Eleições 2010 - Paraná - Defesa do Código Florestal, Reforma Política, preparo e postura ética: a diferenciação de Rubens Hering no debate da Band
O que diferenciou Rubens Hering dos demais no debate dos candidatos e candidata ao Senado realizado ontem (26 ) na TV Bandeirantes? Artigo de Marcos H. Guimarães

 O que diferenciou Rubens Hering dos demais no debate dos candidatos  e candidata ao Senado realizado ontem (26 ) na TV Bandeirantes? Primeiramente, já no início do programa, Hering fez uma clara defesa da transparência pública e de intolerância com a corrupção, convocando os demais candidatos e candidata para que se posicionassem acerca dos recentes escândalos da Assembléia Legislativa. E por quê? Ora, porque quem é, pela omissão, conivente com a corrupção em seu próprio Estado, como defenderá medidas contra a corrupção no Senado?  Diante do “silêncio” prolongado dos demais concorrentes, lá pela metade do debate, Hering insistiu com a candidata Gleisi Hoffmann, a qual afirmou ser favorável às “investigações do Ministério Público e da Polícia Federal”, afirmando que as punições e investigações deveriam se estender também aos demais deputados e deputadas. Hering havia questionado a candidata pelo fato do PT presidir a comissão de ética na Assembléia, onde “repousa” o pedido de “impeachment”  apresentado pelo Partido Verde contra o presidente da Casa, Nelson Justus, e do Primeiro Secretário, Alexandre Curi. Encurralada pela pergunta, Gleisi deixou nas entrelinhas de sua resposta o entendimento pelo qual, quando houver qualquer tipo de corrupção generalizada, é melhor não punir só alguns, porque ai sim seria uma “injustiça”. Ora, uma candidata a senadora, presidente do PT do Paraná,  com suposta vantagem nas pesquisas, mulher de Ministro e ex-candidata à prefeita da capital, que não faz valer o peso de sua influência para que os  deputados e deputadas de seu Partido assumam uma postura em favor da transparência (punindo e investigando, como quer, então, não só  os membros da mesa, mas, por iniciativa própria, todos os outros envolvidos), dá indícios, pela sua resposta, de como será sua atuação no senado: frente a qualquer indício de corrupção generalizada no Congresso, abandonará o seu papel político de questionar seus colegas e deixará as decisões apenas nas mãos de instituições auxiliares no processo de investigação. Como o PT do Paraná, não endossou ou solicitou por conta própria  o  “impeachment” de parte, ou toda  a mesa ou de quantos  deputados e deputadas  fossem necessários, conforme afirmou a candidata, conclui-se que: ou Gleisi Hoffmann não tem influência nenhuma em seu Partido, sendo mera figura decorativa, pois não consegue fazer valer sua opinião política mesmo como Presidente; ou pior: assumindo a “capa” da transparência, é conivente de forma adocicada e meiga, com o maior escândalo político dos últimos tempos (que, segundo  o Ministério Público, foi responsável pelo desvio de 100 milhões dos cofres públicos). O discurso da candidata, no debate, definitivamente, não condiz com a sua  prática como Presidente do PT e postulante a um cargo relevante como o de senadora.  

            Em outro momento importante do debate, ao responder a pergunta de Ricardo Barros (PP), sobre qual seria o seu plano para a saúde do Paraná, Hering “driblou” a constante fanfarronice de candidatos que, no afã de angariar votos de eleitores despreparados,  se propõe a realizar o que é de exclusiva função do Executivo: prometem isto e aquilo, na área de segurança, saúde e  por ai vai, como se tivessem a pena do Executivo e dispusessem das verbas necessárias para tal. O que acontece é que o papel do Senador é essencialmente legislar e, através das leis,  garantir investimentos, através das  leis e projetos votados,  não só para o seu Estado, mas para todo o país. E ainda assim, deverá contar com a boa vontade de seus pares nas votações. Políticos “tradicionais” têm seu jeito próprio de passarem a imagem de “salvadores da Pátria”: conseguirão tudo, resolverão tudo, tem resposta para tudo. Rubens Hering, além de dar uma aula sobre o papel de um senador,   abandonou o discurso fácil da promessa e encarou o verdadeiro problema:  Reforma Política e postura ética. Abordou a questão central que envolve hoje a República: candidatos recebem volumosas quantias de financiadores de campanha que, sem dúvida, exigirão a contrapartida na hora das votações. Ou algum senador que é financiado pelos planos de saúde privados estará interessado em votar leis que irão trazer recursos para a saúde pública? Ou algum candidato financiado pelo ensino privado terá algum interesse em trazer recursos para a educação pública? Ou algum candidato financiado pelo poder econômico dos bancos terá interesse em diminuir os juros? E neste ponto específico, o da questão econômica, o candidato Rubens Hering recebeu o apoio do candidato ao senado pelo PMDB, Roberto Requião: mesmo tendo a mulher do Ministro da Fazenda, Paulo Bernardo, como companheira de chapa, a lado no debate, desceu a “borduna” na política dos juros altos do Banco Central e no modelo econômico baseado no “capital vadio”. A postura de Hering com relação à diminuição dos juros e a apropriação do grosso da riqueza do país por “meia dúzia” de rentistas, é conhecida em sua plataforma eleitoral ao senado.

