Pico petrolífero: Carta a The Guardian
 
..."Fiquei muito satisfeito por ter dado uma tão grande importância, na sua edição de 10 de Novembro, ao papel da Agência Internacional de Energia (AIE) na avaliação da situação da escassez do petróleo". por Collin Campbell
 
 
por Collin Campbell

Caro senhor,

Fiquei muito satisfeito por ter dado uma tão grande importância, na sua edição de 10 de Novembro, ao papel da Agência Internacional de Energia (AIE) na avaliação da situação da escassez do petróleo. É uma das questões mais importantes que o mundo moderno enfrenta, dada a actual dependência da energia barata do petróleo.

Posso fornecer-lhe mais algumas informações sobre este tópico, a partir da minha experiência pessoal. Tomei consciência desta questão pela primeira vez em 1969 em Chicago quando fiz parte duma equipa para uma avaliação mundial para a Amoco (hoje integrada na BP). Posteriormente, quando estive a dirigir a Fina na Noruega, a companhia patrocinou um projecto de investigação sobre o assunto em colaboração com as autoridades norueguesas. Utilizámos dados públicos sobre as reservas, porque na altura eu ainda não tinha percebido até que ponto eles não eram fiáveis.

Os resultados foram publicados no "The Golden Century of Oil 1950-2050" (Kluwer Academic). Isto assunto atraiu a atenção da Petroconsultants, uma companhia com sede em Genebra que era utilizada pelas companhias petrolíferas internacionais para montar uma base de dados válida sobre actividades petrolíferas em todo o mundo incluindo a dimensão das descobertas e estatísticas de perfuração. Convidaram-me a refazer o estudo, utilizando dessa vez a sua base de dados abrangente de praticamente todos os campos petrolíferos do mundo. Neste projecto fui acompanhado por Jean Laherrère, antigo Director de Exploração da companhia petrolífera francesa TOTAL, que tinha desenvolvido diversas técnicas analíticas. O estudo resultante foi publicado e vendido a 50 mil dólares por exemplar, mas depois foi suprimido por pressão de uma importante companhia petrolífera americana, que prefiro deixar no anonimato. No entanto, a Petroconsultants publicou um livro, "The Coming Oil Crisis" (Multi-Science), que escrevi resumindo os resultados, e também concordou em que Laherrère e eu aceitássemos um convite para escrever um artigo para a Scientific American: The End of Cheap Oil (Março 1998).

A IEA adquiriu esse livro e contactou-me, enviando um analista para passar uma semana a rever os dados. Foi evidente que a equipa da AIE que estava a trabalhar no assunto ficou totalmente convencida e avaliou a sua importância. Depois efectuaram um relatório para os ministros do G8, reunidos em Moscovo (International Energy Agency, 1998, World Energy Prospects to 2020; Report to G8 Energy Ministers, March 31 www.iea.org/g8/world/oilsup.htm ). O texto era bastante suave mas continha um importante quadro a mostrar que a procura do petróleo ultrapassaria a oferta por volta de 2010, a não ser quanto à entrada de um item designado por "Não Convencional Não Identificado", cuja oferta era representada apenas para 20% no máximo das necessidades mundiais em 2020. Tendo conseguido a aprovação dos ministros do G8, a equipa da AIE pôde incluí-lo no World Energy Outlook para 1998.

Na verdade, o "Não Convencional Não Identificado" era uma mensagem codificada para a escassez. Expliquei isso a um jornalista que contactou o elemento da AIE que ficou satisfeito por esta importante mensagem escondida ter podido passar. Mas quando foi publicado (Fleming D., 1999, The next oil shock? Prospect April), claro que a AIE se meteu num grande sarilho com os seus patrões dos governos da OCDE, e na edição seguinte do World Energy Outlook, o "Não Convencional Não Identificado" passou a ser "Convencional Não-OPEP", sem mais comentários nem explicações.

A principal função da AIE era supervisionar os stocks estratégicos da OCDE, que por seu turno eram considerados como uma defesa segura contra quaisquer exigências excessivas da OPEP. Por isso a AIE acabou por considerar o seu papel como protegendo os interesses dos consumidores, e portanto tinha todas as razões para subestimar qualquer noção de escassez e de limites finitos impostos pela Natureza, porque indirectamente isso iria fortalecer a mão da OPEP.

A Petroconsultants foi posteriormente adquirida pela HIS nos Estados Unidos, e perdeu-se a relação especial com as companhias petrolíferas, o que afectou a qualidade dos dados. Possivelmente também sofreu pressão dos interesses comerciais e dos principais países da OPEP.

Vale a pena comentar resumidamente como eram declaradas as reservas. Não há nenhuma dificuldade técnica especial para avaliar a dimensão dum campo petrolífero logo no início da sua vida, embora naturalmente haja uma certa amplitude nas estimativas. No entanto, a declaração das reservas tem sido sujeita a duas distorções importantes.

