Atenas e Chipre
 
Atenas mudou radicalmente. A cidade está pobre e não é preciso que ninguém o diga. Vê-se e sente-se. As lojas fecham e as que não fecham foram-se deprimindo. O empobrecimento é já uma realidade estabelecida nos países onde entrou a Troika. Por Marisa Matias, Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga. Fonte: Esquerda.net
 
opiniao | 2 Abril, 2013 - 11:31 | Por Marisa Matias Já não me recordo se foi num livro ou se foi num filme, mas lembro-me até hoje da imagem. Numa cidade perdida no Midwest americano havia um comerciante que tinha uma loja onde ninguém comprava nada. Na realidade não era bem ninguém, havia um médico que passava de quando em vez para comprar sempre a mesma coisa: um chapéu azul para a sua mulher. O comerciante, claro está, passou a encomendar apenas chapéus azuis para o médico que passava. A montra era já toda azul e ele ali passava os dias. Esta imagem veio-me à memória na quarta-feira passada, no centro de Atenas. Desde o primeiro pacote de “resgate” que tenho aí ido com regularidade. Sempre a trabalho, sempre com uma agenda voltada para a discussão dos problemas comuns que enfrentamos nos países do sul da Europa, os países onde o rendimento de quem trabalha e as pensões de quem trabalhou uma vida se transformaram em alimento dos mercados financeiros, a pobreza disparou, as desigualdades são cada vez mais visíveis, o desemprego é a condição de cada vez mais pessoas. Sempre para procurar em conjunto com outros respostas solidárias a esta ofensiva dos mercados. Nos últimos três anos, Atenas mudou radicalmente. A cidade está pobre e não é preciso que ninguém o diga. Vê-se e sente-se. As lojas fecham e as que não fecham foram-se deprimindo. A imagem do comerciante dos chapéus azuis veio-me à memória quando em conversa com uma emigrante luso-francesa ela me perguntou: não notas uma grande diferença em Atenas desde a última vez? Fiquei por uns segundos em silêncio, o silêncio envergonhado de quem já sabe que vai encontrar essa diferença. A mesma diferença que encontro nas ruas de Coimbra ou de Lisboa, das portas fechadas, das lojas deprimidas. Confessei-lho. Ela retorquiu que o sentimento por lá era o mesmo, que quase se naturalizou a diferença. Esta naturalização, é preciso dizê-lo, não é feita de resignação, pelo contrário. É apenas a constatação do facto de já não se sentir necessidade de falar, de cada vez que se ali vai, das lojas que fecharam, das ruas que estão pobres. E isso é um dos piores efeitos desta crise. O empobrecimento é já uma realidade estabelecida nos países onde entrou a Troika. Não tem nem pode ser o futuro, mas é o presente. Desta vez a reunião foi para discutir o que se passou em Chipre. Parece que é muito longe, mas na realidade é ao virar da esquina. Questiono a financeirização da economia cipriota, opus-me sempre à lógica do paraíso fiscal, mas não podemos jamais aceitar o confisco e o precedente que se abriu. A ideia de taxar os depósitos, associada a um pacote de austeridade que colocará o país também numa situação insustentável, abre uma porta que se deixa escancarada para Portugal e para a Grécia. Quando já não houver coragem para aumentar mais impostos ou reduzir mais salários poderá sempre tentar-se a continuação do roubo indo diretamente às poupanças de cada um. A força do povo cipriota impediu que se fosse diretamente aos pequenos depositantes, mas essa porta ficou aberta. Mais uma vez, ninguém perguntou nada a ninguém. Todas as decisões importantes sobre as nossas vidas estão a ser tomadas à margem de todos nós. É urgente resgatar a democracia em Chipre, na Grécia, como aqui em Portugal. Artigo publicado originalmente no jornal “As Beiras”
 
 
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