Já é tempo de tratar do Pico Petrolífero
 
por Richard Heinberg [*] O conceito de "Pico Petrolífero" – que a taxa de produção do petróleo do mundo em breve atingirá o seu máximo e começará um declínio inevitável, com consequências económicas negativas – tem estado a circular numa forma cientificamente articulada pelo menos desde 1998, tempo suficientemente longo para vê-la confirmado de modos significativos.
 
 taxa de descoberta de novos campos de petróleo tem estado a cair desde 1964. O maior achado em anos recentes é o Tupi, nas águas brasileiras, no qual se afirma conter cinco a oito mil milhões de barris de petróleo; mas isso é suficiente apenas para saciar a sede do mundo durante 60 a 90 dias. A maior parte dos países produtores já ultrapassaram os seus picos internos e estão a experimentar produção declinante, apesar de todos os esforços para manter as taxas do seu fluxo.

Os cépticos destacam que o total das reservas mundiais de petróleo continua a crescer. Mas isto pode não ser um indicador confiável quanto à nossa posição. Muitas vezes, em países que viram um pico e o declínio subsequente da produção, as reservas internas continuaram a ascender, ou mesmo ultrapassaram, a data do pico da produção. Por que? As companhias de petróleo substituem reservas de alta qualidade, de petróleo de produção barata, por reservas de baixa qualidade, lenta, ou carta para produzir, ou areias betuminosas.

As taxas de declínio da produção nos campos petrolíferos gigantes, mais antigos, demonstram ser indicadores mais confiáveis das tendências a longo prazo. (Exemplo: permitiram previsões com êxito do pico para os Estados Unidos, o Mar do Norte e outras regiões). Para o mundo, a taxa de declínio médio dos campos existentes foi calculada pela Agência Internacional de Energia em 4,5% ao ano. O mundo precisa desenvolver o equivalente da produção de petróleo de uma Arábia Saudita a cada quatro anos para compensar tais declínios. Isto é um fardo absoluto para a indústria, a qual deve agora deve agora procurar petróleo em águas ultra-profundas, em regiões polares ou países politicamente fracturados, uma vez que todo o petróleo fácil de descobrir e fácil de extrair já foi localizado e grande parte dele já foi bombeado.

Até agora, o recorde anual da produção mundial de petróleo bruto deu-se em 2005 e o recorde mensal foi em Julho de 2008. De forma reveladora, a queda das taxas de extracção entre 2005 e 2008 verificou-se no contexto da ascensão dos preços do petróleo. Na verdade, em Julho de 2008, o preço disparou em 50% mais alto do que o recorde anterior ajustado à inflação, estabelecido na década de 1970. Ainda assim, com a ascensão da procura e dos preços, a produção em resposta mal se moveu.

Enquanto muitos comentadores acreditam que o julgamento sobre o Pico Petrolífero ainda está em suspenso, a lista de analistas de petróleo que dizem ter a produção mundial já atingido o pico, o que assim o fará nos próximos cinco anos, estende-se quase diariamente e inclui presidentes de empresas e outros líderes bem colocados dentro da indústria do petróleo.

O argumento de que a produção de petróleo teoricamente poderia continuar a crescer após 2015 é avançado principalmente por organizações tais como a Cambridge Energy Research Associates e a Saudi Aramco, os quais tornam claro a evidência de definhamento das descobertas, dos campos petrolíferos em esgotamento e a estagnação da produção total afirmando que é a procura por petróleo que atingiu o pico, não a oferta – uma afirmação que repousa sobre a observação de que os preços do petróleo estão bastante altos para desencorajar compradores potenciais. Mas altos preços para uma commodity habitualmente significam escassez, de modo que o argumento do "pico da procura" não se sustenta.

O Pico Petrolífero tem implicações significativas para a nossa economia. Em resposta ao disparar do preço de 2008, a indústria global da aviação afundou drasticamente e as companhias automobilísticas sofreram. A navegação mundial reduziu-se drasticamente e não se recuperou. A procura por petróleo mergulhou no fim de 2008 e assim aconteceu com o preço – temporariamente. Mas o preço de hoje está outra vez elevado, quase ao ponto de estragar a recuperação económica.

O que deveríamos fazer acerca do Pico Petrolífero? Comecemos com o que fez a U.K. Industry Task Force on Peak Oil (a qual inclui Sir Richard Branson da Virgin Airlines): Reconhecer a realidade dos limites da oferta. A seguir estudar as vulnerabilidades dos sistemas de transporte e alimentares aos altos e voláteis preços do petróleo, e então começar a tornar aqueles sistemas mais resilientes e menos dependentes do petróleo.

Mas fazer isso rapidamente. A adaptação levará décadas e estamos a começar muito tarde.

O original encontra-se em http://www.countercurrents.org/heinberg200310.htm
 
 
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