Perspetivas sombrias para o euro
 
Solução de Merkel e Sarkozy preveem governo económico com poderes acrescidos de intervenção nos países e sem ser eleito por ninguém. Mas as propostas fogem do essencial: não põem “dinheiro sobre a mesa”, única saída, segundo o Financial Times. Cameron ameaça não assinar novo tratado.
 
A “governança reforçada” seria dos países do euro, deixando num segundo plano os que não fazem parte da união monetária. Foto do European Parliament

A cimeira dos líderes da União Europeia que começa esta quinta feira com um “jantar informal” é apresentada como a última hipótese de salvar o euro. Isto mesmo já foi dito em cimeiras anteriores, que porém nada fizeram para resolver a crise das dívidas soberanas da Europa. O cenário que se apresenta desta vez é mais tenso. Por todo o lado começa a ser encarada como uma possibilidade real o colapso do euro, como admitem jornais europeus influentes como o Le Monde, o Financial Times ou o El País.

Governança reforçada” (e não eleita)

As propostas que o eixo franco-alemão para a cimeira, que ainda não são conhecidas em todo o detalhe, foram delineadas numa carta que ambos endereçaram ao presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy. No concreto, a carta esboça um novo desenho da União, onde haveria uma “governança reforçada” para assegurar “uma disciplina orçamental” e “uma maior competitividade”, através de “regras mais ambiciosas e severas para os Estados membros”. Os países que não cumprirem os objetivos do défice, através dos planos de austeridade impostos, sofrerão sanções quase automáticas, e os parlamentos nacionais terão de levar em conta as orientações da Comissão.

Na prática, o novo desenho da UE é o de um governo dos países mais ricos do euro sobre os outros, com base numa legislação que ninguém votou e aplicada por um governo com características federais e com poderes para decidir a vida de povos que nunca tiveram a possibilidade de o eleger.

Diagnóstico errado

O editorial desta quinta do Financial Times considera que as propostas de Merkel e Sarkozy são “um início pouco promissor” e critica o diagnóstico errado da crise que “divide a eurozona em nações que são virtuosas fiscalmente e as que são consideradas dissolutas 'pecadoras'.”

O jornal afirma que é preciso “reequilibrar” a zona euro, mas com uma abordagem mais imaginativa, não apenas uma perspetiva de “austeridade sem fim”. E defende que são necessários os contributos de todos os países da zona euro, e não apenas da Alemanha e da França.

O Financial Times afirma que os governos europeus minaram de tal maneira a sua credibilidade, que a única forma de recuperar a confiança dos mercados é pôr muito “dinheiro sobre a mesa”, através do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira que sustentasse os preços dos títulos de dívida. O problema é que o FEEF não parece ter condições de captar o dinheiro necessário. “Por isso”, defende o FT, “será preciso receber a assistência do BCE”. O jornal reconhece-se desconfortável diante da perspetiva de o BCE ficar muito exposto aos títulos de dívida soberana, mas “diante da natureza premente da situação, nada pode ser descartado”.

Ora esse é justamente o problema. Merkel tem rejeitado terminantemente qualquer alternativa de “pôr dinheiro em cima da mesa”, seja através da emissão de eurobonds, de dar ao FEEF o estatuto de instituição bancária para poder receber dinheiro do BCE, ou da intervenção direta do BCE para emprestar dinheiro aos Estados. Ora sem “dinheiro sobre a mesa”, o mais provável é que o resultado da cimeira não passe mais uma vez de frases ocas que não resolvem nada.

E o Reino Unido?

Para complicar mais a teia de contradições em torno da cimeira, o plano “Merkozy” parece só levar em conta a zona euro. A “governança reforçada” seria dos países do euro, deixando num segundo plano os que não fazem parte da união monetária. Acontece que um desses países é o Reino Unido.

"Quando estiver em Bruxelas, vou defender e promover os interesses do Reino Unido. O mais importante agora para nós é resolver o problema da zona euro que está a congelar a nossa economia", afirmou esta quarta o primeiro-ministro britânico David Cameron, em Londres.

E acrescentou: "claro que para isso os países da zona euro vão ter de trabalhar mais em conjunto e se escolherem usar o Tratado europeu para isso, é óbvio que vou insistir na defesa dos interesses do Reino Unido. Não assinarei um Tratado que não tenha essas seguranças, tal como outros aspetos importantes como o mercado único e os serviços financeiros".

Cameron está a ser pressionado por membros do seu próprio governo, como Owen Paterson, ministro para os assuntos da Irlanda do Norte, que defendeu a realização de um referendo se o tratado que dá base à União Europeia for alterado.

 
 
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