WikiLeaks: De que “diplomacia” afinal se trata?
 
Artigo de Norman Solomon, jornalista, escritor e historiador, membro da Commission on a Green New Deal for the North Bay, revela o que está por trás dos documentos secretos divulgados pela ONG WikiLeaks: "Em democracia, as pessoas têm direito de saber o que o governo realmente faz. Em pseudo-democracias, quaisquer contos de fadas narrados por autoridades e repetidos nos média são suficientes"
 

Comparados aos telegramas secretos que o WikiLeaks acaba de partilhar com o mundo, todas as declarações das autoridades governamentais são meros exercícios de fazer-crer.

Em democracia, as pessoas têm direito de saber o que o governo realmente faz. Em pseudo-democracias, quaisquer contos de fadas narrados por autoridades e repetidos nos jornais e televisões são suficientes.

Fachadas ditas “diplomáticas” muitas vezes são apresentadas como se fossem factos. Mas vez ou outra a máscara cai – para que o mundo inteiro veja –, o que acaba de acontecer nessa descomunal fuga de telegramas do Departamento de Estado.

“Estados são entidades governadas por mentirosos”, observou o jornalista independente I. F. Stone1. “Ninguém deve acreditar em mentirosos.” A extensão e a gravidade das mentiras variam de governo a governo – mas nenhum “pronunciamento” das capitais mundiais deve ser levado a sério.

Quanto aos EUA, o governo está em guerra há mais de nove anos, ainda sem data para terminar. Como o Pentágono, o Departamento de Estado só trabalha para atender os interesses do estado de guerra. Militares e diplomatas são peças móveis dessa mesma vasta máquina de guerra.

A guerra exige um pesadíssimo escudo de meias mentiras, totais mentiras, mentiras desavergonhadas, falsidades. Com o esforço de guerra em plena arrancada, as contradições entre o que o público sabe e os objectivos jamais revelados – ou entre a retórica grandiloquente e as terríveis consequências humanas – não sobrevivem à luz do dia.

Detalhes de tenebrosas transações e alianças entre Washington e ditadores assassinos, tiranos corruptos, senhores-da-guerra, traficantes, estão entre os mais bem guardados desses quase-segredos. Praticamente tudo que os média publiquem pode ser manipulado ou descartado pelas autoridades, mas telegramas diplomáticos divulgados antes de baixar a poeira das últimas mortes são mais difíceis de ignorar.

Por causa da massiva dependência absoluta da força militar – o que resulta sempre em crescente carnificina e num rastro de luto e fúria, no Afeganistão, no Paquistão e por toda parte – o governo dos EUA tem buracos colossais entre o que relatam os roteiros dos publicitários e de ‘relações públicas’ e as realidades da guerra e do fazer guerra.

O mesmo governo que dedica quantidades tremendas de recursos para continuar a empregar violência militar em distantes pontos do mundo é obrigado a zelar atentamente pela própria credibilidade e decência, no trato com o ‘público nacional’, connosco, os que vivemos nos EUA. Mas essa tarefa, que cabe essencialmente aos “Relações Públicas”, vai-se tornando cada vez mais difícil, quando acontece que documentos do próprio governo dos EUA continuem a ser tornados públicos e, todos, com informações diferentes das que conhecemos por aqui.

Nenhum governo deseja encarar documentos reais de políticas reais, objectivos, prioridades, que contradigam frontalmente todos os protestos de alta virtude do próprio governo. Em sociedades nas quais se respeitem as liberdades democráticas, os governos que mais têm a temer de fugas reveladoras são os que mais e por mais tempo tiverem mentido aos seus próprios cidadãos.

As recentes fugas do WikiLeaks são especialmente terríveis, por causa dos contrastes extremos que se vêem entre o que os representantes dos EUA dizem aos cidadãos norte-americanos e o que realmente fazem. Estranhamente, a reacção padrão daqueles representantes e governantes dos EUA é culpar quem divulgou os fatos.

“Condenamos nos termos mais vigorosos a distribuição não autorizada de documentos secretos e informação sensível da nossa segurança nacional” – disse a Casa Branca no domingo.



E o senador Joseph Lieberman denunciou “acção vergonhosa, ignóbil, desprezível, que reduz a capacidade do nosso governo e dos nossos parceiros trabalharmos juntos para defender os nossos interesses vitais”. Para garantir, também escreveu pelo Twitter: “A divulgação deliberada dos telegramas, por WL, é nada menos que ataque directo à segurança nacional dos EUA”.

Mas... que tipo de “segurança nacional” se pode esperar, construída de tantas mentiras? Que segurança alguma nação poderia obter, de um governo que é desmentido e desacreditado por documentos que ele mesmo escreve, assina, depacha e lê?

29/11/2010

Norman Solomon é jornalista, escritor e historiador. Trabalha hoje na Commission on a Green New Deal for the North Bay.

Traduzido pelo colectivo da Vila Vudu


1 Isidor Feinstein Stone, mais conhecido como Izzy Stone (Haddonfield, Nova Jersey, 24 de Dezembro de 1907 – Boston, Massachusetts, 17 de Julho de 1989) foi um jornalista norte-americano. Escreveu durante 30 anos para diversos jornais, tais como PM, Daily Compass, New York Star, Inquirer (já extintos), foi editor associado do semanário The Nation (1938) e colaborador no New York Post (1933-1939). Durante 19 anos (1953–1971) editou e publicou o I.F. Stone Weekly, um jornal alternativo que chegou a ser um dos mais mais bem informados do mundo. Stone publicou ao todo 12 livros e é até hoje considerado um dos maiores jornalistas do século XX.

 
 
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