A escravidão do petróleo
 
*por François Cellier Será que podemos prever quanto os países gastarão em termos do PIB com energia nas próximas décadas? Artigo interessantíssmo baseado em discusão da ASPO Suiça.
 

Na semana passada participei de uma mesa redonda de discussão da ASPO Suíça efectuada aqui em Zurique. O ponto principal da discussão referia-se ao preço do petróleo. Será que podemos explicar o que aconteceu nos últimos meses ao preço do petróleo bruto? Por que ele ascendeu agudamente na última Primavera para um valor de US$147/barril para então cair outra vez para um valor abaixo dos US$36/barril? O que podemos nós esperar nos próximos meses e anos?

O objectivo deste curto artigo não é discutir aquela reunião em pormenor. Tais questões já foram discutidas com profundidade aqui no Oil Drum. O objectivo é discutir uma única observação que um dos participantes, um professor de Ciências Económicas da Universidade de Genebra, fez durante a discussão.

Este cavalheiro, infelizmente não obtive o seu nome, afirmou que o preço do petróleo bruto não podia ascender a muito mais do que US$120/barril de um modo sustentável porque, a tal preço, utilizaríamos todo o nosso PIB só para o aprovisionamento de energia.

Todos nós sabemos que, após o pico, o petróleo deve inevitavelmente tornar-se mais caro. Também sabemos que, quando o petróleo se torna caro, inicia-se a destruição da procura o que reduz a demanda desta mercadoria, conduzindo o seu preço novamente para baixo.

O que eu não havia encontrado antes era uma metodologia que me permitisse quantificar o nível de preço no qual as nossas economias paralisarão e foi precisamente isto que o meu colega de Genebra sugeriu.

O objectivo deste artigo é rever a metodologia que propôs.

Vamos começar do princípio.

Muitos anos atrás li um romance de ficção científica, não recordo o seu título, com a seguinte trama. A estória passava-se numa cidade mineira em algum lugar da América Latina. Os empregados da companhia mineira eram atraídos com uma oferta de habitação gratuita e um salário atraente. Mas, ao chegarem, descobriam que havia apenas uma única loja na cidade, de propriedade da companhia mineira, que vendia alimentos e estes eram terrivelmente caros. De facto, eram tão caros que os empregados tinham de gastar mais do que todo o seu salário só para permanecerem vivos.

A companhia lhes permitia que comprassem alimentos a crédito, mas se e quando assinassem um acordo em que não abandonariam a cidade até que houvessem reembolsado a sua dívida. Como eram forçados a gastar mais do que todo o seu salário só para permanecerem vivos, eles se haviam essencialmente tornado escravos da companhia mineira. Quanto mais tempo permanecessem, mais endividados se tornavam.

A maior parte dos sistemas económicos são difíceis de entender. Eles são confusos e há muitas variáveis conflitantes com efeitos opostos que é difícil prever como se desenvolverão ao longo do tempo. Mas o estratagema acima é tão simples que não exige um grau mais elevado de compreensão do seu funcionamento.

O meu colega argumentou que um mecanismo semelhante aplica-se ao nosso aprovisionamento de energia. Quando a energia se torna mais cara, podemos em breve experimentar uma situação em que gastamos todo o nosso PIB e ainda mais só para obter a energia necessária a fim de manter o nosso estilo de vida. É esta afirmação que quero verificar.

Comecei com dados populacionais. Estes são fácil de obter. Utilizei a Wikepedia para anotar as populações dos 100 países mais populosos do globo.

O PIB anual de diferentes países (medido em US dólares) também é facilmente encontrável na web. Acrescentei à minha folha de cálculo dados do Nationmaster .

Os dados do consumo de energia primária são mais difíceis de conseguir. Principiei pela BP Statistical Review of World Energy . Contudo, este relatório lista apenas os países mais importantes de forma independente. Muitos dos consumidores menos importantes são agrupados em conjunto. Encontrei dados adicionais no sítio web da Agência Internacional de Energia . Todo o consumo de energia é dado em Mtep (milhões de toneladas equivalentes de petróleo) consumidos por um dado país por ano. Simplesmente eliminei da folha de cálculo aqueles países para os quais não podia encontrar dados do consumo de energia.

Calculei então o PIB anual per capita, bem como o consumo anual de energia per capita. Converti o consumo de energia per capita de Mtep para barris (1 tep = 7,4 barris) e para kWh (1 tep = 11.630 kWh).

A seguir, plotei o PIB anual per capita contra o consumo anual de energia per capita (em kWh):

Gráfico.

A Suíça é o mais eficiente em energia de todos os países apresentados no gráfico. Ela gera o mais alto PIB por kWh de energia consumida. O Canadá é o maior gastador em termos absolutos. Ele consume a maior quantidade de energia per capita, enquanto gera um PIB que é consideravelmente mais baixo que o da Suíça. O país menos eficiente em energia é o Uzbequistão, pois gera um PIB per capita muito baixo apesar de ainda consumir alguma energia no processo. Os EUA estão próximos da média em relação à eficiência em energia, mas são também o segundo maior gastador em termos absolutos.

Alguns países não foram incluídos no gráfico pois não faziam parte da lista dos 100 países mais populosos. O Luxemburgo gera um PIB per capita que é quase o dobro do da Suíça (US$84.161 por pessoa), mas é consideravelmente menos eficiente em energia do que a Suíça (104.072 kWh por pessoa). Os Emirados Árabes Unidos, em energia per capita, são ainda mais gastadores do que o Canadá (154.005 kWh por pessoa) com um PIB per capita mais baixo (US$28.202 por pessoa).

A seguir ajustei uma linha recta através da nuvem de pontos de dados utilizando um ajustamento por mínimos quadrados. A linha mostra que, em média, os diferentes países apresentam um rácio PIB para energia de US$0,47/kWh. Mas isto é uma média por país. Ela não é ponderada pelo número de pessoas que vivem nos países individuais. Se tomarmos o PIB total produzido por todo o mundo ($48.385.988.612.830,00, segundo o Nationmaster ) e dividirmos pelo total da energia consumida (11.099,3 Mtep = 1.29e14 kWh, segundo a BP ), obtemos um rácio PIB para energia de apenas US$0,37/kWh.

Isto significa que, se alguma vez o preço da energia ascendesse a um nível de US$0,37/kWh, gastaríamos todo o nosso PIB apenas no aprovisionamento de energia. Isto corresponde a um preço do petróleo de US$590/barril.

Se o preço do petróleo bruto subisse ainda mais, só nos seriam deixadas duas opções. Ou simplificar o nosso estilo de vida ou endividar-nos. Nesse momento, todos nós nos tornaríamos escravos das companhias de petróleo.

Evidentemente, a nossa economia paralisará muito antes disso, pois também precisamos de outras coisas além da energia. Precisamos vestir roupas e viver em casas. Precisamos investir dinheiro nestas rubricas. Os US$590/barril constituem apenas um limite superior. Na realidade, o preço máximo do petróleo (ou de outros recursos energéticos) que a nossa economia pode comportar é consideravelmente mais baixo do que os US$590/barril, provavelmente mais baixo do que US$200/barril.

E a propósito, antes que me esqueça, embora seja verdade que li a estória acerca da hipotética companhia mineira sul-americana primeiro num romance de ficção científica, a trama é baseada em dados históricos. Pode ler, por exemplo, sobre o sistema de barracão (truck system) e de servidão pela dívida (debt bondage), .

14/Maio/2009

O original encontra-se em http://europe.theoildrum.com/node/5388#more
 
 
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