“Os 42 anos mais sórdidos do catolicismo”
 
O teólogo MatthewFox revela como os papas Ratzinger e Wojtyla reintroduziram a Inquisição, perseguiram divergentes e tornaram quase impossível a renovação da Igreja. Entrevista de Amy Goodman e Juan Gonzalez, publicada no Outras Palavras. Fonte: DemocracyNow
 
Amy Goodman: Bem vindo ao Democracy Now! Pode começar por responder sobre a renúncia do Papa e o seu significado? Obrigado. Eu realmente aprecio o vosso jornalismo. Ele significa muito, para muitos de nós. Penso que eu vou acreditar na palavra do Papa, quando ele diz que está cansado. Eu estaria cansado também, se tivesse deixado atrás do meu mandato tanta devastação, como ele fez, primeiro como inquisidor-geral durante o papado anterior. Bento trouxe de volta a Inquisição. É verdade que fui um dos teólogos expulsos por ele, mas relaciono outros 104 no meu livro, e a lista continua a crescer. É assim que a História vai lembrar este homem: como quem trouxe a Inquisição de volta, o que é o completo oposto do espírito e dos ensinamentos do Segundo Conselho do Vaticano. Portanto, acredito realmente que o Papa está a deixar o seu posto porque não o suporta mais. O Vaticano tornou-se um ninho de serpentes. Como teólogo, vejo o trabalho do Espírito Santo em tudo isso. A Igreja Católica como a conhecemos, a estrutura do Vaticano, está obsoleta. Estamos a mover-mo-nos para além dela. O que está a ocorrer é doentio e refiro-me, por exemplo, à proteção dos padres pedófilos. Você pode ver este fenómeno em muitos lugares: como o Cardeal Mahony em Los Angeles; o cardeal escocês que acaba de renunciar; o Cardeal Law, que foi elevado após ter saído de Boston, promovido para dirigir uma basílica do século IV, em Roma; e o próprio Papa, segundo informações recentes. Estamos a tomar conhecimento das coisas horríveis que ocorreram numa escola para surdos em Milwaukee, onde mais de 200 miúdos, miúdos surdos, foram abusados por um padre, e Ratzinger sabia disso. O Padre Maciel, que era tão próximo do último Papa que o levou para passeios de avião, abusou de vinte seminaristas; tinha duas esposas e abusou de quatro dos seus próprios filhos. Ratzinger soube desse caso por dez anos. Os documentos estavam na sua mesa, e ele não fez nada até 2005. A história e a bajulação dos papas, que chamo de papolatria, não vão encobrir os fatos. Foram os 42 anos mais sórdidos do catolicismo, desde o Borgias. Acho que é algo realmente relacionado ao fim dessa Igreja, como a conhecemos. Acredito que o protestantismo também necessita de um reinício. Acho que o cristianismo pode voltar mais atrás, e se aproximar dos ensinamentos de Jesus, um revolucionário do amor e da justiça. É disso que se trata. E é por isso que tem havido uma resistência tão feroz, na ala direita. A própria CIA esteve envolvida, especialmente com o Papa João Paulo II, no esmagamento da Teologia da Libertação em toda a América do Sul, substituindo líderes heroicos, inclusive bispos e cardeais, por integrantes da Opus Dei, uma organização fascista. Tudo se reduziu a uma questão de obediência: não se trata de ideias ou teologia. Eles não produziram um teólogo em quarenta anos. Produziram advogados canónicos e pessoas que se infiltram onde o poder está: nos mediaa, na Suprema Corte, no FBI, na CIA e nas finanças, especialmente na Europa. Juan González: Em alguns dos seus escritos, você sustenta que, no fundo, os dois últimos papas — Bento XVI e João Paulo II – lideram um cisma e que, na realidade, agiram para burlar as decisões do Concílio Vaticano II. Poderia detalhar este movimento histórico? O Papa João XXIII convocou o concílio no começo dos anos 1960. O encontro reuniu todos os bispos do mundo e todos os teólogos, muitos dos quais tinham vivido sob fogo no papado anterior, de Pio XII. Foi certamente um movimento de reforma. Inspirou os mais pobres, especialmente na América do Sul. Depois deste concílio, o movimento da Teologia da Libertação e a opção preferencial pelos pobres descolaram, criaram comunidades de base. Eram um novo jeito de fazer a Igreja, onde todos tinham voz, não apenas as