O papel pessoal de Obama na prisão de um jornalista
 
O papel da administração Obama e a sua participação direta na prisão do jornalista iemenita Abdulelah Haider Shaye demonstra que – tal como a tortura, detenções ilegais, e prisões secretas da CIA – estas práticas continuam sem parar. Por Glenn Greenwald
 
Presidente Obama e o jornalista iemenita Abdulelah Haider Shaye
Presidente Obama e o jornalista iemenita Abdulelah Haider Shaye

Jeremy Scahill, correspondente de segurança nacional do The Nation, é, sem dúvida um dos melhores e mais intrépidos jornalistas da América. Passa o seu tempo em lugares perigosos para descobrir o que o governo dos EUA faz em todo o mundo. Muitas vezes produz reportagens vitais que, durante a presidência de Obama, são – por razões já várias vezes aqui mencionadas – largamente ignoradas pela comunicação social americana e ambos os partidos políticos. Em Julho do ano passado, regressou de Mogadíscio e documentou a manutenção e a operação proxy (por procuração)das prisões secretas na Somália geridas pela CIA durante a administração Obama do mesmo género que tanta controvérsia causou durante a administração Bush e que os apoiantes de Obama gostam de dizer que o Presidente acabou, e no mês passado vindo das regiões tribais do Iémen descreveu com detalhe como os drones (aviões não tripulados) americanos que matam civis (em conjunto com o seu apoio aos déspotas Iemenitas) são a simples causa mais importante que alimenta o crescimento da Al-Qaeda naquele país. Mas o seu mais recente artigo – que descreve o papel pessoal e direto do Presidente Obama em assegurar a prisão atual de um jornalista Iemenita – talvez o seu papel mais importante até agora; mesmo para aqueles que já estão imunes aos abusos da administração Obama, é nada menos que enfurecedor.

Tal como sabemos agora, no dia 17 de Dezembro de 2009, o Presidente Obama ordenou um ataque aéreo – utilizando mísseis cruzeiro Tomahawk e bombas de fragmentação – na aldeia de al Majala na província de Abyan no sul do Iémen; o ataque acabou com a vida de 14 mulheres e 21 crianças. Na altura, o governo Iemenita mentiu sobre o ataque, afirmando falsamente que o mesmo tinha sido da responsabilidade da força aérea do Iémen.

O Pentágono ajudou a reforçar esta afirmação enganosa de responsabilidade ao emitir um comunicado dizendo que “O Iémen deveria ser felicitado pelas ações contra a Al-Qaeda.” Entretanto, os responsáveis pelos meios de comunicação americanos, tais como o New York Times, relataram – falsamente – “que as forças de segurança iemenitas levaram a cabo, na semana passada, ataques aéreos e incursões terrestres contra supostos esconderijos da Al-Qaeda, que os oficiais americanos descreveram como 'inteligência e poder de fogo' fornecido pelos Estados Unidos”. Esses relatórios dos meios de comunicação social americanos vagamente mencionaram mortes de civis só de passagem ou mesmo de maneira nenhuma, optando em vez disso por leads tais como: “As forças de segurança do Iémen realizaram na passada quinta-feira ataques aéreos e terrestres contra suspeitos esconderijos da Al-Qaeda, matando pelo menos 34 militantes no maior ataque ao grupo terrorista dos últimos anos, conforme noticiaram as autoridades do Iémen.” Embora haja certeza que morreram dezenas de civis, Scahill menciona que “se morreu alguém ainda ativo na Al Qaeda continua altamente contestado.”

