Empresa privada e o Projeto Nacional
 
Artigo do prof. Carlos Lessa no Jornal Valor Econômico analisando as perspectivas da economia brasileira. Valor 22 dez 2010: "O crescimento médio do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no período 2003-2010 (4,1%) foi inferior à média latino-americana (4,2%). A média argentina (7,5%) foi quase o dobro da brasileira. Peru, Uruguai, Venezuela,Colômbia e Paraguai tiveram médias superiores à brasileira.
 

Carlos Lessa
22/12/2010
Valor Econômico (Opinião)

O crescimento médio do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no período
2003-2010 (4,1%) foi inferior à média latino-americana (4,2%). A média
argentina (7,5%) foi quase o dobro da brasileira. Peru, Uruguai, Venezuela,
Colômbia e Paraguai tiveram médias superiores à brasileira. A
comparação com os países ditos emergentes (Bric) é muito mais
vergonhosa: a Rússia nos supera, com 4,8% ao ano, a Índia, com 8,2%, e a
China, 10,95%, nos esmagam. Este ano, o PIB brasileiro deverá crescer
cerca de 7,5%, porém havia sido negativo (0,6%) em 2009.

Não é, por conseguinte, uma verdade que a crise mundial tenha sido "uma
marolinha" e que tivemos um desempenho "excepcionalmente bem-sucedido".
Nossa defesa contra a crise acionou o setor bancário oficial: Banco do
Brasil (BB), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
e Caixa Econômica Federal (CEF) praticaram, sem a inspiração de nenhum
projeto nacional, medidas pontuais meritórias.

O Brasil parece uma nau sem rumo no oceano da globalização. A crise
mundial não parece ter dado indício a nenhuma mudança de rumo. Alguns
produtos primários continuam tendo preços especulativos e conferiram aos
Anos Lula uma bonança nas contas externas e sucesso no controle da
inflação; esse resultado foi obtido sem mudança estrutural relevante.

A promessa para o futuro repousa no pré-sal, porém permanece a dúvida de
nos convertermos ou não em exportadores de óleo cru. Nesse caso, a
República Velha (que foi embebida em café) será recomposta em mais uma
nação periférica e infeliz, de soberania curta, pasto prioritário da
geopolítica imperial.

A empresa privada, no Brasil, tem um comportamento tímido em termos de
ampliação de capacidade produtiva. Sendo grande e fazendo parte de um
oligopólio, sua timidez engendra uma anêmica taxa de investimento
produtivo e uma orientação de rentista, ou seja, procura não se
endividar e ser uma aplicadora no mercado financeiro enquanto prospecta
oportunidades especulativas com mercadorias, ativos financeiros e, por
vezes, realiza seu sonho de assumir o controle de uma competidora ou
fornecedora crítica.

Entendo sua timidez: não tem clara a percepção de um futuro maior, pois
inexiste um projeto nacional; sabe da intolerância governamental com altas
de um dígito na taxa de inflação; sabe que o governo utiliza o modelo de
metas de inflação, o que implica em valorização do real e juros
primários muito elevados (o maior do planeta). Na fração de mercado que
a empresa controla, é frequente a opção por importar componentes a
custos mais baixos. Por outro lado, se não for primário-produtora, se
defronta com um mundo em crise, com demanda atrofiada, e selvagem
competição entre produtores industriais. Confia (caso da indústria
automobilística e de eletrodomésticos) no endividamento familiar não
intimidável por juros e bom pagador para manter aberto o acesso aos
objetos de desejo familiar.

A política econômica, monetária e fiscal sacrifica o investimento
público. Para o Brasil crescer 5% ao ano, nossa taxa de investimento
deveria ser de 23% a 24% do PIB. Em 2010, cresceu um pouco (de 18% para
19%), reflexo de um ano eleitoral, de uma retórica euforizante e de algum
investimento público pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Para 2011, a palavra de ordem da nova presidente é cautela com os gastos,
e seus ministros confirmados já se declararam pelo corte parcial do PAC.
Existem gigantescos restos a pagar.

A empresa privada optará pela cautela. Para umas poucas, surge a ambição
de se converterem em multinacionais num mundo onde a globalização está
sob suspeita, mas continua superimposta. A Vale, por exemplo, em vez de
desenvolver novas províncias minerais - na Amazônia, além de Carajás
existe um fantástico patrimônio mineral a ser incorporado - se move com
um projeto de se converter na maior mineradora mundial. Em vez de utilizar
bilateralmente seu excelente minério de ferro para obter carvão
metalúrgico e desenvolver a siderurgia nacional, compra da China material
ferroviário e não exige que os chineses instalem e transfiram sua
tecnologia ferroviária para o Brasil. Os chineses, quando compraram
aviões da Embraer, forçaram-na a abrir uma filial na China e vão
"clonar" nossa tecnologia. O Grupo Gerdau se espalhou pelo mundo e
centralizou uma fundação-chave na Holanda. Nosso setor de proteínas
vermelhas está adquirindo filiais nos EUA. Obviamente, e plenamente
autorizados pelo Banco Central, exportadores brasileiros mantêm grandes
aplicações financeiras no exterior. Obviamente, de forma disfarçada,
capitais brasileiros, sobretudo aqueles oriundos "de formas estranhas",
navegam no mar do Caribe e se instalam em paraísos fiscais.

As questões estruturais brasileiras não estão em pauta política; não
se discutem suas características, seu processo genético-constitutivo nem
os modos alternativos de superação. Apesar do fracasso do neoliberalismo
e da globalização "estar fazendo água", no Brasil nos movemos segundo o
velho dito português "tudo como antes no Quartel de Abrantes", que
qualquer empresa lê na composição ministerial da nova presidente, no
hino monocórdio de condenação da balbúrdia fiscaliza e no anúncio da
pré-candidatura de Lula para o período pós-Roussef.

Está certa a timidez empresarial e sua opção rentista. Isto gera um
subproduto: ser tímida é imensamente rentável. Bancos, companhias
distribuidoras de energia elétrica, concessionárias de estradas e
líderes em ramos comerciais praticantes da venda a prestação para
famílias endividadas são enormemente lucrativas. Veem com desconfiança
qualquer ideia de projeto nacional e reduzem a ação do governo à gestão
limitada das políticas públicas.

Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa é professor emérito de
economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). E-mail:
carlos-lessa@oi.com.br

 
 
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