Sectarismo contribui para a vitória da direita na Grécia
 
Das análises é possível constatar que se tratou da vitória do medo, sobretudo, medo do novo - uma Grécia fora do capitalismo e rumo ao socialismo. Mesmo com todas as dificuldades impostas pela conjuntura internacional, muitíssimo melhor seria a vitória do Syriza, que obteve 27,1%. Uma nova agenda estaria na mesa. Agora, com o ND, a agenda continua sendo ditada pelas elites que criaram a crise. Por João Carlos Moutinho
 
Terça, 19 de Junho de 2012

 Com os resultados das eleições na Grécia, os analistas das elites hegemônicas (no Brasil e no mundo) festejam a vitória (apertada) do partido de direita, o Nova Democracia (ND), com 29,5% dos votos. Das análises é possível extrair com facilidade que a vitória do ND foi mais favorável às medidas impostas pelo sistema financeiro internacional, os banqueiros e a zona do euro, em detrimento do povo grego.

 Das análises é possível constatar que se tratou da vitória do medo, sobretudo, medo do novo - uma Grécia fora do capitalismo e rumo ao socialismo. Mesmo com todas as dificuldades impostas pela conjuntura internacional, muitíssimo melhor seria a vitória do Syriza, que obteve 27,1%. Uma nova agenda estaria na mesa. Agora, com o ND, a agenda continua sendo ditada pelas elites que criaram a crise.

 A vitória poderia ter acontecido não fosse a propaganda do medo levada a cabo pelos meios de comunicação hegemônicos, mas, sobretudo, pelo sectarismo do Partido Comunista Grego (KKE), que obteve 4,5% dos votos. E se o KKE tivesse transferido seus votos para o Syriza? Haveria, nobremente, deixado de lado sua posição dura, em benefício do povo grego, que estaria em festa completa, rumo a novas perspectivas soberanas.

 O KKE deu as costas para a unidade das forças de esquerda e foi punido pelo povo. O partido assistiu ao encolhimento de sua bancada, de 26 deputados (em 6 de maio de 2012) para 12 deputados nessa eleição (17/6). Ou seja, é preciso uma outra reflexão sobre o que fazer, dentro das condições reais da Grécia. Uma agenda de reflexão está posta para todos os partidos de esquerda, inclusive no Brasil. É preciso abandonar o sectarismo, em prol da unidade, pois ninguém é dono da verdade.

 O KKE, ainda que não quisesse, acabou por colaborar com a barreira ao novo na Grécia. Ficou patente que o partido, com sua teimosia, acabou contribuindo para a vitória das forças de direita naquele país de heróicas páginas.

 Mas há tempo para uma mudança de posição, pois a esquerda grega demonstrou sua força e tem muitíssimas perspectivas de avançar na conquista dos corações gregos contra as políticas neoliberais, consubstanciadas, entre outros, no governo da Alemanha, na Comissão Européia e no FMI, que imporão mais austeridade à Grécia e, conseqüentemente, à Europa.

 O mais correto para o KKE seria a solidariedade com a coligação Syriza na luta por um novo governo que enfrente a eminente crise social e a bancarrota. Foi no detalhe (no aperto) a vitória da direita, bastava ao partido comunista ter transferido seus votos para o Syriza que a vitória seria retumbante.

 Em entrevista ao jornal inglês Guardian, o líder da Syriza, Alexis Tsipras, destacava um ponto contra a política de austeridade imposta à Grécia: “Ninguém tem o direito de reduzir um povo orgulhoso a tal estado de miséria e de indignidade".

 O exemplo grego contribuirá muito para os outros países, inclusive o Brasil, em prol da construção da unidade, sem sectarismos, um outro "Quê fazer?" sem importar modelos.

 José Carlos Moutinho é jornalista.

 

 
 
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