Desnacionalização aumenta remessas de lucro das múltis
 
Muita coisa poderia ser dita sobre o resultado, bastante ruim, das contas externas em outubro – divulgado pelo Banco Central no último dia 22. O que nos parece mais evidente, embora não seja original, é o fracasso completo da política de encher o país com “investimento direto estrangeiro” (IDE), isto é, com dólares que vêm comprar empresas nacionais, enquanto se garroteia o investimento público. Fonte: Jornal Hora do Povo
 
Rapidamente: de janeiro a outubro entraram no país, em IDE, ou seja, para comprar empresas nacionais, US$ 55,3 bilhões (mais precisamente, US$ 55.306.284.689,12). No mesmo período, foram remetidos para fora do país US$ 59,8 bilhões. Ou seja, saíram US$ 4,5 bilhões a mais do que os dólares que entraram como IDE. Os setores que mais remeteram lucros para suas matrizes foram as montadoras automobilísticas (10,3% do total), os bancos (10,8% do total), e, o que pode ser uma surpresa para quem não se atentou à desnacionalização da economia nos últimos anos, a indústria de bebidas (11,5% do total de lucros remetidos). Perto destas estão os supermercados (6,8% do total) e as empresas estrangeiras de eletricidade (6,4% do total). Não entraremos, por hoje, nos empréstimos que o BNDES concedeu às montadoras, às elétricas, à Ambev, aos supermercados e a outras multinacionais. Está claro, pela menção acima, qual o destino dessas benesses à custa do contribuinte, em especial à custa dos trabalhadores brasileiros. Vamos a outra questão: certamente, podem aparecer os que dirão que estamos considerando as remessas totais para o exterior, e não apenas as remessas de lucro. Mas, além de não fazer diferença do ponto estritamente financeiro, as remessas totais somente estão em US$ 59,8 bilhões devido às remessas de lucro, que, em outubro, aumentaram 51,1% em relação a outubro do ano passado e 40% em relação a setembro deste ano. Além da pergunta óbvia - e correta, por mais que pareça ingênua (que vantagem tem para o país uma política em que os recursos que saem são maiores que aqueles que entram?) - há o fato de que, durante o mesmo período, o crescimento do país foi tão baixo que, hoje, a mediana das previsões está em minúsculos 1,5% para este ano (a sensacional expectativa de que o IBGE anunciará, para o PIB do terceiro trimestre, um crescimento de 1% ou 1,1% na próxima sexta-feira é derrisória, pois não muda em nada a expectativa para o ano - ou o fato de que o ano foi perdido). Enquanto isso, revela a Execução Orçamentária, até o dia 24 de novembro, somente 17,3% dos investimentos do Orçamento haviam sido liberados (fora restos a pagar de outros anos – mas não se pense que as despesas inscritas nos restos a pagar têm sido, em geral, pagas; pelo contrário; v., por exemplo, os trabalhos do economista Sérgio Wulff Gobetti: “As distorções na estimativa dos investimentos públicos decorrentes dos critérios de contabilidade dos governos”, Revista do Tribunal de Contas da União, v. 107, p. 101-109, 2006; “Estimativa dos Investimentos Públicos: Um Novo Modelo de Análise da Execução Orçamentária Aplicado às Contas Nacionais”, in STN, Finanças Públicas, XI Prêmio Tesouro Nacional, Editora da UnB, 2007, v. XI, p. 479-520; “Qual a real taxa de investimento público no Brasil?”, Brasília, DF, s.d., mimeo). Podemos resumir a situação do seguinte modo: o investimento público no Brasil aumentou substancialmente a partir de 2006 até 2010 – e, em seguida, caiu em 2011, e, tudo indica, em 2012 (cf. S. W. Gobetti, “Investimento Público no Brasil”, IPEA; e C. H. Matos dos Santos, “Como anda o investimento público no Brasil?”, IPEA, Brasília, 2011). O resultado foi a paralisia econômica do país – em especial a desaceleração violenta, em 2011 e 2012, do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), estabelecido pelo presidente Lula em 2007. Com uma inevitável consequência: a redução substancial do investimento privado. Como em qualquer parte do mundo, o investimento privado é puxado pelo investimento público. Apenas o sr. Mantega, seguindo alguns débeis mentais (ou nem tanto, pois esses últimos, em geral, são porta-vozes de bancos, adversários do investimento público por razões muito pragmáticas, pois seu objetivo é cevar os patrões, drenando dinheiro público para seus cofres), postulou que reduzir o investimento público faria aumentar o investimento privado. Evidentemente, não deu certo. Enquanto isso, o IDE entrou no país em cascata – de janeiro de 2011 a outubro de 2012 entraram no país, em IDE, nada menos que US$ 121,966 bilhões. Sem outro resultado, senão o detonamento das contas externas, com a desnacionalização da economia, o aumento das remessas de lucros para o exterior, o aumento das importações – e a estagnação do crescimento. CARLOS LOPES
 
 
ver todos os artigos