"Unidos" eles caem: A Grexit assombra a eurozona em conflito
 
O euro foi um dos maiores projectos do capitalismo na Europa. Agora, uma porção significativa do capitalismo europeu – a eurozona – está a lutar internamente, consigo própria. A sua ineficiência intrincada está agora a surgir à vista das pessoas comuns. Isto não é a sua tragédia, é um dos seus atributos. Sonhava abranger tudo e todas as coisas mas não sabe controlar as forças que alimentou e desencadeou. As contradições que o euro está a confrontar agora não foram criadas por ninguém, mas por si próprio. Ele ampliou a extensão e consequências das contradições, para áreas vastas, que atravessam oceanos. Artigo de Farooque Chowdhury, economista, autor de numerosos livros,natural do Bangladesh.
 

A eurozona em conflito procura conciliação enquanto é assombrada pelo espectro do Grexit (Greece's exit) – a saída da Grécia da eurozona.

Exactamente na conclusão da cimeira do G8 o esforço de conciliação produziu um entendimento ad hoc e o testemunho foi uma Angela Merkel isolada. Uma linha divisória mais profunda atravessava todo o comunicado que a cimeira emitiu.

Agora, quando o espectro da Grexit parece maior, Merkel & Co. está a ventilar um plano para um divisor de águas mais pequeno e uma união mais forte. Jörg Asmussen, o ex-vice-ministro das Finanças alemão e actualmente o membro alemão no Banco Central Europeu, um porta-voz de Merkel, lançou a ideia de uma união política e financeira federalizadas dentro da UE: uma eurozona politicamente integrada dividindo a União em duas, com o núcleo formando uma "união bancária, fiscal e política", do abandono temporário dos seus planos de expansão nos Balcãs e na Turquia e com um Parlamento Europeu a exercer poderes mais vastos.

Será isto o sonho do capital alemão? A ideia mostra simultaneamente aspirações e limitações de uma secção do capital na Europa que aspira ser dominante mas a que falta o poder para dominar. Materializar o plano é agora uma tarefa quase impossível.

Merkel encontra-se cada vez mais isolada, um espectáculo de desunião, se bem que represente um capital inflexível para impor o seu diktat sobre os fracos – presas do poderoso capital. Na cimeira do G8, Barack Obama estendeu uma mão amistosa sobre o ombro de François Hollande, o presidente socialista francês.

Nas próximas reuniões formais e informais na Europa, Hollande posicionar-se-á mais próximo de Mario Monti, o dirigente italiano. E David Cameron desempenhará o papel de segundo violino, o qual será por vezes insignificante e em outras vezes não soará suavemente nos ouvidos de Merkel.

Hollande pressionará os alemães a aceitarem a ideia de medidas de crescimento e eurotítulos. Mas isso não é aceitável para os alemães. Herman Van Rompuy, o presidente do Conselho Europeu, parecia dar apoio à agenda alemã ao passo que a Itália e a Grã-Bretanha espera-se que apoie Hollande.

Isto testemunha o novo isolamento de Merkel na Europa, fracturas no continente e interesses conflitivos que o capital dominante não consegue unir.

A cimeira do G9 encontrou uma Merkel aparentemente inflexível. Mas a opção de Obama era a conciliação pois ele precisava daquela postura. A posição alemã traz o risco de agravar a crise europeia que por sua vez pode aumentar o número de desempregados nos EUA. Obama não pode permitir que o número avance antes da sua viagem eleitoral. Cameron tentou actuar como conciliador entre partes em conflito. A aliança anglo-americana em conjunto contrariou a posição de Merkel. Ela teve de fazer uma retirada.

A líder alemã considerou que não era assunto do G8 dizer aos estados da UE o modo de tratar da sua economia. Mas o comunicado da cimeira reiterou o direito do super-grupo de discutir o estado da economia europeia e a oposição alemã foi ultrapassada. O super-grupo assinalou: a Europa ainda não é um domínio alemão.

O comunicado comprometeu o G-9 a "dar todos os passos necessários" para fortalecer suas economias. Ele dizia: "a Grécia deveria permanecer na eurozona".

No seu parágrafo de abertura, o documento oficial declarava: "Nosso imperativo é promover crescimento e empregos". Por ora, o comunicado apresenta-se como um documento de vitória para Obama e Hollande. Contudo, persistem diferenças em questões políticas.

Os interesses trans-atlânticos e a equação de poder são portanto reflectidos no comunicado. Mas a Grexit continua a perturbar.