Há um motivo pelo qual o mundo sabe a verdade sobre o que na realidade se passou em al Majala naquele dia: porque o jornalista iemenita, Abdulelah Haider Shaye, viajou até lá, e, de acordo com o que Scahill escreve, “fotografou as peças dos mísseis, algumas delas ainda com a etiqueta ‘Fabricado nos Estados Unidos’ e distribuiu as fotografias pelos meios de comunicação social internacionais.” “Também documentou o remanescente dos Tomahawks e das bombas de fragmentação, nenhum dos quais pertence ao arsenal iemenita. E facultou informação detalhada provando que as dezenas de civis, incluindo as 21 crianças, foram mortas nos ataques. Foi o jornalismo de Shaye que levou a Amnistia Internacional a mostrar ao mundo a evidência de que foram os Estados Unidos a perpetrar o ataque utilizando as bombas de fragmentação, e os meios de comunicação a revelarem a extensão horrível de civis mortos. O trabalho de Shaye foi justificado quando WikiLeaks mostrou um telegrama diplomático – alegadamente divulgado por Bradley Manning – no qual o então presidente do Iémen Ali Abdullah Saleh gracejou com David Petraeus sobre continuar a mentir ao público. “Vamos continuar a dizer que as bombas são nossas e não vossas.”

Shaye empenhou-se em outro jornalismo vital ao longo dos últimos anos no Iémen. Conduziu várias entrevistas a Anwar-al-Awlaki, incluindo uma que é muitas vezes mencionada como a evidência de que Awlaki acreditava que o ataque de Nidal Hasan à base militar de Fort Hood foi justificável, e que o clérigo falou com o autor do atentado do Dia de Natal. O jornalismo de Shaye tem sido citado por meios de comunicação ocidentais como uma fonte credível sobre o que estava a acontecer no Iémen (como quando relatou que, contrariamente ao que os Estados Unidos e o Iémen alegam, Anwar Awlaki não estava entre os que morreram no ataque aéreo de 2009). E um dos principais especialistas sobre o Iémen, Gregory Johnsen, de Princeton disse a Scahill que “é difícil sobrestimar a importância do seu trabalho” em compreender o que está a acontecer no Iémen.

Apesar deste jornalismo importante – ou, mais precisamente, por causa dele – Shaye está atualmente na prisão, em grande parte, devido ao próprio Presidente Obama. Nos últimos dois anos, Shaye foi preso, espancado, e mantido em regime de solitária pelas forças de segurança de Saleh, o tirano obediente à América. Em Janeiro de 2011, foi condenado por acusações relacionadas com terrorismo num tribunal do Iémen – de que ele não era um repórter sobre a Al-Qaeda, mas um espião – num procedimento largamente condenado pelos grupos dos direitos humanos de todo o mundo. Philip Luther, vice-diretor da Amnistia Internacional para o Médio Oriente e Norte de África, disse a Scahill: “Há fortes indicações de que as acusações contra [Shaye] denunciam de que ele foi preso só para não se atrever a abrir a boca sobre a colaboração dos Estados Unidos no ataque com munições de fragmentos que teve lugar no Iémen.” Johnsen, o especialista sobre o Iémen, acrescentou: “Não há nenhuma evidência publicamente disponível que sugira que Abdulelah foi nada mais que um jornalista tentando fazer o seu trabalho.”

O verdadeiro crime de Shaye foi que ele relatou factos que o governo americano e o seu regime cliente iemenita queriam omitir. Mas enquanto a prisão deste jornalista foi ignorada nos Estados Unidos, tornou-se uma controvérsia significativa no Iémen. Numerosos líderes tribais iemenitas, sheiks e grupos ativistas moveram-se em favor da sua libertação, e em resposta, conforme relatou a imprensa iemenita, o Presidente Saleh tinha um acordo de perdão elaborado e estava pronto a ser assinado. Contudo acabou por ficar num impassequando o Presidente Obama interveio. De acordo com o próprio resumo da Casa Branca sobre o telefonema do Presidente Obama a Saleh em 3 de Fevereiro de 2011, “O Presidente Obama mostrou preocupação com a libertação de Abd-Ilah al-Shai.” A administração por várias vezes se recusou a apresentar qualquer evidência de que Shaye não é apenas um repórter, e isto foi o que o Porta-voz do Departamento de Estado, Beths Gosselin disse a Scahill em resposta à sua história:

“Apoiamos os comentários [do Presidente Obama] de Fevereiro passado. Continuamos preocupados com a potencial libertação de Shaye devido à sua associação à Al Qaeda na Península Árabe. Estamos solidários com os comentários do presidente. “Quando questionado sobre se o governo dos Estados Unidos deveriam apresentar provas para apoiar as suas alegações sobre a ligação de Shaye à AQAP, Gosselin respondeu, “É tudo quanto temos a dizer sobre este caso.”

