Pescadores sofrem com tragédia ambiental no Golfo do México
 
Na primeira reunião de acionistas da BP depois do derramamento do ano passado, ativistas, pescadores e ambientalistas protestam contra a falta de ação e auxílio da gigante britânica. Por Wilson Sobrinho, correspondente da Carta Maior em Londres. Foto: A batalha dos pescadores do Golfo do México continua contra os efeitos do derramamento de petróleo da plataforma da British Petroleum - Foto do site da Carta Maior
 

Os quase 5 milhões de barris de petróleo que se espalharam pelo Golfo do México no ano passado em decorrência da explosão numa plataforma da gigante petrolífera britânica BP podem ter saído das pautas dos jornais, mas não das vidas das pessoas afectadas. Na quinta-feira última, menos de uma semana antes do primeiro aniversário do início do derramamento na plataforma Deepwater Horizon, activistas aproveitaram a primeira reunião de accionistas da BP em Londres desde o acidente para verbalizar as suas angústias e cobrar acções mais rápidas e profundas da companhia.

“Alguns dos nossos pescadores não tiveram mais nenhuma receita desde o derramamento de petróleo”, justificou Byron Encalade, da associação dos produtores de ostras da Luisiana, que viajou para a Inglaterra especialmente para o evento. “As nossas regiões de pesca estão esvaziadas, as nossas ostras estão mortas e nós não estamos a receber os fundos necessários para o nosso sustento”, afirmou o pescador norte-americano. “Pela primeira vez na vida eu vejo pescadores terem que tomar pílula para dormir”.

Alguns activistas chegaram a adquirir acções da empresa para tentar obter acesso à reunião e poder se manifestar, mas foi do lado de fora, fazendo barulho com instrumentos de percussão e sopro, carregando cartazes e faixas, que ganharam as páginas dos jornais e minutos nos noticiários noturnos.

“Eu vim lá da região da Costa do Golfo. A minha comunidade foi-se e não me deixam entrar [na reunião]”, disse Diane Wilson, uma activista que tentou aceder à sala onde accionistas ouviam da empresa os números do ano passado, quando aproximadamente 25% do valor de mercado da BP se perdeu devido ao acidente. Apesar de ter acções da empresa, o acesso foi-lhe negado sob alegação de que ela – parte da quarta geração de uma família de pescadores – poderia representar um risco para os outros accionistas. Para chamar a atenção dos fotógrafos, ela espalhou pelo rosto e nas mãos um líquido preto e viscoso, como se fosse petróleo. “É a única linguagem que eles entendem”. No ano passado, ela já havia feito um movimento semelhante, na mesma sala em que o então presidente da BP testemunhava a uma comissão do Congresso dos EUA.

Entre as pessoas que conseguiram aceder à reunião, um grupo de dez ambientalistas canadianos, cada um vestindo uma camiseta com uma letra diferente e que juntas formariam a frase “no tar sands”, uma referência à exploração de petróleo nas areias betuminosas canadianas. Espalhados em locais diferentes da sala, eles planeavam levantar-se, formar uma fila e revelar o conteúdo das camisetas de modo a que a mensagem fosse passada aos accionistas. A acção de seguranças porém impediu o movimento e eles foram retirados da sala antes que pudessem completar a acção.

Um fundo de 20 mil milhões de dólares foi criado pela empresa para compensar os atingidos pelo derramamento de petróleo. Uma reportagem do The Independent publicada neste sábado revela que mais de meio milhão de pedidos de compensação já chegaram ao escritório que gere esse fundo nos EUA.

“Temos visto dinheiro indo para todos os lugares, menos para as comunidades no centro disso tudo. E nós somos essas comunidades, os primeiros a ficar sem trabalho e seremos os últimos a ter de volta os nossos trabalhos e sustentos”, criticou Encalade.

“ Queremos ter a certeza de que o petróleo, que ainda está no fundo do oceano, e os químicos dispersantes, que ainda estão na água, não serão esquecidos”, disse Antonia Juhasz, directora do programa de energia do Global Exchange e autora do livro “Black Tide: The Devastating Impact of the Gulf Oil Spill”. “Essa é uma história que deve servir de alerta para outros investimentos da BP, como as areias betuminosas. Isso é o que acontece quando uma empresa de petróleo opera irresponsavelmente em um meio tecnicamente complicado e ecologicamente sensível”.

O derramamento do Golfo do México no ano passado durou quase três meses e foi o maior da história da indústria.

Artigo publicado na Carta Maior

 
 
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