A Grexit é uma questão interessante! Ela une e ela divide, produz insegurança e produz teimosia. Atrás de portas fechadas, os actores principais ameaçam a Grécia de expulsão enquanto publicamente asseguram à Grécia a condição de membro na zona. Uma secção está assustada com a Grexit ao passo que outra secção calcula possíveis perdas em caso de saída.

Os interesses diferem pois eles não estão certos do caminho para tratar as questões decorrentes de uma economia doente que está a ameaçar as economias do continente. Um fraco assusta um forte! O medo da reacção em cadeia do síndrome da Grécia está agora a assombrar políticos da eurozona.

Todos os interesses bancários uniram-se para ameaçar os eleitores gregos. Eles agora estão a advertir a Grécia e a manipular políticos gregos de modo a que políticos pró austeridade vençam a próxima eleição. A sua mensagem é directa: votar pelo Syriza, a coligação radical de esquerda que se opõe à austeridade e aos banqueiros [1] , será uma aposta perigosa.

Na tarefa de advertir os eleitores gregos, Cameron deu uma ajuda a Merkel. Em Chicago, disse: "Temos agora de enviar uma mensagem muito claro ao povo da Grécia: há uma opção – vocês podem ou votar para permanecer no euro, com todos os compromissos que assumiram, ou se votarem de outro modo estão efectivamente a votar pelo abandono.

Um drama de negação e afirmação antecedeu a advertência de Cameron. Foi relatado que numa conversação telefónica com Karolus Papoulias, o presidente grego, Merkel sugeriu que a Grécia fizesse um referendo sobre a condição de membro do euro como parte da eleição geral. Mas o porta-voz de Merkel negou a informação. Contudo, o gabinete do primeiro-ministro interino grego Panagiotis Pikrammenos declarou que a chanceler havia apresentado a proposta durante uma conversação telefónica com Papoulias: "É verdade", disse um porta-voz do governo grego.

Cameron e a líder germânica associam-se. O Grexit uniu-os.

Jens Weidmann, o presidente do Bundesbank, advertiu bancos centrais da Europa para não aumentarem a sua exposição à Grécia por causa da incerteza política ali antes das eleições. Será isto o modo de um banqueiro negociar ou pressionar o cliente?

Wolfgang Schäuble, o ministro alemão das Finanças, disse que a Grécia tinha de eleger um governo que continuasse a aderir ao programa internacional de salvamento. "Se a Grécia ... quiser permanecer no euro então eles têm de aceitar as condições. Do contrário não é possível. Nenhum candidato responsável pode esconder isso do eleitorado", disse Schäuble. Ken Clarke, o secretário da Justiça britânico, advertiu: a Grécia enfrentará um futuro desastroso e pode ser forçada a abandonar o euro se votar por "extremistas irritados". Uma instrução directa aos eleitores!

Há mais ameaças aos eleitores gregos. Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, disse que um pacote de resgate de €130 mil milhões obtido em Março junto a credores internacionais não podia ser renegociado. "A Grécia [...] não deveria auto-destruir-se", disse o político alemão. "Queremos que a Grécia permaneça parte da nossa família, da União Europeia", disse José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia. "Dito isto, a resolução final de permanecer no euro deve vir da própria Grécia". A CE insiste em que a Grécia deve honrar as medidas de austeridade. Juncker, o primeiro-ministro do Luxemburgo, disse: A próxima eleição seria a última oportunidade da Grécia. Se a Grécia deixar de formar um governo que respeite as condições de ajuda financeira acordadas anteriormente com a UE, FMI e BCE, "então está acabada".

Jean-Claude Trichet, o ex-presidente do Banco Central Europeu, argumentou que os estados da eurozona deveriam poder declarar membros da mesma em bancarrota e assumir o comando da sua política fiscal e de gastos. Mas a ideia foi afastada pelo economista Nouriel Roubini como "pondo totalmente em causa a soberania nacional na Grécia e na Itália". [Pode-se agora perceber facilmente o modo como países pobres na periferia são ditados, ameaçados e manipulados, o modo como o seu sentido de honra nacional é pisoteado. Empregados júnior de países do centro dizem a estes países periféricos: "Faça isto."].

As ameaças, advertências, etc revelam o nível mais alto de risco na Grécia, com cerca de €400 mil milhões em débitos externos. "Oficialmente", diz um relato da imprensa, "governos da eurozona dizem que não estão a falar acerca de uma saída grega. Mas há uma história diferente por trás das portas. A reunião de ministros das Finanças em Bruxelas segunda-feira passada ameaçou expulsar a Grécia".

A exacta reação em cadeia da Grexit é desconhecida. Há suposições e temores. De colapso do mercado a reacções políticas adversas, de bancarrotas à recessão, e muito mais.

