A dívida de cada dia: inconsistências do pensamento neoliberal
 
Os economistas e políticos neoliberais falham assim em compreender duas questões essenciais dos processos de endividamento que agora diabolizam. Artigo economista Mariana Mortágua
 

Existe um grau de incoerência no discurso neoliberal que, não sendo surpreendente, não deixa de chocar as almas mais inocentes. Diz respeito ao assunto Dívida.

Aparentemente, o mundo acordou para o excessivo endividamento em que está assente toda a economia..

Parece, no entanto, que uma crise generalizada de amnésia se abateu sobre aqueles que são hoje os grandes inimigos do endividamento, corajosos defensores do novo modo de vida: “de acordo com as nossas possibilidades” (seja lá o que isso for).

Os restantes, que mantêm a memória, lembrar-se-ão dos esforços empreendidos pelos Governos (e organizações internacionais) ao longo últimas décadas para liberalizar e desregulamentar os mercados financeiros.

O desenvolvimento dos mercados obrigacionistas e acionistas permitiu às grandes empresas financiarem-se diretamente nos mercados financeiros, com efeitos perversos ao nível da sua própria estrutura de incentivos. Em vez da capacidade produtiva no longo prazo, os investimentos em empresas são determinados pela respetiva valorização acionista, e duram o tempo de uma operação bolsista. A contínua valorização destes mercados bolsistas tornou rentável a prática de comprar ações (ou outros títulos) com dinheiro emprestado, multiplicando os ganhos no momento da venda de ações (alavancagem). Vários fundos privados de investimento especializaram-se então na aquisição e fusão de empresas a crédito, com o objetivo de extrair delas dividendos milionários antes de as colocar de novo à venda no mercado de ações, onde outros investidores farão o mesmo.

A perda do segmento dos empréstimos às empresas, , conjugada com o fim da regulação que separava a banca comercial da banca de investimento, transformaram definitivamente o comportamento da banca. Para manter as margens de lucro, os bancos viraram-se para o crédito às famílias e para a pura intermediação financeira: operações nos mercados de curto prazo, comercialização de produtos derivados complexos, entre outros.

Durante toda a década de 90 e início de 2000, , a titularização – transformação dos créditos que os bancos tinham concedido em ativos financeiros que depois eram transacionados nos mercados – foi excluída de qualquer regulamentação.

Do lado das famílias, a estagnação salarial e desmantelamento dos serviços públicos deixaram o crédito como única opção de acesso a habitação, saúde, educação, reforma na velhice ou sobrevivência no desemprego, sendo que todos estes empréstimos, seguros e fundos de pensões alimentavam a inflação nos mercados financeiros.

Para além das casas, utilizadas como colateral (garantia) nos empréstimos à habitação, vários tipos de ativos financeiros (baseados em dívida) passaram a servir de colateral para contrair nova dívida nos mercados. Tal só foi possível devido à ininterrupta valorização dos ativos, que aumentava o valor os colaterais e garantia ganhos de capitais suficientes para liquidar o empréstimo e ainda fazer lucros de milhões.

Os offshores, a redução da carga fiscal sobre as empresas e mais-valias financeiras e a tendência para a compressão daquilo a que se chama “economia produtiva” alimentaram a necessidade de endividamento dos Estados, comprometidos com vantajosos negócios público-privados. Os mercados ofereciam uma fonte vantajosa de financiamento, que passava pela emissão de títulos do tesouro. O desenvolvimento dos mercados de dívida pública foi uma das exigências dos planos de ajustamento que o FMI implementou em vários países no mundo.

A seguir à crise, as dívidas que antes podiam facilmente ser pagas através de ganhos de capital ou da venda de ativos valorizados, passam agora depender dos rendimentos para ser liquidadas. Empresas, bancos, Governos e famílias são assim forçados a liquidar as dívidas através dos seus rendimentos normais – lucros, impostos e salários – deixando de consumir e investir nessa mesma proporção. Trata-se de uma forma de poupança forçada.

Se toda a economia enveredar por um processo de redução simultânea das despesas, reduzindo o seu consumo e o seu investimento individual, a recessão torna-se inevitável.

À medida que diminuem os salários, por via da austeridade, e que os ativos desvalorizam (redução do preço das casas, por exemplo), as dívidas aumentam relativamente, tornando-se mais difíceis de pagar a não ser com uma nova redução do consumo e do investimento. Se o Estado seguir a mesma estratégia de redução do seu próprio endividamento, os efeitos acima descritos multiplicam-se.

Nestas condições, a política monetária do Banco Central perde eficácia. Como toda a economia esta a desalavancar (reduzir dívida), não é certo que uma redução dos juros leve a um aumento do investimento e do consumo: os bancos não querem conceder crédito e as famílias e empresas não estão interessadas em aumentar o endividamento.

Numa economia baseada no crédito, quando toda a gente paga as suas dívidas em simultâneo, o dinheiro não vai parar a lado nenhum, desaparece.

Os economistas e políticos neoliberais falham assim em compreender duas questões essenciais dos processos de endividamento que agora diabolizam. A primeira prende-se com as suas causas: liberalização financeira e desigualdades sociais; a segunda diz respeito à forma de lidar com as suas consequências. Procurar resolver a segunda sem levar a primeira em consideração só irá agravar o desastre.

Fonte: Esqueda Net

 
 
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