Islamistas ganharam na Tunísia e admitem governar com laicos
 
O partido islamista Ennahda (Renascimento) deverá ser o vencedor das eleições gerais tunisinas e poderá formar maioria com dois partidos laicos de esquerda, de acordo com estimativas e declarações de dirigentes políticos.
 
As eleições gerais elegeram uma assembleia com função constituinte da qual sairá um governo transitório até às eleições parlamentares e presidenciais do próximo ano.
As eleições gerais elegeram uma assembleia com função constituinte da qual sairá um governo transitório até às eleições parlamentares e presidenciais do próximo ano. Foto Amine Ghrabi/Flickr

Os resultados finais oficiais ainda não foram divulgados até ao final da tarde de terça-feira, mas de acordo com estimativas dos seus dirigentes, não contestadas pelos adversários, o Ennahda deverá ter cerca de 30 por cento dos votos e cerca de 60 deputados num total de 217. Considerado um dos principais grupos de oposição ao regime deposto de Ben Ali, ferozmente perseguido por este sobretudo a partir do momento em que a vitória fundamentalista islâmica na Argélia foi anulada por golpe de Estado, em 1990, o Ennahda resistiu e sobreviveu apesar de muitos dos seus dirigentes terem sido executados. Era dado como favorito das primeiras eleições livres na Tunísia, proporcionadas pela libertação decorrente do primeiro movimento da chamada “Primavera Árabe”.

Ainda de acordo com estimativas, o segundo e terceiros lugares estão a ser cerradamente disputados por dois partidos que se consideram de esquerda, o Ettakatol (Forum Democrático pelo Trabalho e as Liberdades) e o Congresso para a República (CPR), creditados ambos em cerca de 15 a 16 por cento.

O maior derrotado é o Partido Democrático Progressista, que se considera de centro-esquerda e que dizia disputar o triunfo com os islamistas. O facto de se apresentar como alternativa ao partido religioso pode tê-lo tornado vítima do confronto directo com os vencedores.

Um partido designado  Aridha Chaabia, que fez campanha apenas através de um canal de televisão a partir de Londres e que é conotado com figuras do RCD de Ben Ali, elegeu até gora 8 deputados em 67 já decididos, um número idêntico ao dos partidos que disputam o segundo lugar, mas o seu isolamento político não o torna, à partida, determinante para as decisões políticas que serão tomadas a seguir à proclamação dos resultados.

As eleições gerais elegeram uma assembleia com função constituinte da qual sairá um governo transitório até às eleições parlamentares e presidenciais do próximo ano.

Os dirigentes do partido islamista declararam-se dispostos a formar um governo de “unidade nacional” mas também a governar com os dois partidos laicos que disputam o segundo lugar. Os responsáveis do partido afirmam o seu compromisso com as liberdades públicas, declarando opor-se à discriminação das mulheres e das minorias regionais e sociais do país.

“O essencial é respeitar as liberdades”, comentou o secretário geral do partido, Hamadi Jebali. “Respeitaremos os direitos das mulheres com base no código do estatuto pessoal e da igualdade entre os tunisinos sejam quais forem as suas religiões, sexo ou situação social”, declarou outro dirigente do partido, Nurredine Bhiri. O Ennahda apresentou uma mulher, Suad Abdel Rahim, como cabeça de lista na capital, Túnis.

Um membro da Comissão Executiva do Ennahda, Ali Larayd, disse à Reuters que “estamos prontos a formar uma aliança com o Congresso para a República, de Moncef Marzuki, e o Ettakatol, de Mustafá Bem Jaafar, uma vez que as suas opiniões não estão muito afastadas das nossas e estes dois partidos obtiveram um grande número de votos.

O principal dirigente do CPR, Moncef Marzuki, conhecido opositor a Ben Ali durante anos exilado em França, negou que tivesse feito um pré-acordo governamental com os islamistas ainda durante a campanha. “As eleições fazem-se depois de contados os votos”, disse.

As eleições foram consideradas e justas pelos observadores internacionais, que registaram apenas “irregularidades menores”.


Artigo publicado no portal do Bloco no Parlamento Europeu.

 
 
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