal é mais alto que o dinheiro poupado com a retirada dos funcionários. A privatização das empresas estatais reduz as receitas do Estado, ao mesmo tempo que sobrecarrega ainda mais o fundo do desemprego.

A Grécia em 2011 não é só um país que enfrenta uma grave crise financeira. É um lugar onde o governo está a sacrificar o seu povo para satisfazer os bancos estrangeiros e gregos. Este governo está a tributar os mais pobres dos pobres, ao mesmo tempo que deixa intactos os privilégios desfrutados pelo sector bancário, pela igreja (a maior latifundiária do país) e pelos armadores. Em 2010, os armadores gregos, proprietários de 16% da marinha mercante mundial, pagaram apenas 10 milhões de euros de impostos. No mesmo período, os imigrantes desamparados contribuíram com 50 milhões de euros para os seus processos de legalização.

Aprovando e seguindo os catastróficos conselhos do FMI, do BCE e da UE, o governo é responsável pela queda do PIB em 10% no período de 2010-11. E agora, Berlim está a punir os seus alunos mais obedientes das aulas de austeridade, ao preparar um “plano B” para o inevitável default grego. É verdade que a própria Grécia é parcialmente responsável por esta situação – mas está também a pagar o preço do colapso do edifício neoliberal da zona euro. E, no entanto, induzem os cidadãos da UE a odiar os gregos, mas não o sistema que cria os défices e as dívidas na periferia da Europa.

Havia sobre a mesa soluções alternativas. Mas o governo, junto com um grupo de bem-pagos jornalistas e académicos, descartou-os. A Grécia poderia ter definido os seus próprios termos para a suspensão dos pagamentos, poupando o país, bem como milhões de cidadãos da UE, de pagar milhares de milhões de euros. Ficou claro desde o início que a decisão do governo de dar aos bancos do Norte da Europa o tão necessário tempo para se livrarem dos títulos tóxicos da Grécia apenas serviu para acelerar o default. Desde o primeiro dia, a questão não era se a Grécia ia entrar em incumprimento, mas em que termos iria fazê-lo. Tanto a 'troika' quanto o governo grego deram a mesma resposta: a Grécia entraria em default nos termos de mercados.

Quinta-feira 15 de Setembro de 2011

Publicado no guardian.co.uk

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

 
 
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