O pós-eleições: gargalos sociais não serão resolvidos
 
Outro elemento a ser considerado no marco geral das eleições nos dois turnos é o aumento da abstenção eleitoral no país, que, somado à parcela que votou nulo ou branco, abarca aproximadamente 30% do eleitorado nacional. Isto pode significar uma expressão inicial, parcial, de desgaste dos partidos e representações tradicionais da institucionalidade. A ampliação do número de partidos que ganharam prefeituras importantes, inclusive siglas de aluguel, ou mesmo fenômenos como Russomano em São Paulo e Ratinho Junior em Curitiba, é expressão de uma certa irritação de parcela da população com os partidos e políticos tradicionais. Fonte: da Redação do Correio da Cidadania
 
Sexta, 02 de Novembro de 2012 As eleições municipais em segundo turno realizadas em 50 cidades mantiveram, em linhas gerais, a tendência de fortalecimento da ampla base de sustentação do governo Dilma, incluindo o seu arco fisiológico de direita e um outro, não tão fisiológico, mas de centro-direita, como o partido de Kassab, o PSD. Neste amplo leque, PT e PSB foram os mais vitoriosos. Num certo sentido, talvez mais o PSB, que teve um crescimento espetacular nas cidades mais importantes e ficou com cinco capitais, derrotando o PT em BH, Fortaleza e Recife. Assim, aumenta (muito) seu poder de chantagem e negociação sobre o governo Dilma para 2014, enquanto flerta com o PSDB de Aécio e dá sinais de que se oferece, no cenário nacional, como um tipo de PMDB “moderno”. Mas o PT, pela primeira vez, confirmou-se como o partido mais votado do país em eleições municipais, pois ganhou, afinal de contas, São Paulo, e quase fechou por inteiro sua região metropolitana. De toda forma, não foi uma vitória acachapante do PT e de Lula, que sofreram derrotas importantes no Nordeste e foram bem mal no Norte do país, apesar da vitória em Rio Branco. Mas o fato é que partidos mais próximos da sustentação do governo, sem ignorar suas contradições, cresceram. Encolheu a oposição de direita, com o PSDB sofrendo derrotas muito importantes, como em São Paulo, e vencendo em capitais mais secundárias. O DEM só não evaporou nestas eleições graças ao triunfo de ACM Neto em Salvador, mas com uma cara mais renovada e "light" em relação ao velho perfil oligárquico do carlismo. Em geral, a tendência municipal foi mudancista, e não situacionista, ainda que tenha havido envolvimento direto de Lula e Dilma em algumas localidades, e a despeito da altíssima popularidade do governo Dilma. Uma hipótese é que os efeitos da crise, das medidas de ajuste e os gargalos sociais, que em geral não afetam a relação do governo Dilma com a maioria da população, chegam de forma mais direta, concreta, na esfera local. Outro elemento a ser considerado no marco geral das eleições nos dois turnos é o aumento da abstenção eleitoral no país, que, somado à parcela que votou nulo ou branco, abarca aproximadamente 30% do eleitorado nacional. Isto pode significar uma expressão inicial, parcial, de desgaste dos partidos e representações tradicionais da institucionalidade. A ampliação do número de partidos que ganharam prefeituras importantes, inclusive siglas de aluguel, ou mesmo fenômenos como Russomano em São Paulo e Ratinho Junior em Curitiba, é expressão de uma certa irritação de parcela da população com os partidos e políticos tradicionais. De outro lado, vale reafirmar que estas eleições expressaram um crescimento de uma esquerda socialista, de um espaço de oposição crítica e de esquerda, expressa amplamente no PSOL, que teve votações significativas no primeiro turno e chegou a vencer sua primeira capital no segundo turno (Macapá), tendo uma votação muito representativa em Belém. Embora, registre-se, a vitória do PSOL em Macapá, com apoio do PSDB e DEM, seja extremamente contraditória, para dizer o mínimo, pois vencer nestas condições já gerou o rechaço de quase metade do Diretório Nacional do partido, de inúmeros de seus candidatos, alguns parlamentares e, possivelmente, da maioria da militância ativa. Mas a conclusão mais importante é que, em que pese a ampliação do número de partidos que conquistaram prefeituras importantes, o grosso está no arco ou do bloco dirigido pelo PT ou da oposição de direita, incluídos aí os já citados que gostam de flertar com os dois blocos dominantes. Um resultado que não aponta para mudanças significativas no atual modelo de política econômica e projetos que vêm sendo tocados no país. Em termos práticos, deve, assim, ser mantido o ajuste no setor público, com as consequências já visíveis no âmbito da saúde, transportes e moradia. Haverá uma nova rodada de reformas contra direitos dos trabalhadores, o que o governo federal não esconde, tais como a reforma trabalhista, nova reforma da previdência, lei antigreve no setor público, ao lado da criminalização dos movimentos sociais e da pobreza e da manutenção da política do PAC visando os megaeventos. Ou seja, o projeto de tornar o Brasil um país capitalista mais “competitivo”, com redução dos custos da mão-de-obra, redução da capacidade de resistência dos trabalhadores e uma ampla política de privatização de serviços e da infraestrutura do país. Se, portanto, o resultado das eleições fortaleceu esse ‘mais do mesmo’, é certo que as desigualdades geradas por essa política e os gargalos deste modelo prosseguirão. O recente apagão elétrico no Nordeste e parte do Norte do país são um sintoma desta doença.
 
 
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