China: Xi Jinping e a maior rede de internautas
 
Estima-se que existam hoje na China 538 milhões de utilizadores da Internet e que esse número irá saltar para 700 milhões em 2013. Mobilizações recentes mostram que a Internet está a ser usada como instrumento de mobilização e organização. Tomi Mori, para o esquerda.net
 
Artigo | 14 Março, 2013 - 19:23 Um aspeto crucial que irá permear toda a trajetória da nova liderança chinesa é a questão das liberdades democráticas para a maior população do planeta. É uma questão que continua polémica e não deveria. Desde que os comunistas tomaram o poder, em 1949, a democracia nunca fez parte da vida da população, obrigada a aceitar a ditadura de partido único que dura há mais de 60 anos. Os opositores sempre foram tratados de forma brutal e mesmo as divergências partidárias, as disputas ou guerras das camarilhas e fações internas foram resolvidas na base da prisão, dos expurgos e dos assassinatos. O maior exemplo disso foi o famoso processo do bando dos quatro, concluído em 1981, no qual foi condenada Jiang Qing, mulher de Mao Zedong. Com a subida ao poder dos novos governantes, é preciso vislumbrar os rumos que vai tomar essa questão no destino da China ao qual, direta ou indiretamente, estamos todos ligados, devido ao papel que esse país ocupa no atual modo de produção capitalista. A democracia no processo de restauração capitalista O processo de abertura iniciado por Deng Xiaoping, no final da década de 70, que levou à restauração do capitalismo na China, abriu ou criou novas contradições na sociedade chinesa. Do ponto de vista económico, o processo tornou-se uma “longa marcha” à direita, que dura há mais de trinta anos. Com a volta do capitalismo, na arena económica, restava saber se também no terreno político haveria uma mudança, em direção ao processo de democracia burguesa que é a forma de regime que impera na maior parte dos países capitalistas. A resposta a essa pergunta foi dada no episódio da Praça da Paz Celestial, em 1989. O massacre da democracia na Praça da Paz Celestial Do ponto de vista político, no que diz respeito às classes sociais que se enfrentam numa sociedade, o massacre do movimento da Paz Celestial, Tiananmen, foi um momento decisivo na história recente da China. No dia 15 de abril de 1989, com a morte de Hu Yaobang, ex-Secretário Geral do Partido Comunista da China, os estudantes de Pequim, aproveitando a oportunidade como pretexto, deram início a uma série de protestos que duraram várias semanas. As principais reivindicações eram a democracia e o fim da corrupção, que sempre existira e agora se ampliava com a restauração capitalista. Nos dias posteriores, o movimento foi ganhando força e estendendo-se, ameaçando fugir ao controlo da burocracia comunista. No dia 17 já havia 10 mil estudantes em protesto com faixas e bandeiras na Praça da Paz Celestial. Em 20 de abril foi formada a associação autónoma dos estudantes e também a federação autónoma dos trabalhadores de Pequim. Enquanto os jovens entoavam a Internacional, a situação fugia ao controlo dos governantes. Nesse mesmo dia, a policia prendeu 400 estudantes. O movimento incorporara palavras de ordem como: Abaixo o governo corrupto! Abaixo o Partido Comunista! Foi decretada a lei marcial provisória, em Pequim. Começaram confrontos com a polícia. Na mesma proporção que o movimento se ampliava, aumentava a divisão no interior do PCC. Na época, o secretário geral do PCC, Zhao Ziyang, manteve a sua condescendência frente aos estudantes, ao mesmo tempo em que inúmeros velhos dirigentes comunistas formavam uma linha dura defendendo a repressão ao movimento, entre eles Deng Xiaoping, que mantinha todo o poder, mas operava dos bastidores, Li Peng e Yang Shangkun. O movimento alastrou-se para outras cidades, Wuhan, Nanjing, Tianjin e Xangai. Deng ordenou a vinda de 9 mil soldados para ajudar a controlar a situação na capital. No dia 22, uma multidão de 100 mil pessoas concentrava-se no velório de Hu Yaobang. Já não eram apenas os jovens, a população de Pequim aderia ao movimento. Em Changsha, os cartazes radicalizavam: Abaixo Deng Xiaoping! Dia 4 de maio, 150 mil ocupavam a praça. Nos dias posteriores, um milhão e meio de estudantes, funcionários de escolas, protestaram em 80 cidades do país. Dia 12, os jovens iniciam uma greve de fome, radicalizando o movimento. Dia 15, Mikhail Gorbachov visita a China. As manifestações agrupam vários setores sociais, envolvendo de trezentos a um milhão de pessoas. Em Shenyang, no nordeste, 100 mil pessoas protestam diante da sede do partido comunista. Participa gente comum, funcionários, operários, camponeses. Cem mil marcham em Xangai. A divisão na cúpula do partido torna-se crítica. De um lado, Zhao Ziyang e alguns dirigentes e milhares de quadros por todo o país; do outro, Deng, Li Peng, Yang Shangkun, Bo Yibo e tudo o que havia de mais retrógrado na política chinesa. Dia 17, Zhao Ziyang pede a renúncia, por não concordar com a decretação de uma lei marcial no país. São realizados os preparativos para reprimir a revolta, que no dia 19 já se estendia por 119 cidades. As tropas convocadas marcham sobre Pequim, onde moradores e populares montam barricadas, cercam os veículos militares e fazem apelo aos soldados para que não ataquem a população. A lei marcial e o primeiro assalto ao movimento sofreu um grande revés. Em Hong Kong, 600 mil fizeram um protesto de apoio. Em reunião com velhos dirigentes comunistas, Deng afirmou: “ O nosso partido e Estado estão frente a uma crise de vida e morte.” Os dirigentes comunistas preparam uma nova ofensiva sobre os manifestantes para o 4 de junho, deixando claro que deveriam ser utilizados “todos os meios necessários”. As tropas avançaram sobre os bairros periféricos