Os 'demasiado grande para falir' e a teoria dos grandes números
 
O fracasso potencial de bancos considerados demasiado grandes para falir ( too big to fail, TBTF ) apresenta desafios insolúveis aos decisores políticos. Artigo publicado Asia Times on Line de 09/Novembro/2009. Por Henry C.K. Liu
 
O fracasso potencial de bancos considerados demasiado grandes para falir ( too big to fail, TBTF ) apresenta desafios insolúveis aos decisores políticos. A inaceitabilidade do impacto sistémico de tais fracassos sobre a ordem financeira, económica e social requer a intervenção do governo num mercado em crise. Até agora, a resposta oficial à ameaça dos TBTF tem sido centrada na ilimitada protecção governamental de credores de grandes bancos em relação às perdas que eles do contrário enfrentariam com as suas falências. Mas a expectativa de protecção do credor dos TBTF realmente encoraja os grandes bancos a assumirem mais risco, empurrando-os portanto para mais perto do abismo da falência, resultando em significativos custos líquidos recorrentes para a economia e a sociedade.

A administração Obama e o Congresso estão agora a tentar tratar a questão fundamental dos TBTF, geralmente reconhecida como um factor contribuidor chave para o quase colapso do sistema financeiro global em 2008. Contudo, os programas governamentais de salvamento destinados às grandes instituições financeiras resultaram em que os bancos se tornaram ainda maiores do que antes da crise. Aparentemente, a solução da administração para o "demasiado grande para falir" é fazer bancos ainda maiores.

Consta que o JP Morgan Chase retém mais de US$1 de cada US$10 depositados nos EUA. Os quatro maiores super bancos (JP Morgan Chase, Bank of America, Wells Fargo e Citibank) agora emitem uma de cada duas hipotecas e cerca de dois de cada três cartões de crédito nos EUA. Desde a crise financeira, a cada um destes quatro super bancos é permitido que retenham mais de 10% dos depósitos do país, tendo sido isentos de uma regra antiga que vedava tal dominação do mercado. Em várias regiões metropolitanas, a estes novos super bancos é agora permitido tomarem fatias de mercado para além do que as orientações antitrust do Departamento de Justiça permitiam anteriormente. Tal concentração da fatia de mercado prejudicará os consumidores de duas maneiras. Ela manterá alto o custo do crédito para os tomadores de empréstimo devido à falta de competição, mesmo quando os custos dos fundos para os bancos permanecem artificialmente baixos. Também pressionará as reservas dos bancos para cima a fim forçá-los a passar o custo para os tomadores de empréstimos. O sistema bancário americano é agora de um punhado de grandes companhias globais de trading que pretendem ser bancos, ganhando enormes lucros com transacções de alto risco efectuadas com dinheiro proporcionado pelo governo, ao invés de uma rede de pequenas instituições locais conservadoras a servirem comunidades do seu domicílio meramente como intermediárias de dinheiro através de depósitos locais por taxas nominais.

Sheila C. Bair, presidente do Federal Deposit Insurance Corp, descreveu o problema dos TBTF como: "Eles alimentam a crise e tornaram-se piores por causa da crise".

O sistema financeiro dos EUA está a parecer-se mais como um trust financeiro de um pequeno número de super bancos a operarem com deliberado risco moral ( moral hazard ) apoiado pelos sempre prontos salvamentos governamentais, ao passo que os consumidores são cada vez mais confrontados com menos escolhas de serviços financeiros entre fornecedores competitivos.

Os esforços da administração Obama para introduzir um novo regime regulatório a fim de impedir crises financeiras recorrentes disparadas pelas instituições TBTF inclinam-se a impor padrões de capital mais elevados a estas super instituições financeiras e a fortalecer o Federal Reserve como um super regulador para tomar o comando de um conjunto mais vasto de firmas financeiras perturbadas a fim de tornar mais lento o seu negócio de um modo ordenado e com perdas mínimas para os depositantes. Se bem que capital adequado seja necessário uma banca saudável, o problema com o sistema bancário de hoje é que está infestado com comércio de conveniência (propriety trading) de alto risco que é o que as exigências de capital dos bancos convencionais possivelmente não podem manipular.

O secretário do Tesouro Timothy F. Geithner declara que o imperativo de política pública dominante que motiva a reforma é "tratar do risco moral criado pelo que nós fizemos, o que tivemos de fazer na crise para salvar a economia". Mas há pouca evidência de que o risco moral esteja a ser reduzido ou de que a economia esteja a ser salva. O que foi salvo foi o segmento de elite da indústria bancária e financeira a expensas da saúde a longo prazo da economia, enquanto o risco moral é agora o modo operativo aceite para super bancos.

