Os riscos de uma aterragem forçada da economia chinesa
 
A pergunta que todos fazem nas suas ponderações sobre o futuro da economia mundial é se a China sofrerá uma aterragem forçada prevista por economistas como Nouriel Roubini. Artigo de Marcelo Justo, direto da China para Carta Maior.
 
"Imobiliário representa 10% do PIB da China" - Guangzhou, foto de geneva_wirth / Flickr
"Imobiliário representa 10% do PIB da China" - Guangzhou, foto de geneva_wirth / Flickr

O adágio económico que surgiu com o deslocamento da Grã-Bretanha como primeira potência mundial e a primazia global norte-americana do pós-guerra dizia que quando “os Estados Unidos espirravam, o mundo inteiro ficava constipado”. Com a irrupção da China como segunda potência global e a crise profunda vivida pelos EUA, a União Europeia e o Japão, a pergunta da hora é o que pode acontecer se a China se juntar a esta lista de enfermos. A temida aterragem forçada chinesa será a gota que falta para o copo transbordar, provocando a depressão económica da qual o mundo se vem esquivando desde a queda do Lehman Brothers?

A presença económica chinesa é sentida por todos os lados. No mundo desenvolvido, na América Latina e na África, nos seus vizinhos asiáticos orientais e não orientais (Austrália, Nova Zelândia). Nos principais mercados, é um factor determinante das flutuações dos preços internacionais. A sua plena incorporação no cenário económico global, completada com o seu ingresso na Organização Mundial do Comércio em 2001, gerou um disparo de preços das matérias primas, revertendo o que havia sido teorizado como uma irreversível queda do seu valor em relação aos produtos manufaturados.

A China é hoje o maior consumidor de energia, o primeiro importador de soja e o primeiro produtor de automóveis. Entre 2004 e 2009, foi responsável por 40% do incremento do consumo petrolífero. A Ásia é o seu principal parceiro comercial, os EUA o segundo. A Alemanha, segunda exportadora mundial, baseou a sua recuperação no período pós-2008, na procura chinesa. O comércio com a América Latina passou de 10 mil milhões de dólares, em 2000, para 100 mil milhões em 2009, com o Brasil sendo convertido no principal sócio comercial e político por meio do BRIC.

A pergunta que todos esses actores estão a fazer nas suas ponderações sobre o futuro é se a China sofrerá a aterragem forçada prevista por economistas como Nouriel Roubini, que conta, entre as suas credenciais, com o facto de ter alertado sobre os perigos económicos mundiais antes do desastre de 2007-2008. No seu último informe, apresentado na semana passada, o encarregado da Ásia para a América Latina, do Fundo Monetário Internacional (FMI), Anoop Singh previu uma desaceleração da economia chinesa. O seu diagnóstico coincide com o de analistas públicos e privados, mas os percentuais com os quais lidam tiram um pouco do dramatismo da previsão. Singh baixou a previsão de crescimento chinês de 9,6% para 9,5% este ano e de 9,5% para 9% em 2012, índices pelos quais qualquer economia mundial suspiraria de desejo.

No entanto, como as bruxas do famoso ditado, as fissuras da economia chinesa são reais: o perigo de uma implosão com forte impacto global não é imaginário.

O difícil equilíbrio de um gigante

O impacto da actual desaceleração mundial está a ser notado nas exportações chinesas, sector chave do impressionante crescimento do gigante asiático nas últimas décadas. Em Setembro, caíram pelo segundo mês consecutivo e o superavit comercial chinês baixou de 17,8 mil milhões de dólares para 14,5 mil milhões. Se se comparam essas cifras com o superavit de Julho (31,5 mil milhões) percebe-se uma clara tendência descendente que dificilmente será revertida nos próximos dois anos. Essa tendência deve-se, por um lado, a um enfraquecimento da procura dos Estados Unidos e da União Europeia que, dada a actual crise económica de ambos, não se vai modificar no curto prazo, mas também responde à valorização do yuan que subiu em cerca de 30% desde 2005.

Consciente das limitações do modelo exportador, atentos à experiência japonesa que, de ameaça à supremacia norte-americana nos anos 80, passou a doente crónico do mundo desenvolvido, o governo está a procurar um novo modelo de crescimento com o acento posto no consumo doméstico. Este modelo, consagrado no 12° Plano Quinquenal, anunciado em Março desde ano, é parte de um forte debate interno sobre a direcção futura do “socialismo com características chinesas” que começou com a moderada viragem à esquerda, que representa a dupla do presidente Hu Jintao e do primeiro ministro Wen Jiabao.

