Oligarquia no estilo americano, por Paul Krugman
 
Praticamente toda a redistribuição do rendimento tem ido para os americanos que fazem parte dos 1% mais ricos. Isto é, os manifestantes de Occupy Wall Street que se apresentam como representantes dos 99% estão basicamente certos, e os especialistas que asseguram que a questão é relativa à educação e não aos ganhos da pequena elite, estão completamente errados. Por Paul Krugman, Economista norte-americano. Autor de diversos livros, colunista do The New York Times. Professor de Economia e Assuntos Internacionais na Universidade Princeton. Prémio Nobel da Economia em 2008.
 
“We are the 99%” - Occupy Wall Street, 26 de Setembro de 2011 – Foto de Paul Stein/Flickr
“We are the 99%” - Occupy Wall Street, 26 de Setembro de 2011 – Foto de Paul Stein/Flickr

A desigualdade está de volta às notícias em parte graças ao movimento Ocuppy Wall Street, mas também com um pouco de ajuda do Escritório do Orçamento do Congresso (CBO). E sabemos o que isso significa: está na hora de trazer os “ofuscadores”!

Qualquer um que tenha lidado com essa questão sabe do que estou a falar. Quando a crescente disparidade de rendimentos ameaça ficar em foco, um grupo de defensores tenta borrar a imagem novamente. Os think tanks produzem relatórios alegando que a desigualdade não está realmente a aumentar, ou que ela não é importante. Especialistas tentam pintar um quadro mais ameno, alegando que na verdade não é uma questão de ricos contra os mais pobres, mas sim dos cultos contra os menos cultos.

Então o que é preciso saber é que essas alegações são basicamente tentativas de obscurecer a dura realidade: temos um sociedade na qual o dinheiro está cada vez mais concentrado nas mãos de uns poucos, e na qual essa concentração de rendimento e riquezas ameaça transformar-nos numa democracia somente no nome, e não de facto.

O Escritório do Orçamento apresentou um pouco dessa dura realidade num relatório recente, documentando um declínio acentuado na participação do rendimento por parte dos americanos de baixo e médio rendimento. Gostamos de pensar que somos um país de classe média. Mas com 80% dos lares mais pobres agora recebendo menos do que metade do rendimento total, este é um modo de pensar que cada vez mais vai contra a realidade.

Como resposta, já apareceram algumas explicações bem conhecidas: os dados estão errados (não estão); os ricos são um grupo que muda constantemente (não é o caso); e assim por diante. No momento, a explicação mais popular parece ser aquela que diz que talvez não sejamos uma sociedade de classe média, mas somos ainda uma sociedade de alta classe média, na qual uma ampla classe de trabalhadores altamente bem qualificados, que possuem habilidades para competir no mundo moderno, está a ir muito bem.

Essa é uma boa estória, e muito menos perturbadora do que a de uma nação na qual um grupo muito mais pequeno de pessoas ricas está a ficar cada vez mais dominante. Mas ela não é verdadeira.

Os trabalhadores com curso superior têm realmente, em média, ganhado melhor do que aqueles que não têm, e a distância entre eles tem aumentado ao longo do tempo. Mas os americanos altamente qualificados não são imunes à estagnação do rendimento e à crescente insegurança económica.

Os ganhos nos salários para a maioria dos trabalhadores com diploma universitário não tem sido grande (e é não-existente desde 2000), enquanto que até mesmo os bem qualificados não têm mais garantias de conseguir empregos com benefícios. Em particular, nos dias de hoje, trabalhadores com diploma universitário, mas nenhum outro título, têm menos chances de conseguir planos de saúde pagos pelo trabalho do que trabalhadores que tinham somente o ensino médio completo em 1979.

Então, quem está a ter os grandes ganhos? Uma minoria muito rica e muito pequena.

O relatório do Escritório de Orçamento diz-nos que praticamente toda a redistribuição do rendimento acima dos 80% mais pobres, tem ido para os americanos que fazem parte dos 1% mais ricos. Isto é, os manifestantes que se apresentam como representantes dos 99% estão basicamente certos, e os especialistas que asseguram que a questão é relativa à educação e não aos ganhos da pequena elite, estão completamente errados.

Se há algo que os manifestantes estão a fazer errado é colocar o ponto de corte muito em baixo. O relatório recente do escritório de orçamento não analisa os 1% de cima, mas um relatório anterior que ia até 2005, descobriu que quase dois terços da crescente participação do percentual de cima do rendimento na verdade foi para os primeiros 0,1% - Os 1/1000 americanos mais ricos, cujos rendimentos cresceram mais de 400% entre 1979 e 2005.

Quem são esses americanos 0,1% mais ricos? São empresários heroicos criadores de empregos? Não, na sua maioria, são executivos de empresas. Uma investigação recente mostrou que cerca de 60% do topo 0,1% ou são executivos em companhias não-financeiras ou ganham o seu dinheiro em finanças, i.e., Wall Street, falando de modo amplo. Adicionem advogados e pessoas que trabalham no mercado imobiliário, e estamos a falar de mais de 70% dos 1/1000 sortudos.

Mas por que é importa esta crescente concentração de rendimentos e riquezas em poucas mãos? Parte da resposta está no facto de que a crescente desigualdade aponta para uma nação em que a maioria das famílias não participa plenamente no crescimento económico. A outra parte da resposta está no facto de que uma vez que vemos o quanto ricos ficaram os ricos, torna-se mais atraente o argumento de que impostos mais altos para os que ganham mais deveria ser parte de um orçamento a longo prazo.

A resposta mais ampla, no entanto, é a de que a concentração extrema de rendimento é incompatível com a democracia real. Podemos seriamente negar que o nosso sistema político tem sido distorcido pela influência do dinheiro, e que essa distorção está a ficar pior na medida em que a riqueza dos poucos cresce cada vez mais?

Alguns especialistas tentarão dissipar as preocupações sobre a crescente desigualdade como se fosse uma tolice. Mas a verdade é que toda a natureza da nossa sociedade está em jogo.

Artigo publicado originalmente no The New York Times

Tradução de Márcio Larruscahim para Carta Maior

 
 
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