A crise de dívida soberana europeia também se tornou uma crise bancária [2] . A Espanha está à beira do precipício. O país pode desencadear um problema maior. A crise foi exacerbada pela revelação de que o défice espanhol é maior do que aquilo que se temia anteriormente, pressionando o seu doentio sector bancário. Merkel intimou seu colega espanhol, o arrogante e conservador Mariano Rajoy, a encontrar-se com ela.

Bancos na Itália e Portugal também estão "solidários". Todos eles estão a enfrentar riscos. Eles podem arrastar para baixo o sistema bancário alemão. A Grã-Bretanha é fortemente exposta à crise. Os EUA não estarão imunes à doença grega. O Fed dos EUA está a ficar cada vez mais preocupado com a situação da Europa.

A agência de classificação Moody's já degradou 26 bancos italianos e 16 espanhóis. Em Março os bancos espanhóis sentavam-se sobre €148 mil milhões de empréstimos podres. A proporção de empréstimos podres de bancos espanhóis subiu para um máximo de 18 anos.

A Fitch colocou bancos cipriotas na classificação de observação negativa. A empresa advertiu que os bancos cipriotas permanecem altamente sensíveis ao risco grego.

Uma perda de confiança nos bancos será catastrófica. O medo de uma corrida bancária em grande escala é alto. As consequências serão graves.

Depósitos em bancos gregos já desceram em quase um terço. Os poupadores gregos estão a retirar euros das suas contas bancárias. Recentemente foram retirados cerca de €900 milhões num único dia. Os bancos gregos, segundo um analista da Moody's, tornaram-se "economicamente insolventes".

O BCE confirmou que um certo número de bancos gregos foi agora cortado das suas operações de refinanciamento.

Indivíduos ricos em países atingidos pela crise estão a transferir milhares de milhões de euros para áreas que consideram mais seguras. Há sinais de que uma secção de franceses ricos está a transferir para Londres.

"E agora", escreve Paul Krugman", "chega o momento da verdade" (“Apocalypse Fairly Soon: The Moment Of Truth In Europe ”, The New York Times, May 18, 2012 )

Designando o euro como um "grande e enviesado experimento em união monetária sem união política" Krugman assume: "O euro como um todo explodiria. As coisas desintegram-se com velocidade espantosa, numa questão de meses, não de ano. E os custos – tanto económicos e, provavelmente ainda mais importantes, políticos – poderiam ser enormes".

Ele reflecte o medo já amplamente verbalizado: "Uma ruptura teria efeitos propagadores por todo o mundo. Os maiores custos do fracasso europeu provavelmente seriam políticos".

O euro foi um dos maiores projectos do capitalismo na Europa. Agora, uma porção significativa do capitalismo europeu – a eurozona – está a lutar internamente, consigo própria. A sua ineficiência intrincada está agora a surgir à vista das pessoas comuns. Isto não é a sua tragédia, é um dos seus atributos. Sonhava abranger tudo e todas as coisas mas não sabe controlar as forças que alimentou e desencadeou. As contradições que o euro está a confrontar agora não foram criadas por ninguém, mas por si próprio. Ele ampliou a extensão e consequências das contradições, para áreas vastas, que atravessam oceanos.

No continente, está barbaramente a travar uma guerra de classe não só contra o trabalho mas também contra a sociedade mais vasta, não só num único país mas em países e, através do continente, está a por em perigo não só países pobres como também os seus aliados de classe – os ricos agrestes (uncouth) – daqueles países pobres. É o seu poder, um poder que pode tentar sobreviver só à custa de outros, inimigos de classe e aliados de classe.

Está a intervir no sistema político de países e está a propagandear a não interferência. Está a ditar países e está a propagandear democracia. Está posicionado numa zona sísmica e está seguro do seu destino.

Grexit, Espanha, Itália, Portugal e desunião-união do euro estão a facilitar novas mudanças nas placas continentais.

22/Maio/2012

NR
[1] Nem tão radical nem tão de esquerda, pois defende a continuação da Grécia na UE e na zona euro. A plataforma eleitoral do Syriza é uma contradictio in terminis pois defende em simultâneo coisas incompatíveis. Apregoar falsidades para obter votos não é uma posição séria.  Ver: O chefe do SYRIZA oferece-se para colaborar com a UE
[2] Seria mais correcto formular a frase em termos inversos: a crise bancária é que se tornou uma crise de dívida soberana.


  • Ver também: O espectro da Grécia , de Octávio Teixeira, 22/Maio/2012

    [*] Economista, autor de numerosos livros , natural do Bangladesh

    O original encontra-se em http://www.countercurrents.org/chowdhury220512.htm

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