Espanha: A indignação toma as praças
 
Partidos ficaram desconcertados diante de um movimento que trazia à tona as preocupações majoritárias da sociedade esquecidas nos debates eleitorais. A matéria é de Joan Canela Barrull, jornalista catalão
 

Com cinco milhões de desempregados, 40% de desemprego juvenil, centenas de milhares de famílias despejadas de suas casas e bancos que voltaram a gozar de grandes benefícios sem devolverem nem um dos 100 bilhões de euros que o governo José Luis Rodríguez Zapatero lhes concedeu para evitar sua quebra, algum dia tinha que acontecer. E, no fim, aconteceu no dia 15 de maio.

Uma manifestação convocada via redes sociais por pessoas a título individual e sem o apoio de nenhuma grande organização política ou sindical conseguiu reunir milhares de pessoas em mais de 60 cidades de todo o Estado espanhol. Poderia ter ficado aí, em um mais dos múltiplos – e, cada vez mais habituais – protestos contra a crise às medidas neoliberais que vêm sendo aplicadas com o pretexto de combatê-la.

Mas algumas dezenas de jovens decidiram que não era o suficiente e continuaram acampando na Puerta del Sol, uma praça central de Madri. A polícia foi desalojá-los violentamente, deixando um saldo de numerosos detidos e feridos. Na noite seguinte, eram 2 mil os acampados, e como um rastro de pólvora, o movimento se massificou e se estendeu. Em menos de uma semana, o fenômeno chegou a mais de uma centena de cidades do Estado espanhol, além de outras da Europa e América, algumas das quais em que não havia ocorrido ações assim em décadas.

Fonte: Jornal Brasil de Fato

Em plena campanha para as eleições autonômicas e municipais, os partidos ficaram desconcertados diante de um movimento que trazia à tona as preocupações majoritárias da sociedade esquecidas nos debates eleitorais, recolhia uma enorme simpatia popular e arrebatava capas nos meios de comunicação.

Saída à “tunisiana”

Embora alguns assegurem que um movimento desse calibre não pode ser espontâneo e tentam descobrir obscuras conspirações por trás dele, uma explosão desse tipo era, em certa medida, plausível, dada a situação socieconômica espanhola, o profundo corte de direitos sociais e trabalhistas sofridos no último ano e a inação dos sindicatos e partidos de esquerda majoritários, que deixaram os jovens e a classe operária precarizada – cada vez mais numerosa – sem rumo para realizar os protestos clássicos. Para entender: diante de uma situação similar na Grécia, houve uma dezena de greves gerais, enquanto no Estado espanhol ocorreu apenas uma. É compreensível que tenha surgido uma saída à “tunisiana”.

Com o passar dos dias, o movimento foi desenvolvendo um programa cada vez mais sólido e radical, superando um primeiro manifesto muito vago e que se limitava a pedir alguma reformas políticas e maior investimento social. Apesar da rápida perda de interesse midiático, o movimento continuou se multiplicando, e em Barcelona e Madri – as duas maiores cidades – começou a se trasladar aos bairros, muitos dos quais já contam com sólidas redes sociais.

O movimento 15 de Mayo, ou dos “indignados”, enfrenta dois perigos imediatos e graves. Um é a crise de crescimento, que chegará quando não for mais possível nem positivo manter acampamentos massivos e se tenha que buscar novos objetivos que mantenham unido um espaço tão heterogêneo e com interesses diversos. O outro é a reação repressiva – uma vez superada a surpresa inicial e celebradas as eleições – que pode vir de um Estado cada vez menos democrático e pressionado pelos mercados financeiros internacionais.

 
 
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