Por isso, é indiscutível que a força motriz por detrás da prisão deste jornalista iemenita é o Presidente Obama. E o facto de Shaye estar na prisão, em vez de poder fazer reportagens, é de particular importância (e valor para os Estados Unidos) à luz dos ainda crescentes ataques Americanos naquele país. Só nos últimos 3 dias, os ataques aéreos americanos mataram 64 pessoas no Iémen, enquanto a comunicação social americana – sem ninguém em cena – relatam obedientemente que os que morreram são “insurgentes suspeitos da Al Qaeda” e “militantes”. Exorto a que leiam o artigo completo de Scahill pois eu aqui apenas resumi os elementos necessários para fazer os seguintes pontos:

(1) É impossível exagerar se dissermos o quanto este caso se assemelha aos piores abusos da presidência de Bush que envolveram a prisão punitiva de jornalistas. Talvez o caso mais semelhante tenha sido a detenção e os dois anos de prisão para o jornalista iraquiano Bilal Hussein da Associated Press, detentor do Prémio Pulitzer que cometeu o crime de relatar sobre os insurgentes iraquianos. Hussein foi detido após os blogues de extrema-direita e ativistas nos Estados Unidos o terem repetidamente marcado como um terrorista antiamericano por causa do seu acesso jornalístico a esses insurgentes: exatamente a mesma teoria que a administração Obama invoca para marcar Shaye como terrorista e pedindo a sua prisão.

(2) Um dos mais vergonhosos e pouco discutidos abusos da Guerra contra o Terrorismo da administração Bush foi a prisão sistemática de jornalistas muçulmanos pelos Estados Unidos pelo crime de relatarem factos que refletiam uma imagem má do Governo Americano. O caso mais extremo foi a prisão sem devido processo de sete anos em Guantánamo do operador de câmara da Al Jazeera Samid al-Haj – uma comédia ignorada por quase todas as figuras dos meios de comunicação institucionais, com a exceção de Nicholas Kristof – mas houve dezenas de outros casos. O papel da administração Obama e a sua participação direta na prisão de Shaye demonstra que – tal como a tortura, detenções ilegais, e prisões secretas da CIA – estas práticas continuam sem parar, ainda que através do uso de proxy (procuração).

(3) Quando o governo iraniano prendeu durante dois meses a jornalista iraniano-americana Roxana Saberi, o seu caso tornou-se um enorme caso célebre entre os jornalistas americanos, que se uniram para exigir a sua libertação. O mesmo aconteceu quando o governo norte-coreano sentenciou dois jornalistas americanos a prisão. Não deveriam os jornalistas americanos estar pelo menos tão atentos e revoltados quando o seu próprio governo – sobre quem era suposto eles exercerem escrutínio contraditório – fazer a mesma coisa? Salvo raras exceções, permaneceram praticamente em silêncio durante a onda de detenções de jornalistas pela administração Bush: Será que vão estar assim tão calados no levantamento do relatório de investigação de Scahill sobre a prisão em curso de Shaye a mando do Presidente Obama? Esta é uma questão particularmente premente para aqueles meios – como o NYT, The Washington Post e ABC News – que utilizavam o seu trabalho como jornalista.