Reservas relatadas da OPEP. Em primeiro lugar, as companhias petrolíferas estavam sujeitas a rigorosas regras da Bolsa de Valores dos EUA, destinadas a impedir exageros fraudulentos. Portanto fazia sentido para elas declararem o mínimo necessário para efeitos financeiros, e depois, ao longo do tempo, irem revendo para cima as estimativas, dando uma imagem reconfortante, embora enganadora, de um crescimento regular.

Em segundo lugar, os países da OPEP encontraram-se a competir por quotas nos anos 80 quando os preços eram baixos. A quota baseava-se nas reservas declaradas, o que fez com que o Kuwait aumentasse 50% de um dia para o outro em 1985, sem que tivesse havido qualquer alteração especial nos campos petrolíferos. Na verdade pode ter declarado o total descoberto, em vez das reservas remanescentes. Os outros países da OPEP reagiram com aumentos inválidos para proteger as suas quotas (ver tabela). Imaginar que houve novas descobertas que acompanharam exactamente a produção em Abu Dhabi para manter as reservas na mesma é obviamente um absurdo.

Apesar destas dificuldades, é possível fazer uma avaliação razoável da situação a partir dos dados históricos sólidos da Petroconsultants. O gráfico seguinte mostra a minha avaliação actual:

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O PICO DO CONVENCIONAL FOI EM 2005

Resumidamente, o Petróleo Convencional Regular (Regular Conventional Oil) atingiu o pico em 2005. O défice foi compensado com petróleo dispendioso, principalmente dos campos de águas profundas e das areias betuminosas canadianas, o que provocou a subida dos preços. Esta tendência foi captada pelos perspicazes negociantes que começaram a comprar contratos no Mercado de Futuros, embora a indústria mantivesse altos níveis de armazenamento, vendo-os valorizar-se sem qualquer custo nem esforço. A subida dos preços também provocou uma enchente de petrodólares no Médio Oriente onde a produção de um barril continua a custar em média cerca de 10 dólares. O excedente, por sua vez, regressava parcialmente a instituições financeiras ocidentais, contribuindo para a sua instabilidade. A explosão dos preços atingiu níveis extremos em meados de 2008, aproximando-se dos 150 dólares por barril, o que obrigou os perspicazes negociantes a começar a vender "short" no Mercado de Futuros e a indústria a começar a esvaziar os seus tanques antes que perdessem valor. Os altos preços, paralelamente, provocaram uma recessão económica que moderou a procura levando a que os preços voltassem a descer para os níveis de 2005 antes de subirem para os 75 dólares actuais.

É mais difícil avaliar os petróleos Não-Convencionais, incluindo as areias betuminosas e os petróleos pesados, o petróleo em águas profundas, o petróleo polar e os Líquidos de Gás Natural, mas o gráfico acima sugere que o pico de todas estas categorias ocorreu em 2008. Existe um debate aceso quanto à data exacta do pico geral mas que não tem interesse porque o que importa é a visão do longo declínio do outro lado do pico.

Dado o papel central do petróleo na economia moderna, o pico da produção promete ser um ponto de viragem de importância histórica. Parece que os bancos têm andado a emprestar mais do que tinham em depósito, confiantes em que o Crescimento Económico do Amanhã seria paralelo com a Dívida de Hoje, sem se darem conta que a expansão era alimentada por energia barata com base no petróleo. Os governos estão agora a imprimir mais dinheiro de acordo com os princípios keynesianos na esperança de repor a prosperidade do passado, o que pode vir a ter um êxito fugaz. Mas se isso acontecer, vai estimular a procura de petróleo que rapidamente voltará a ultrapassar os limites da oferta, levando a outro choque de preços e a uma depressão económica subsequente ainda pior. Na verdade, actualmente 28 mil milhões de barris por ano satisfazem as necessidades de 6,7 mil milhões de pessoas, mas em 2050 a oferta terá caído para um nível que só poderá satisfazer menos de metade deste número para o mesmo estilo de vida de hoje.

Há muita coisa que se pode fazer para reduzir o desperdício e aproveitar as energias renováveis. O carvão e a energia nuclear também podem facilitar a transição embora também estejam sujeitas ao esgotamento. Mas os desafios são enormes e é evidente que os governos têm que se mexer urgentemente para se prepararem para o que nos espera. Em paralelo existem também os desafios da alteração do clima que em certo grau estão relacionados com o abastecimento do petróleo.

Podemos estar a assistir a um certo despertar e os governos da OCDE podem estar a começar à procura de um guarda-chuva ao abrigo do qual introduzam novas políticas nacionais. Isto, por sua vez, pode permitir que a AIE apareça com avaliações mais realistas quanto à verdadeira situação. Os meios de comunicação também têm um papel importante no alertar das pessoas genericamente do que as espera. Isso realça o valor do artigo que publicou e que merece todo o nosso apreço.

Atentamente,
C.J.Campbell

Colin Campbell
Ballydehob,
Co Cork,
Irlanda
aspotwo@eircom.net

  • Ver também Key oil figures were distorted by US pressure, says whistleblower

    O original encontra-se em http://www.theoildrum.com/node/5970#more . Tradução de Margarida Ferreira.
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