pessoas no altar. Esta aproximação não-hierárquica ao cristianismo e ao culto, muito mais horizontal e circular, foi uma grande ameaça a certas pessoas em Roma — ameaçou ainda mais à CIA. Dois meses depois de eleito, o presidente Ronald Reagan convocou uma reunião de seu Conselho Nacional de Segurança em Santa Fé, Novo México, para discutir um ponto específico: como destruir a Teologia da Libertação na América Latina. Concluíram que não poderiam destruir a Igreja, mas conseguiriam dividi-la. Foram ao Papa. Deram imensas somas de dinheiro ao sindicato Solidariedade, na Polónia, ao qual ele estava ligado. E em troca, conseguiram permissão ou — se você prefere assim — o compromisso do papado em destruir a Teologia da Libertação. Isso está muito documentado. Por exemplo, por Carl Bernstein, num artigo de capa da revista Time, onde ele cria algo como uma hagiografia de Reagan e do Papa juntos. Bernstein foi muito ingénuo sobre o que realmente estava a acontecer na própria Igreja. Parte importante do Concílio Vaticano II era declarar a liberdade de consciência, considerá-la um direito de todos os cristãos. Tudo isso foi destruído pelo papa João Paulo II e pelo cardeal Ratzinger. As reformas do Concílio Vaticano II estavam a concretizar-se. Falo de um cisma porque, na tradição católica, um Concílio é superior a um Papa. Mas nos últimos 42 anos, os dois últimos papados foram desfazendo todos os valores que o Vaticano II sustentou. É isso que as freiras estão a sofrer agora. Assim como o Vaticano atacou 105 teólogos, agora acusa as freiras de, digamos, não participar da Inquisição. E Deus abençoe essas freiras, as NunsontheBus. Muitos de nós conhecemo-las porque elas têm estado nas linhas de frente, sustentando os valores do Vaticano II, especialmente os de justiça e paz, e trabalhando com os marginalizados. Amy Goodman: Matthew Fox, por que você foi expulso da Igreja Católica? Você diz que é por causa da Teologia da Libertação. Explique. Bem, primeiro eu fui silenciado por 14 anos, por Ratzinger. Em seguida, tive permissão para falar de novo e então, três anos depois, fui expulso. Mas ele construiu uma lista de reclamações. Primeira: eu seria um teólogo feminista. Não imaginava que este facto pudesse constituir uma heresia… Número dois, eu chamava Deus de “Mãe”. Bem, provei que todos os místicos medievais chamavam Deus assim; e que a Bíblia também o faz, apesar de forma menos frequente. Número três, eu prefiro a expressão “bênção original” a “pecado original”. Escrevi um livro chamado Original Blessing (“Bênção Original” em inglês), no qual provo que nem Jesus, nem judeu algum, jamais ouviu falar de “pecado original”. Como você pode construir uma igreja, em nome de Jesus, a partir de um conceito que é do século IV d.C. Sabe o que mais aconteceu no século IV, além da ideia do pecado original? Foi a conversão do Império Romano ao catolicismo. Se você passa a comandar um império, o pecado original é um ótimo dogma a difundir. Faz com que todos fiquem confusos sobre por que estão aqui. Nessa condição, é muito mais fácil colocá-los sob comando. Acusaram-me por não condenar homossexuais, o que é claro que não faço. Obviamente Deus quer homossexuais, ou não haveria entre 8% e 10 % da população de todo o planeta com essa graça especial. Disseram que trabalho muito perto dos índios norte-americanos. Bem, realmente trabalho com eles. Aprendi muito com os professores índios e os seus rituais, tais como saunas, danças do sol, busca de visões. Não sei se isso é heresia também — eu não sei o que significa “trabalhar perto demais”. Essas eram algumas das objeções. E realmente, nenhuma delas se sustentava. São testes de Rorschach sobre o que apavora o Vaticano. E acima de tudo, é claro, sobre mulheres e sexo. Essa é a agenda. Em qualquer situação onde há fundamentalismo e fascismo, existe controlo. É por isso que o Vaticano, o Taliban e o pastor Pat Robertson têm algo em comum: estão todos apavorados com a possibilidade de trazer a divindade feminina de volta, e com isso, é claro, os direitos iguais para as mulheres. Juan González: Além da