O segundo buraco do ozono
 
No Ártico como também no Polo Sul: culpa de um inverno muito rígido na estratosfera e dos compostos de cloro e flúor. Artigo de Elena Dusi, publicado em La Repubblica.
 
Foto de NASA Goddard Photo and Video/Flickr
Foto de NASA Goddard Photo and Video/Flickr

Uma “destruição sem precedentes”, que na última primavera “atingiu níveis semelhantes aos da Antártida”. Pela primeira vez, “podemos falar oficialmente de um buraco de ozono também na região do Árctico”.

A revista Nature baptizou assim o novo “rasgão” na coberta que nos protege das radiações ultravioletas: um buraco cinco vezes maior do que a Alemanha. Na Primavera de 2011, durante quase um mês, no Polo Norte, abriu-se um buraco de ozono gémeo do outro no Polo Sul. Com a diferença de que o excesso de radiação ultravioleta em torno ao Árctico atingiu os seres humanos que vivem nas regiões setentrionais da Europa, Ásia e América.

No dia 5 de Abril de 2011, a Organização Meteorológica Mundial havia lançado efectivamente o alerta para um excesso de raios ultravioletas nos países escandinavos. “Em caso de valores muito altos de UV – lia-se no comunicado – poderiam bastar poucos minutos de exposição ao Sol, mesmo em Abril, para se ficar queimado”. E um leve excesso de ultravioletas (mesmo longe de serem perigosos) também foi medido naqueles dias pelos aparelhos do Instituto de Ciências Atmosféricas e do Clima do CNR em Bolonha.

“Os valores em Bolonha permaneceram insolitamente altos por alguns dias. Na nossa estação de Lampedusa, as medições, ao contrário, eram normais”, explica Vito Vitale, investigador do Instituto.

As suspeitas desta Primavera foram confirmadas agora, com o estudo da Nature coordenado pelo Instituto Alfred Wegener para a Investigação Meteorológica e Polar, de Potsdam, que reúne os dados dos satélites e de 30 estações situadas acima do Círculo Polar árctico. O que provocou o ano horrível do ozono no Polo Norte foram um inverno particularmente frio na estratosfera e os compostos de cloro e flúor que irão sobreviver por algumas décadas depois da proibição imposta pelo Protocolo de Montreal, assinado em 1987 e que entrou em vigor em 1989.

Na faixa de atmosfera compreendida entre 18 e 20 quilómetros, o desaparecimento do ozono atingiu até 80%: só uma em cada cinco moléculas sobreviveu à Primavera, a estação em que se concentra o processo químico da destruição desse gás. “O fenómeno começou em Janeiro, depois acelerou-se a tal ponto que as concentrações de ozono atingiram níveis muito mais baixos do que no ano anterior”, explica Gloria Manney, do Jet Propulsion Laboratory da Nasa, primeira autora do estudo. “O pico mínimo foi registado durante 27 dias entre Março e o início de Abril em uma superfície de cerca de 2 milhões de quilómetros quadrados”.

Um empobrecimento semelhante, observam os investigadores, era típico do céu acima da Antártida antes do Protocolo de Montreal. Mas a quantidade de clorofluorcarbonetos na atmosfera é só um dos factores em jogo. O outro ingrediente é o frio. A cerca de 77 graus abaixo de zero, de facto, desencadeiam-se as reacções químicas que levam os compostos de cloro e de flúor a agredir o ozono. Enquanto na Antártida essas condições se prologam por 4-5 meses por ano, no Polo Norte, mais suave, o frio extremo dura 2-3 meses.

Não foi isso que aconteceu no início de 2011, quando a temperatura permaneceu abaixo do limite perigoso durante quatro meses (de Dezembro até o fim de Março), criando aquela que os investigadores hoje definem como “uma condição sem precedentes” e “paralela à que é medida na Antártida”. Outras estações cinzas para a “coberta” do Polo Norte haviam sido registadas em 2005, em 2000 e em 1996. “Mas nesses anos a destruição do ozono havia sido incomparavelmente inferior do que em 2011″. Neste ano, a perda de gás foi quase o triplo com relação a 1997 e comparável à registada na Antártida em 1985, ano em que a existência de um buraco de ozono foi denunciada pela primeira vez no mundo.

“As mudanças climáticas vão aumentar ainda mais o buraco de ozono na Antártida”

Para Michael Colacino, que coordenou as medições na Antártida, com o Protocolo de Montreal, só foi enfrentado até agora o lado químico do problema.

“O Protocolo de Montreal interveio no lado químico do problema. Mas o climático ainda está em aberto”, explica Michael Colacino, que foi director do Instituto de Física Atmosférica do CNR e coordenou até ao ano passado as medições feitas na Antártida.

Eis a entrevista:

Por quanto tempo permanecerão ativos os gases que destroem o ozono?

A acção de destruição do cloro na atmosfera pode durar 30 ou 40 anos. Por isso, na época de Montreal, previa-se que a quantidade de ozono na Antártida voltariam ao normal em torno de 2020-2025. Hoje, porém, esse prazo foi postergado para não antes de 2050. E aqui intervém o discurso sobre as mudanças climáticas.

Os autores da Nature evitam entrar nesse assunto.

Mas a temperatura é um factor determinante, porque a destruição do ozono é possibilitada pelo frio intenso que é registado nas nuvens estratosféricas polares. E sabemos muito bem que, quando a temperatura aumenta nas camadas baixas da atmosfera, por razões de equilíbrio radioactivo, deve diminuir nas camadas altas.

A tradução é de Moisés Sbardelotto para IHU On-line, disponível em Outra Política

 
 
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