Governo e oposição usam informações econômicas como ‘arma, marketing e diversão’ em 2013
 
Está em pleno curso nos meios de comunicação uma operação nada subliminar, verdadeira campanha para construir expectativas sobre a situação econômico-financeira do país, em sentido oposto às expectativas gestadas pelo discurso oficial para o futuro próximo da economia (2013-2014). Por Guilherme Costa Delgado, doutor em economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. Fonte: Correio da Cidadania.
 
Cadernos econômicos e seções especializadas dos principais meios impressos de comunicação levantam grandes reportagens “técnicas”, fartamente repercutidas na televisão e no rádio, na perspectiva de formar um determinado estado de consenso ou corrente hegemônica de opinião. O ambiente de crise econômica mundial, entremeado pelas incertezas sobre o futuro, é caldo de cultura fermentado nesse exercício de manipulação de mentes e corações. Os fatos, situações, visões e versões daquilo que ocorre no mundo da economia, como de resto em todos os outros campos, precisam ser transmitidos ao mundo da vida social mediante linguagem comunicativa simples, mas, sobretudo, veraz. Este é o sentido e papel da comunicação social, que dá legitimidade à liberdade de imprensa – direito fundamental do cidadão na democracia, lido invertidamente como se fora privilégio dos proprietários de monopólios da comunicação. Observe-se que as campanhas implícitas ou explícitas de formação de expectativas não visam apenas induzir a ação dos empresários privados, que pela suas decisões, conjugadas às do governo, moveriam o sistema econômico à recuperação de certa atrofia, experimentada nos dois primeiros anos do governo Dilma (baixo crescimento de 2011 e 2012). O que se visa primordialmente são as expectativas do eleitor, submetido a duas estratégias opostas: 1. a do “marketing” oficial ou oficioso – no sentido de que a economia vai bem, teremos crescimento “alto” em 2012, com pleno emprego e melhoria da igualdade social; 2. a estratégia do campo conservador, produzida nos cadernos econômicos e repercutida no horário nobre da TV – de desqualificação sistemática da política econômica. Mas quando se opera cada vez mais ‘estrategicamente’ em matéria de comunicação social, a verdade é a principal vítima, a exemplo do que ocorre nos comunicados de guerra dos Estados-Maiores militares, relatando os resultados de uma última batalha de uma guerra em curso. Exemplos recentes mais notórios da guerra da informação: 1. reportagem na primeira semana de janeiro do jornal O Estado de S. Paulo, amplamente repercutida pela televisão – sobre a previsão do apagão elétrico em 2013, invocando o argumento do baixo nível dos reservatórios hidroelétricos (antes das chuvas de verão); 2. sucessivas reportagens da TV Globo, em horário nobre, repercutindo editorias econômicas, sobre a “maquiagem” das contas públicas; 3. busca seletiva no governo federal e no Partido dos Trabalhadores dos escândalos de corrupção – uma tentativa nada original de colar a imagem do “mar de lama” que Carlos de Lacerda cunhou no anos 50 para desqualificar o governo Vargas. Do lado oficial, por sua vez, opera-se também um misto de formação de expectativas empresariais e eleitorais, visando sobretudo 2014. O discurso da imunidade à crise externa, da continuidade da política de melhoria da igualdade social, supostamente inaugurada pelo governo Lula, da retomada do crescimento e do pleno emprego, tentam nos passar a mensagem de um “novo desenvolvimento”. É verdade inconteste que a repercussão midiática deste discurso é bem mais limitada, mas não sua recepção coletiva, haja vista a continuada “alta” avaliação que contam os personagens Lula e Dilma na pesquisas pré-eleitorais. Mas aqui há uma estratégia de comunicação, também com sacrifício da verdade, naquilo que não interessa ao governo discutir. Pensamento crítico sobre o futuro do Brasil é o grande ausente, seja no discurso oficial, seja nas campanhas midiáticas da oposição – ou da oposição midiática, como querem alguns. Desenvolvimento, igualdade e democracia aparentemente seriam valores naturais e eternos que não mereceriam maior reflexão, porque aparentemente “dados”. E por sua vez o ambiente de novos riscos sociais (ambientais, financeiros, epidemiológicos etc.) e o contexto de dependência externa que caracteriza o “novo desenvolvimento” de meados da década 2000 são considerados demasiadamente “negativos”, quer a uma estratégia de “marketing” oficial, quer a uma operação de guerra da oposição. Nesta última, a informação ora é arma de desqualificação explícita do oponente, ora é instrumento de diversão, utilizado aqui no sentido da montagem de manobras diversionistas. Pelo visto, há muito que fazer no campo do esclarecimento público e da reflexão crítica, infelizmente à margem das correntes hegemônicas do poder.
 
 
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