pedofilia, que tem sacudido o Vaticano e toda a Igreja, há também os escândalos de corrupção no próprio Vaticano. Fala-se da denúncia produzida por um grupo de cardeais, que investigaram parte da corrupção mas não vão divulgar nada até o próximo Papa ser nomeado. Sabe quanto qualquer desses temas tem a ver com a renúncia de Bento XVI? Tenho a certeza que tiveram. Eu fui informado de que ele recebeu a denúncia, examinou-a e, seis horas depois, anunciou que estava a renunciar. Pôs-se a salvo e encarregou o próximo papa de lidar com o tema. Penso ser muito claro que há uma conexão. Há muito mais nos bastidores do que a imprensa já anunciou, posso assegurar. Quando Ratzinger fez-se papa, fui a Wittenberg e preguei as 95 Teses [de Martinho Lutero] na porta. Um ano e meio atrás, estava em Roma, e traduzi-as para o latim — quer dizer, italiano, e entreguei-as para a basílica do cardeal Law numa manhã de domingo. Foi muito interessante. Um homem de 40 anos de idade veio ter comigo, um romano. Ele disse-me, muito simplesmente: “Eu costumava dizer-me um católico. Agora, só me chamo de cristão”. Foi um golpe para mim. Logo em baixo do nariz do papa, italianos, também, estão a começar a compreender a verdade, estamos num ótimo momento histórico. Uma instituição ocidental de 1800 anos está a derreter diante dos nossos olhos. É doloroso e feio. Por outro lado, é também um momento de avanço e para apertar o botão de reiniciar no cristianismo, retornando à mensagem realmente poderosa de Jesus e seus seguidores através dos séculos: os místicos e os profetas. Susan Sontag define “fascismo” como violência institucionalizada. Os católicos têm passado por violência institucionalizada há 42 anos. Pergunte a qualquer um desses teólogos que foram afastados do seu trabalho. Alguns morreram de ataque cardíaco. Outros, na pobreza das ruas, porque não conseguiram encontrar emprego. Mas, é claro, fale com os jovens que foram abusados por padres e acobertados por Ratzinger, que “protegeu” a instituição às custas de cada uma dessas crianças. Juan González: Vamos às especulações sobre quem vai ser o sucessor do Papa Bento XVI, Fala-se muito sobre a possível escolha, pela primeira vez, de um papa do hemisfério sul. Vê alguma possibilidade de mudança real e substantiva na política da Igreja, seja quem for o seu sucessor? É triste dizer isso, mas eu não acredito, porque todos os que vão votar foram nomeados com a aprovação de Ratzinger. Pensam como ele. O emburrecimento da igreja veio com toda essa crise pedófila. Quando você não tem líderes inteligentes e com consciência por 42 anos, mas apenas gente que diz sim, não é possível responder de modo inteligente à crise que emerge quando se acha um pedófilo no seu meio. Há um arcebispo norte-americano — não vou nomeá-lo – que, vinte anos atrás, chorou na presença de um amigo meu e disse-lhe: “Não há um único bispo nomeado nos últimos vinte anos que eu consiga respeitar”. Bem, agora nós podemos dizer 42 anos. Por isso, francamente, poucos nomes me vêm à cabeça. Existe este na África, que por azar é um completo homofóbico, e está a endossar todas as leis recentes de violência homofóbica na África. É o chefe da Comissão de Justiça e Paz no Vaticano. Seria de esperar que não chegasse tão longe. Existe o cardeal austríaco, que é dominicano e mostrou um pouquinho de independência uma ou duas vezes. Há esse O’Malley, de Boston, que é franciscano, e portanto não quer ser Papa. Artigo de DemocracyNow| Tradução: Gabriela Leite * Matthew Fox é autor de mais de vinte livros, o mais recente dos quais é “The Pope’s War: Why Ratzinger’s Secret Crusade Has Imperiled the Church and How It Can Be Saved” (tradução livre: “A guerra do Papa: Por que a cruzada secreta de Ratzinger ameaçou a Igreja e como ela pode ser salva”). Fox é um ex-padre católico, que foi primeiro impedido de ensinar a Teologia da Libertação e Espiritualidade da Criação pelo então cardeal Ratzinger. Mais tarde, foi expulso pela Ordem Dominicana, à qual pertenceu por 34 anos. Hoje é padre na Igreja Episcopal.
 
 
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