de Pequim. A população não acreditava que os soldados pudessem disparar. No entanto, longe da Praça da Paz Celestial, os soldados começaram a atirar sobre os moradores. Milhares ficaram feridos e centenas foram mortos. São números desconhecidos até hoje. Os estudantes não tinham como resistir ao massacre, os tanques tomaram as praças. Já tinham passado 40 anos de ditadura de partido único. Os estudantes não tinham experiência de luta, tampouco uma solida organização para poder vencer. O mesmo ocorria com os operários. O massacre do movimento da Praça da Paz Celestial definiu todo o período posterior da história da China. No caminho da restauração capitalista não havia a menor possibilidade de, nem mesmo, um respiro democrático. A derrota não fora dos estudantes, que não compõem uma classe social. A derrota estendeu-se aos operários, aos camponeses, à possibilidade de uma revolução política e social para acabar com a burocracia comunista, com os setores pequeno burgueses que se ampliavam no campo e a nova burguesia que ressurgia. Nos mais de 20 anos que se seguiram a essa derrota, prosseguiu o amordaçamento de todas as vozes oposicionistas, de toda e qualquer tentativa de organização, ao mesmo tempo em que todas as “democracias” do planeta estreitavam os seus laços de amizade com o amigo chinês. O massacre da primavera de Pequim permitiu que a elite dominante abrisse completamente as portas aos países imperialistas, vinculando o crescimento económico aos mesmos e permitindo que o país se tornasse a segunda potência económica do planeta. Mesmo assim, fontes independentes afirmam que na atualidade ocorrem cerca de 200 mil conflitos sociais, a maioria desconhecidos da opinião pública mundial. As contradições sociais, as diferenças entre a vida glamorosa da nova burguesia que se formou nesse processo, e a dos moradores dos vilarejos do interior é gritante. Enquanto a China se tornou no maior mercado de carros de luxo, existe um grande número de pessoas que são obrigadas a carregar água às costas para abastecer os lares. Os camponeses são vítimas permanentes do roubo das suas terras pela nova burguesia da construção civil, que cresce vinculada aos dirigentes comunistas ou é originária desse setor. As questões ambientais, a poluição causada pelo crescimento desenfreado também está na origem de um sem número de conflitos sociais. A lista é imensa. A necessidade de amordaçar a maior rede de internautas do planeta Com mais de 60 anos de ditadura, os trabalhadores chineses, do campo e da cidade, estão alijados dos direitos democráticos mais elementares, como votar e ser votado ou ter liberdade de opinião num país onde os meios de comunicação são controlados pelo estado. Não há nenhuma liberdade de organização sindical ou política. Muito tem se falado e escrito sobre a necessidade de reforma política na China. No entanto, toda a história recente do processo de restauração capitalista demonstra que a manutenção do Estado chinês hoje e no futuro depende única e exclusivamente do nível de repressão política que os dirigentes serão capazes de impor sobre as massas chinesas. A própria ascensão de Xi Linping, com formação doutoral em ciência política, demonstra que a nova liderança chinesa não é composta apenas de retrógrados. São quadros políticos que, pela própria faixa etária, puderam ver com os seus próprios olhos a queda da União Soviética e, até certo ponto, devem compreender que caminham historicamente sobre cascas de ovos. Não há como esperar que nesse contexto, de mudanças drásticas na malha social chinesa, a nova liderança possa conduzir a uma abertura democrática como vislumbram alguns analistas ocidentais. Ao contrário, devido ao aprofundamento das contradições sociais e da insatisfação popular, serão obrigados a usar com mais eficácia a brutalidade do Estado, como ocorre em todas as chamadas “democracias” atualmente. A revolução na informática, nas últimas décadas, coincidiu com o processo de restauração capitalista na China. Não apenas coincidiu como foi determinante para que a China chegasse onde chegou. Foi através da possibilidade de controlar operações produtivas na China, desde vários pontos do planeta, que se tornou possível uma mudança de base produtiva tão brusca na história capitalista. Na ausência de mecanismos democráticos tradicionais no país, a Internet transformou-se, de certa forma, em substituto dessas necessidades. Se, por um lado, constitui um setor que move milhares de milhões, por outro lado, transformou-se numa arma apontada contra o regime e o Estado chinês. É uma convivência obrigatória e contraditória para a elite chinesa, já que o país possui a maior rede de utilizadores de Internet no globo. Estima-se que existam hoje na China 538 milhões de utilizadores e que esse número irá saltar para 700 milhões em 2013. É através da rede que a população pode obter informações não veiculadas pelos meios de comunicações oficiais. Não possuindo sindicatos livres, tampouco partidos políticos próprios, a nova geração de trabalhadores tem utilizado, como demonstraram todas as mobilizações recentes na China, a Internet como um instrumento de mobilização e organização. É exatamente por isso que, apesar da quantidade de utilizadores, o Estado interfere sistematicamente na rede, exercendo uma forte censura e bloqueando como pode as informações que considera inconvenientes. Não restam dúvidas de que, para poder sobreviver, a nova liderança terá de controlar ainda mais a maior rede de internautas do planeta. A subida dos novos líderes ocorre numa época das mais complexas na história humana. E também num momento em que as massas de vários países demonstram que não estão dispostas a continuar a aceitar misérias e tiranias.
 
 
ver todos os artigos