Os dados mais recentes do FDIC [Federal Deposit Insurance Corporation] revelam que os novos super bancos agora podem tomar emprestado de forma mais barata do que os seus pares mais pequenos porque os credores assumem serem estas grandes instituições a prova de falhas. Esta tendência deixará o mercado financeiro dominado por um trust gigantesco de super bancos entrelaçados.

Desde a crise, ao JP MorganChase, Bank of America, Wells Fargo e Citibank foi permitido possuírem, cada um, mais de 10% dos depósitos do país apesar de uma regra muito antiga que vedava essa prática. Em várias regiões metropolitanas, a estes bancos é agora permitido tomarem fatias de mercado para além do que as orientações anti-trust do Departamento da Justiça permitiam anteriormente.

O plano da Casa Branca, tal como esboçado até agora, permitiria a estes super bancos, cuja falência colocaria em risco o sistema financeiro e a economia, que continuassem a existir, mas tornaria muito mais custoso para eles proporcionarem serviços financeiros ao público. O plano forçaria tais instituições a manterem mais fundos na reserva e tornaria mais difícil para eles contraírem empréstimos demasiado pesadamente contra os seus activos. O plano exigiria que estes super bancos produzissem os seus próprios procedimentos para se desenrascarem no caso de uma crise, um plano que responsáveis da administração dizem poder ser tornado público previamente, presumivelmente para impor disciplina de mercado às companhias maiores e mais interconectadas. Uma vez que bancos existem para fazer lucros, o resultado final é que o custo de serviços bancários aumentará tanto para os tomadores de empréstimos corporativos como para o público em geral.

O plano administração simplesmente passa o custo do risco moral para os consumidores. O que precisa ser feito é dividir estes super bancos e as firmas de trading que pretendem ser bancos em instituições regionais separadas por corta-fogos financeiros a fim de impedir o contágio sistémico, e impor limites estritos ao hedging circular. Mas a administração e os seus aliados do Congresso continuam a rejeitar tais propostas.

Mervyn King, governador do Banco da Inglaterra, e Paul A. Volcker, antigo presidente do Fed, sugeriram separadamente passos impetuosos a fim de forçar as maiores instituições financeiras do país a se desfazerem dos seus anexos mais arriscados. King apelou à ressurreição do Glass-Steagall , uma legislação do New Deal que separava os bancos de investimento dos bancos comerciais.

A solução para o dilema do "demasiado grande para falir" repousa intuitivamente em impedir as instituições de se tornarem demasiado grandes. Mas devido à interconexão de mercados, mesmo falências em grande número de pequenas entidades podem disparar a falência sistémica. Isto dá a entidades com perfil de risco semelhante, mas não demasiado grandes individualmente, a capacidade de provocar falência sistémica.

Na matemática a teoria dos grandes números inclui o fenómeno do crescimento exponencial, o qual verifica-se quando a taxa de crescimento de uma função matemática é exponencialmente proporcional ao valor actual da função. Tal crescimento exponencial é matematicamente insustentável e acabará por implodir.

O marketing multinível é concebido para criar uma grande força de marketing ao compensar não só as vendas que gera como também as vendas de outras forças de marketing que cada força do mercado introduz na companhia, criando abaixo uma linha ilimitada de distribuidores e uma hierarquia de múltiplos níveis de compensação na forma de uma pirâmide, tal como aquela utilizada pela Amway Corporation . A crise nas hipotecas sub-prime é provocada pelo maciço marketing em rede, ainda que individualmente cada hipoteca sub-prime seja apenas um pequeno contrato.

Nenhum banco, ainda que grande e bem capitalizado, pode aguentar o ataque violento de um colapso sistémico devido à exposição ao risco de terceiros na generalidade do mercado efectuado pelo marketing multi-nível de passivos tais como as hipotecas subprime e a sua titularização.

Portanto o problema do fracasso sistémico de mercado é provocado não simplesmente por unidades de grandeza, mas também pela ausência de corta-fogos para impedir o crescimento exponencial insustentável na exposição aos riscos e o resultante efeito de contágio sistémico de falências em grande número devidas à reacção encadeada de terceiros. É difícil entender porque os decisores políticos não estão a tomar conhecimento deste facto óbvio de modo a centrarem-se sobre a necessidade de corta-fogos em mercados financeiros interconectados tanto para impedir a escada da reacção da cadeia de risco como para conter o contágio do fracasso sistémico.
09/Novembro/2009

O original encontra-se no Asia Times on Line de 09/Novembro/2009, Failure written into 'too big' policy , no NewDeal 2.0 Project do Franklin and Eleanor Institute, Coming Implosion: Too Big To Fail and the Theory of Large Numbers , e em http://www.henryckliu.com/page205.html
 
 
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