O filme Argentino que denuncia o desmonte das ferrovias
 
Leia a resenha do filme MEMÓRIAS DO SAQUE (Memorias del Saqueo) – direção: Fernando Solanas – (Argentina).
 

Destruição e resistência, levam a uma transformação necessária. Esse seria o aporte fundamental que se deve extrair do documentário de Fernando Solanas. O panorama da história recente argentina que a obra apresenta gira em torno da aniquilação do Estado. Tal processo se dá com profundas transformações, não provocadas pelo interesse dos atores maiores nessa história – os trabalhadores; e sim pela combinação da máfia politiqueira argentina com a burguesia nacional e internacional.


O processo de venda do Estado argentino é muito próximo ao aconteceu com o Brasil nos anos de governo FHC. E nos países onde o martelo neoliberal passou forçando, a qualquer modo, os leilões de empresas estatais. O FHC deles, era Carlos Menen, figura importante na abertura do país. O filme passará longos minutos retratando essa figura, bem como seu comparsa na gestão do Estado argentino e principal agente da maior estafa que sofreu o povo argentino com a galopante dívida externa – o superministro da economia Domingo Cavalo. Nesse ponto, não estão só os atores do camarote, que aparecem bem quistos na mídia, é interessante compreender como o enfraquecimento das entidades representativas que tinham contato com a base– central dos trabalhadores, união de estudantes, etc. - contribuiu para permanência de Menen e sua política por dois mandatos.


É didática a exposição do afundamento da economia argentina, através de comentários de especialistas no assunto. O exemplo de como as casas financeiras(bancos) utilizavam o Estado como responsável pela dívida que contraiam. Ou o caso intrigante sobre a 'teoria de la deuda odiosa' para entender a sacanagem que é a dívida externa. Fernando Solanas mostra como essa teoria foi formulada pelo próprio governo americano, no século XIX, para negar pagamentos a outros países, justificando o seguinte: dívida pública, é só quando dá benefícios ao público, quando o povo é beneficiado pela dívida, se isso não acontece ela não é pública. E é isso que acontece com os países da América Latina; segundo um juiz da Suprema Corte de Justiça do Estado argentino, o próprio FMI já declarou que se essa teoria fosse aplicada, toda a dívida do 'terceiro mundo' se findaria.


Enquanto a economia do país se afogava com a dolarização do país, a pequena parte da população se esbaldava com os produtos importados e todos os quitutes de uma bela festa exclusiva, e quase como se fosse a última. Era a lua de mel fruto do namoro com o Consenso de Washington, tão bem emplacado pelo governo argentino. Tratar um peso argentino como um dólar americano, significou um ônus para o Estado argentino – contrair mais dívidas, para manter a garantia da moeda corrente. E daí vem aquele 'círculo burro' que ao fim é destrutivo: o estado se endivida - vende as estatais a 'preço de banana', dizendo que é para pagar as dívidas – a dívida aumenta – sem as estatais fica ainda mais difícil pagar a (já impagável) dívida – e a dívida aumenta...

No caso argentino, não bastou a venda das ferrovias, da empresas estatal de telecomunicações, rádios e televisões públicas, companhias de energia – usinas, termoelétricas e hidroelétricas, entre outros. Remando mais forte ao precipício, o governo Menen foi responsável pela venda de companhias de água e até da empresa de petróleo e gás (YPF). Nem Brasil e nem México, que nunca deixaram de cumprir as cartilhas do Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, venderam suas empresas petrolíferas(pelo ao menos ainda mantém maioria das ações, como no caso da Petrobrás), o governo argentino vendeu, não apenas um patrimônio do Estado, mas substancialmente um patrimônio dos argentinos, como conta Solanas, a empresa pública(YPF) era um orgulho dos argentinos. Talvez o roubo tenha sido bem parecido do que no caso brasileiro com a Vale do Rio Doce, leiloada em 1997, era avaliada em mais de 90 bilhões e foi vendida por apenas 3 bilhões!

Quando se compara Brasil e Argentina, não se pode diminuir os efeitos causados no Brasil pela política de enxugamento do Estado, só porque na Argentina 'vendeu-se mais o Estado'. Não, mas mostrar que como haviam conquistas mais avançadas na Argentina e o processo de destruição foi chocante, o convulsionamento na população foi também contundente. Os panelaços ocorridos no ano de 2002, o movimento geral da população argentina, indignada pelo tamanho do estrago que a situação do país se encontrava, e suas condições materiais deterioradas – desemprego, o congelamento da economia, sistema educacional desleixado, regiões inteiras do interior findadas com a saída de empresas públicas da região e um país com uma dívida externa de mais de 130 bilhões de dólares(2000). Ainda mais inconformada estava com a mentira contínua daqueles que se colocavam para dirigir o país, não foi à toa que entre 2001 e 2003(5 presidentes não foram capazes de se sustentar no poder perante a pressão popular– após a eleição de Fernando De La Rua, e sua renúncia, quatro outros interinos assumiram; até a chegada de Néstor Kirchner(atual presidente). O movimento revolucionário só não se aprofundou e tomou o poder pela falta de um partido que organizasse a população. Ainda assim forçou o último que subiu no palanque a dar um basta à política dos anos de governo Menen-Cavalo-FMI-Banco Mundial, declarando moratória da dívida prontamente.

Esse documentário pode ser visto com um olhar de indignação. Mas nunca de resignação pelo que aconteceu. Deve contribuir para, por exemplo, entendermos porque é importante a luta pela 'Anulação do Leilão da Vale do Rio Doce', e que isso passe da resistência para um processo de construção revolucionária, prescindindo, sem dúvida, de organização e preparação de classe.

Frase fundamental de Fernando Solanas durante o documentário: “... nem a ditadura, nem Menen, nem as empresas privadas, foram capazes de destruir totalmente o Estado e a resistência do povo argentino...”.

Fonte: http://revolucaorj.blogspot.com/2007/09/resenha-de-filme.html

 
 
ver todos os artigos