Manifestação em Porto Alegre termina em cerco, violência e prisões
 
Protesto contra o aumento da passagem de ônibus foi duramente reprimido pela Brigada Militar; 23 manifestantes foram presos. Fonte: Samir Oliveira, Iuri Müller, Igor Natusch e Ramiro Furquim, do Sul21
 
14/06/2013 - A manifestação contra o aumento da passagem de ônibus que ocorreu na noite dessa quinta-feira (13) em Porto Alegre (RS) terminou em uma batalha campal no bairro Cidade Baixa. Milhares de pessoas começaram a se reunir em frente à prefeitura, no Centro, às 18h, e, após às 21h, quando a marcha chegou à avenida João Pessoa, teve início o confronto direto entre a Brigada Militar e parte dos ativistas. Até este momento, a caminhada vinha se desenvolvendo em um clima bastante tenso. Já no início, por volta das 19h20min, quando os manifestantes começaram a marchar pela avenida Júlio de Castilhos, a Brigada Militar acompanhou o cortejo com o regimento montado. A cavalaria seguia junto com os ativistas pelas laterais do cortejo. Os cavalos estavam visivelmente apavorados com a multidão e com os barulhos – como gritos de protesto e sons de instrumentos musicais. Bem no começo da caminhada, um dos cavalos ficou incontrolável e acabou caindo, mesmo com o policial em cima. Às 19h30min, o grupo ocupou o terminal de ônibus do Camelódromo, sob os gritos de: “Um , dois, três! Quatro, cinco, mil! Ou baixa a passagem, ou paramos o Brasil!”. Em seguida, a caminhada tomou a avenida Voluntários da Pátria e subiu a rua Vigário José Inácio – momento em que alguns manifestantes começaram a investir contra uma agência bancária do Bradesco. Na avenida Salgado Filho, um ativista revirou um contêiner de lixo – que, posteriormente, outras pessoas tentaram colocar no lugar. Assustadas, as pessoas que estavam em uma parada de ônibus próxima se retiraram. A composição, os gritos, cartazes e objetos observados na marcha desta quinta-feira dão a clara dimensão de como ela está inserida em um contexto nacional e global de mobilizações. Diferentemente dos outros atos que já ocorreram na cidade, desta vez as palavras bradadas mencionavam outros locais do país onde também acontecem protestos contra o aumento da passagem de ônibus. “São Paulo! Rio de Janeiro! Porto Alegre e Natal! Pelo passe livre! A luta é nacional!” e “Ô Dilma! Eu quero ver! O passe livre nacional acontecer” foram gritos bastante ouvidos durante a marcha. Mas as palavras de ordem mais entoadas pelos manifestantes foram: “Acabou o amor! Isso aqui vai virar a Turquia”, numa clara referência às mobilizações sociais que têm tomado conta daquele país nas últimas semanas. Ainda havia um cartaz que comparava o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdoğan com o prefeito José Fortunati (PDT). Às 20h, os manifestantes chegaram à avenida Borges de Medeiros, de onde marcharam até a sede do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS). Durante o percurso, pelo menos quatro contêineres de lixo foram virados e duas agências bancárias foram apedrejadas. Esses atos provocavam indignação na maioria do grupo, que respondia com vaias. Marcha tentava chegar até a sede do Grupo RBS Por pelo menos três vezes a marcha se dividiu entre aqueles que queriam ir até a sede do Grupo RBS e aqueles que desejavam seguir um outro caminho. Quando chegaram ao TJ-RS, os ativistas contornaram a avenida Borges de Medeiros e ensaiaram um retorno ao Centro de Porto Alegre. Antes, o grupo que desejava ir até a sede da RBS convocou às pessoas a tomarem a avenida Praia de Belas. Em seguida, por volta das 20h30, a marcha chegou à rua João Alfredo, no bairro Cidade Baixa. Novamente, um grupo conclamou as pessoas a irem até a sede da RBS, mas os ativistas seguiram pelo Largo Zumbi dos Palmares até a esquina da rua José do Patrocínio com a avenida Loureiro da Silva. Neste momento, todos permaneceram parados no cruzamento. Alguns sentaram e houve quem tentasse seguir pela rua José do Patrocínio em direção ao Centro – percurso que foi impedido pela Brigada Militar. Aos poucos, mais e mais pessoas foram aderindo à convocação de marchar pela avenida João Pessoa. Mesmo assim, um contingente considerável ainda permanecia parado no cruzamento. Foi quanto um militante do PSOL tentou chamar os ativistas para uma assembleia, mas foi reprimido por um militante anarquista. “Companheiros, vamos realizar uma assembleia”, disse, sem conseguir terminar a frase. “Cala a boca, partidário de merda! Quer virar vereador? Já te promoveu? Agora