O Slow Food e o alimento bom, limpo e justo
 
O Slow Food incentiva o consumo de alimentos com sabor, cujo cultivo e reconhecimento dos produtores é levado em consideração, explica a engenheira de alimentos brasileira Fabiana Thomé da Cruz.
 
Slow Food promove uma valorização de melhores hábitos alimentares

“O conceito de alimento bom, limpo e justo, definido no Manifesto Slow Food para a Qualidade, compõe a filosofia do Movimento Slow Food e refere-se, em linhas gerais, ao sabor e a o modo de cultivo dos alimentos e também ao reconhecimento dos produtores pelo seu trabalho”. A definição é da engenheira de alimentos Fabiana Thomé da Cruz, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Por outro lado, o modelo de alimentação classificado como “fast” é caracterizado por ser composto por “alimentos altamente processados, ricos em gorduras, carboidratos, açúcares e sódio”.

Graduada em Engenharia de Alimentos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, do Brasil, Fabiana é mestre em Agroecossistemas pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e doutoranda em Desenvolvimento Rural pela UFRGS. Integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura (PGDR/UFRGS) e é co-editora da Coluna Alimentação e Cultura, mantida no website do Slow Food Brasil.

O que é bom, limpo e justo na perspectiva do Slow Food?

O conceito de alimento bom, limpo e justo, definido no Manifesto Slow Food para a Qualidade, compõe a filosofia do Movimento Slow Food e refere-se, em linhas gerais, ao sabor e ao modo de cultivo dos alimentos e também ao reconhecimento dos produtores pelo seu trabalho. Alimento bom é entendido como decorrência de modos de produção e de processamento que tenham o objectivo de preservar ao máximo a naturalidade dos alimentos.

Alimento limpo é aquele produzido por meio de modos de cultivo que adoptam práticas de agricultura, manejo animal e processamento que buscam, em todas as etapas, ter menor impacto possível para o meio ambiente a para a biodiversidade, não oferecendo, ao mesmo tempo, riscos à saúde dos consumidores. Nessa proposta, alimento limpo seria, por exemplo, aquele produzido sem uso de agrotóxicos e processado preferencialmente com mínimo emprego de aditivos químicos.

Alimento justo é aquele que, durante todo o processo produtivo, oferece condições de trabalho justas para os produtores, tanto em termos de geração de rendimento como em relação ao respeito pela diversidade de culturas e modos de vida.

Qual é a importância de se repensar a qualidade dos alimentos e o tipo de alimentação da nossa sociedade?

De modo geral, repensar a qualidade dos alimentos e da alimentação significa orientarmos as nossas escolhas para atender ao conceito de alimento bom, limpo e justo, que discutimos. Se considerarmos que as escolhas alimentares que fazemos têm implicações directas não apenas na nossa saúde, mas também na “saúde” do meio ambiente e nas condições de trabalho na agricultura, em vez de privilegiarmos modelos pautados pela produção massiva e padronizada de alimentos, podemos valorizar alimentos produzidos localmente, por produtores que tenham os seus métodos de produção e processamento reconhecidos por respeitar a saúde dos consumidores o meio ambiente.

Repensar a qualidade dos alimentos e da alimentação significa reconhecermos que nós, consumidores, podemos influenciar os rumos da produção e sistema de distribuição de alimentos e, na medida do possível, orientarmos as nossas atitudes, comportamento e, particularmente, as nossas compras, para a valorização de modos de produção e distribuição de alimentos que, de acordo com a filosofia do Movimento Slow Food, sejam considerados bons, limpos e justos.

Quais são os principais problemas decorrentes da alimentação errada, do estilo "fast"?

Falar que existe uma alimentação “errada” supõe aceitar que existe uma alimentação “certa”. Contudo, é importante reconhecer que não se trata de determinar qual é a alimentação certa, mas sim de compreender que cada sociedade se alimenta de acordo com os seus hábitos e a sua cultura. Se tomarmos a diversidade alimentar de cada sociedade como “certa”, podemos argumentar que um dos desafios decorrentes da alimentação “errada” refere-se à perda da diversidade alimentar e culturas alimentares locais em prol de um modelo de alimentação homogeneizante, global, padronizado. Esse modelo de alimentação, que poderíamos genericamente considerar “fast”, tem por base alimentos altamente processados, ricos em gorduras, carboidratos, açúcares e sódio. Dietas com essas características, que nas últimas décadas vêm se difundido rapidamente também no Brasil, apresenta como consequências problemas de saúde como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, hipertensão, etc. Mas é importante ressaltar que, além da perda de diversidade alimentar e de problemas associados directamente à saúde dos consumidores, esse modelo apresenta também implicações ambientais (consequências de práticas de agricultura intensiva, mecanizada, com elevada utilização de insumos químicos), e implicações sociais (ocasionadas pela significativa marginalização e empobrecimento de produtores rurais).

Em que medida o Slow Food promove uma valorização de melhores hábitos alimentares e, também, de convívio e sociabilidade entre as pessoas?

A tendência contemporânea aponta para a diminuição do tempo dedicado ao preparo e consumo de alimentos, a flexibilização dos horários e a individualização das refeições. Contudo, diferentemente da maioria das refeições durante a semana, feitas rápida e individualmente em frente à televisão ou ao computador, as refeições de final de semana ou de datas festivas requerem que pensemos os cardápios e quem serão os convidados com quem iremos compartilhar esses momentos. Nessas ocasiões, o cardápio é cuidadosamente pensando pelos anfitriões para responder ao estilo e ao gosto dos convidados. Essas atitudes remetem à forte associação entre comida e comensalidade, convívio, sociabilidade. O Slow Food, na medida em que promove a valorização e diversidade de ingredientes, receitas e hábitos alimentares locais, reforça o prazer presente na escolha de ingredientes, no preparo das refeições, na convivência e degustação da comida e incentiva que, na medida do possível, esse prazer esteja presente à mesa não apenas nos finais de semana e dias festivos, mas também diariamente.

16/10/2011

Entrevista publicada no site IHU online

 
 
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