(4)É extremamente instrutivo comparar o que sabemos (graças a Shaye) que realmente aconteceu neste ataque ao Iémen com o que o New York Times “relatou” duas vezes sobre este acontecimento. Acima citei excertos destes dois artigos do NYT, mas lê-los é simplesmente fantástico: uma e outra vez, o NYT garante aos seus leitores que o ataque foi realizado pelo Iémen (com a ajuda dos Estados Unidos), que matou um número elevado de líderes da Al Qaeda e outros “militantes”, que o ataque talvez tenha matado “o líder da Al Qaeda na Península Árabe, Nasser al-Wuhayshi, e o seu adjunto, Said Ali al-Shihri, que se crê terem estado na reunião com o Sr. Awlaki,”etc. Como pode alguém, à luz deste registo tão impreciso, confiar em afirmações não documentadas do Governo dos Estados Unidos ou dos meios de comunicação americanos sobre quem é e quem não é um terrorista ou “militante” e quem foi morto pelos ataques dos drones (aviões não tripulados) americanos é simplesmente incompreensível.

(5) Muito do que sabemos sobre este horrendo ataque aéreo vem de dois indivíduos que se encontram na prisão (Abdulelah Haider Shaye e, alegadamente, Bradley Manning), juntamente com um grupo que o governo dos Estados Unidos quer claramente indiciar (WikiLeaks), e isso diz tudo. Como o denunciante da NSA a quem a administração Obama tem tentado acusar de “espionagem” sem qualquer sucesso, Thomas Drake, escreveu esta semana, a guerra sem precedentes de Obama contra os denunciantes é, em si própria, sobre punir aqueles que exponham os atos impróprios e dececionantes do Governo dos Estados Unidos e dissuadir outros de o fazerem no futuro.

(6) Os títulos dos blogues desta semana na TV, mostraram uma discussão entre dois americanos liberais, Mike Konczal do Instituto Rosevelt e Peter Frase do Jacobin, relativamente a, entre outras coisas, porque é que os progressistas americanos estão tão desejosos, mesmo ansiosos, em ignorar os abusos de Obama nestas áreas. Eis o que Frase disse sobre este assunto no seu clip de 50 segundos:

Há alguma dúvida de que isso seja verdade? E isto é, na realidade, irónico vindo de uma fação política que, se diz a favor dos marginalizados, das minorias, e de outros com falta de poder, enquanto pintam os seus adversários partidários como egoístas, provinciais e racistas. Naturalmente que muitos destes mesmos democratas fingem, na realidade preocupar-se com tais questões obtendo assim ganhos partidários oportunistas, mas muitos deles estão agora perfeitamente contundentes sobre o facto de pouco se preocuparem com estas injustiças porque (pelo menos por agora) não os afetam pessoalmente. Por isso, quem se importa se o grande Presidente da história mata alguns muçulmanos e americanos sem o devido processo ou exigindo a prisão de algum jornalista iemenita só porque ele relatou factos que o dirigente queria ver omitidos, ou abate um punhado de mulheres e crianças iemenitas com bombas de fragmentação? Desde que “liberdades civis e uma política externa menos belicosa” nada tenham a ver com o “bem-estar da classe média Americana,” simplesmente, não têm qualquer importância.

Todos deveríamos estar gratos porque Scahill (tal como Shaye) arriscam a sua segurança pessoal para garantir que estes factos sejam conhecidos e não reprimidos. E agora cabe a cada um de nós assegurar que eles recebam a atenção que merecem.

ACTUALIZAÇÃO: Note-se que a administração Obama, conforme tornou claro em Janeiro passado, está “profundamente preocupada com o alarmante aumento dos esforços do regime Iraniano para extinguir todas as formas de livre expressão e limitar o acesso dos seus cidadãos à informação. “Em particular, os Estados Unidos rejeitaram a detenção e ameaça de execução de dois jornalistas Iranianos, “aos quais não foram concedidos processos devidos.”

Artigo de Glenn Greenwald, publicado em salon.com. Tradução de Noémia Oliveira para esquerda.net

 
 
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