vamos seguir a marcha! Pelego!”, gritou o anarquista. A partir daí, a marcha tomou a avenida Lima e Silva. Ao passar pelo bar Pinguim, alguns ativistas jogaram pedras no estabelecimento – conhecido na cidade devido a diversas denúncias de agressão por homofobia que seriam praticadas por seus garçons. Uma das pedras acabou atingido uma própria militante da marcha. Ao chegar na avenida João Pessoa, alguns manifestantes quebraram faroletes de ônibus e jogaram pedras na sede do PMDB de Porto Alegre. Antes, um carro Rádio Gaúcha foi pixado e teve os vidros quebrados – com pessoas dentro do veículo. Ruas da Cidade Baixa ficaram repletas de gás lacrimogêneo O confronto direto com a Brigada Militar começou a se estabelecer quando os manifestantes estavam na avenida João Pessoa, a partir do momento em que cruzaram com a esquina da avenida José Bonifácio – deixando, portanto, a área do Parque Farroupilha. A polícia cercou a marcha por trás, pela avenida José Bonifácio, e pela frente, através da avenida Venâncio Aires. Cerca de dez bombas – entre efeito moral e gás lacrimogêneo – foram disparadas pela Brigada Militar, além de diversos tiros com balas de borracha. Apavorados, os jovens saíram correndo em todas as direções. Muitos tentaram se refugiar na rua Olavo Bilac. A polícia também se dividiu para perseguir os ativistas. Com isso, a manifestação já estava completamente dispersada e as ruas da região estavam infestadas de gás lacrimogêneo – afetando também os moradores e quem circulava pelas redondezas. O empresário Alberto Oliveira, que mora no segundo andar de um prédio na avenida João Pessoa, em frente à avenida José Bonifácio, precisou deixar sua residência devido aos efeitos do gás lacrimogêneo. “Vi uma situação que me deixou impotente e ferido. Tive que sair de casa porque não conseguia respirar, por causa das bombas. E fiquei muito preocupado com minha filha, que estava chegando da faculdade e poderia ficar presa no meio do confronto”, relata. Ele ainda desceu até a rua para ajudar uma pessoa que apresentava ferimentos devido às balas de borracha. “Me senti o último dos cidadãos, na última das cidades, na maior situação de covardia que já vi na minha vida. Só tinha presenciado algo parecido na década de 1970, quando era estudante de primeiro grau e vi a Brigada correndo atrás de estudantes, a cavalo, pela avenida Borges de Medeiros”, compara. Minutos após o fim do protesto, um vídeo colocado no YouTube mostra o momento em que a Brigada Militar entrou no Bar Garibaldi para perseguir manifestantes que teriam entrado no local. Um policial ordena que todos coloquem as mãos na cabeça e exige saber quem teria entrado correndo no estabelecimento. “Só eu falo agora”, disse. Em seguida, comentou que “na hora de fazer baderna e quebrar as coisas (os manifestantes) são machinhos, mas, depois, não abraçam nada”. O policial ainda ameaçou prender todas as pessoas que estavam no bar, caso ninguém confessasse que estava no protesto. Para Brigada Militar, manifestantes teriam atacado primeiro Ao todo, 23 pessoas foram presas na noite desta quinta-feira (13) – 18 homens e cinco mulheres. Todos foram encaminhados ao 9º Batalhão de Polícia Militar de Porto Alegre, onde o comandante, major André Córdova, concedeu uma entrevista coletiva à imprensa. Ele disse que ocorreram “atos de vandalismo” desde o início da manifestação e que essas ações eram “comandadas por uma minoria”. “Inclusive, percebemos que boa parte dos manifestantes vaiavam estas pessoas”, comentou. Para o major, a Brigada Militar somente começou a jogar bombas e disparar balas de borracha porque foi atacada por ativistas. Ele acredita que os protestos no Rio de Janeiro e em São Paulo “contaminaram negativamente a manifestação em Porto Alegre”. Entre os detidos pela Brigada Militar, está o cicloativista Felipe Banninger, que veio a Porto Alegre para realizar um documentário. O major André Córdova confirmou que a polícia apreendeu os equipamentos de Felipe para utilizar as imagens na identificação de pessoas que possam ter praticado atos de violência. De acordo com uma advogada que teve acesso aos manifestantes presos, pelo menos três pessoas aparentaram sinais de agressão – uma delas, bastante machucada. Os detidos estão sendo acusados dos crimes de dano ao patrimônio, resistência e conspurcação (pichação). Às 00h15, o grupo foi levado ao Instituto Médico Legal para realizar exame de corpo de delito.
 
 
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