O problema é que uma mudança desta natureza requer tempo, além de eficiência para superar obstáculos, vencer interesses criados e evitar os inevitáveis deslocamentos sócio-económicos de uma transformação aplicada a uma sociedade de quase 1,4 mil milhões de pessoas. Dois alicerces do novo plano, a reforma do sistema da Segurança Social e da Saúde, estarão finalizadas em 2015 e 2020, respectivamente. A reforma do sistema tributário entrou em vigor em Setembro, eliminando o imposto sobre o rendimento para cerca de 80% da população, mas o seu impacto económico depende de um factor imprevisível: a cautelosa conduta dos consumidores acostumados a poupar para suprir as carências de uma rede de contenção social.

Os EUA e a União Europeia vêm pressionando para uma aceleração desta mudança de modelo baseada numa exigência única e excludente: uma valorização da moeda que converta a China num país que importe mais e exporte menos. A recente votação do Senado dos EUA a favor de uma lei que abre caminho para sanções contra Pequim é o último passo de uma política que pode terminar numa guerra comercial. Mas o grande temor que a China desperta não é pelos zig-zags desta imprevisível mudança paradigmática, mas sim pelas vulnerabilidades geradas por seu crescimento de 10% anuais nos últimos 20 anos.

A vida traz surpresas

A área que mais preocupa analistas mundiais e chineses é o sector de empréstimos bancários vinculados à construção e a dívida de municípios e províncias. O vertiginoso crescimento das últimas duas décadas deu origem a uma bolha imobiliária com uma triplicação dos preços da propriedade a partir de 2005. Hoje, esse sector constitui cerca de 10% do Produto Interno Bruto, valor similar ao da bolha espanhola no final de 2006 e muito acima da que o Japão experimentou nos anos 80.

Segundo indicou recentemente à Carta Maior, Guan Jianzhong, director da agência de notação de de risco chinesa Dagong, se deixamos de lado as exportações, “o crescimento baseia-se no investimento na construção e na urbanização”. O risco de um “subprime” chinês está no ar. Se chegar a ocorrer, os analistas dividem-se entre os que calculam que a queda do mercado imobiliário arrastará o sector bancário produzindo uma crise sistémica e os que opiniam que esse impacto será limitado.

A este risco soma-se a dívida municipal e regional de quase 2 biliões de dólares, resultado do gigantesco plano de investimento de 2008-2009 que permitiu à China sair airosa da crise financeira internacional. Segundo Zhu Min, actual vice-director do FMI e ex-funcionário chinês, os empréstimos constituem hoje cerca de 200% do PIB, o dobro que antes da crise de 2008. Em Setembro, o governo mostrou os resultados de uma auditoria dos municípios que situava a dívida local média entre 25 e 38% do PIB.

Segundo o governo, esse estudo demonstra que o risco da dívida soberana “está muito abaixo do existente nos EUA ou na União Europeia”. Mas os labirintos do sector imobiliário-financeiro já provocaram surpresas no passado. Depois do subprime norte-americano, ninguém se atreve a descartar que a opacidade das actividades especulativas escondam uma bomba-relógio.

Grande parte do problema é que devido às pressões contraditórias que enfrenta, a China tenha que levar adiante uma política que, ao mesmo tempo, controle a bolha imobiliária e a inflação, mas não esfrie a economia, sustentação fundamental do poder do Partido Comunista chinês. O governo elevou os depósitos bancários, as taxas de juros, introduziu impostos sobre o segundo imóvel e outras restrições ao mercado imobiliário, tudo medidas que estão a ter o impacto desejado sobre o preço da propriedade, mas que também correm o risco de matar o paciente. Em Setembro, revelou-se que uma das mais importantes construtoras privadas, Greentown China Holding Ltda, tinha sofrido uma queda nas suas vendas de aproximadamente 2,6 mil milhões de dólares.

Uma saída ordenada deste labirinto imobiliário-financeiro é uma pré-condição para que a China seja parte da solução e não do problema que atinge a economia mundial. Dados os tortuosos caminhos dessa devastadora matriz especulativa, está claro que nem os saudáveis 9% de crescimento anual que a China goza hoje a protege da incerteza que ronda toda a economia global.

Tradução de Katarina Peixoto, para Carta Maior

 
 
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