            Agronegócios x Código Florestal -  Enquanto o  candidato Gustavo Fruet “patinou” na resposta sobre o que achava da Reforma do Código Florestal Brasileiro, falando interminavelmente sobre uma suposta “conciliação” que deveria haver entre o modelo de agronegócios e a defesa do meio ambiente, sem conseguir chegar a lugar nenhum, escondendo nitidamente sua posição, Hering foi incisivo: “Sou frontalmente contra a este retrocesso que acabará com o resto dos biomas brasileiros”, afirmou. E não é para menos.  Esbanjando espaço, o modelo de agronegócios brasileiro é dispendioso, já que não consegue acompanhar o rendimento de outros países, mas não por falta terras, e sim de capacidade tecnológica, racionalização e competência (para um setor  que já teve suas dívidas perdoadas duas vezes pelo governo FHC e uma pelo governo Lula); que utiliza os pequenos e médios produtores como “massa de manobra” para chantagear os governos de plantão para o perdão das suas dívidas milionárias; que elegem, através do poder financeiro,  senadores e deputados para conseguirem seus lobbyes e ainda por cima, por décadas seguidas, nunca saem do “vermelho”. O Zé do quiosque, com tantos empréstimos, perdões e incentivos, se daria melhor.   E ainda por cima, os responsáveis pelo abastecimento do mercado nacional de alimentos são os pequenos e médios  produtores, que seguram a “bomba”. Estes sim, brasileiros que ajudam a conter a inflação do país as custas de seu próprio suor e debilidades do Orçamento,  e não jogando no cassino das bolsas de valores de alimentos. Arrogando-se como os responsáveis pelo sucesso econômico do país através do equilíbrio da Balança Comercial, graças a um equivocado modelo primário de exportação de commodities, sem agregar valor através da industrialização dos produtos, poluindo em demasia (o Brasil é campeão mundial  de agrotóxicos) , gerando poucos empregos graças a mecanização e enriquecendo uma parcela ínfima da população, o agronegócios é bom para quem ainda está na época das Sesmarias vendendo ”pau Brasil” e escravizando índios (trabalhadores).  Bom, o Gustavo Fruet, com todos os seus méritos éticos inegáveis, defende este modelo, alinhando-se à extrema direita quanto à necessidade de verificar a real produtividade do modelo através do índice de Produtividade Rural, chegando a afirmar que isto causa “instabilidade”. Um discurso  retrógrado de quem representa grupos que  recebem volumosos recursos do Estado e se recusam a ser fiscalizados por este. Esta é a cara da “nova” geração da política do Paraná representada pelos filhos da família Richa e Fruet? Não é muito diferente da dos Dias, agora aliados ao PT. O que há de novo nisto é que são duas faces da mesma moeda.     Já o PV, em seu Estatuto, defende a Reforma Agrária e a produção, sim, desde que o meio ambiente e os direitos sociais sejam preservados.  E o ponto de vista do PV, representado por  Rubens Hering, foi muito bem defendido.

            E por último, com seu jeito simples, mas bem humorado e critico, Piva, candidato ao senado pelo PSOL,  respondeu à pergunta de Hering sobre o porquê de se candidatar ao cargo de senador se pretende acabar com o Senado, o que seria uma contradição. Em sua réplica, Hering considerou que, realmente,  a qualidade representativa do Senado merece a indignação da população brasileira e do candidato, mas, demonstrando conhecimento da realidade política mundial,  corrigiu o psolista afirmando que a maioria dos países no mundo é bicameral, isto é, possui duas casas de leis. E há quem continue se perguntando: por que,  para se acabar com o Senado,  é necessário que se entre nele? Não seria justamente  o contrário? Quem defende que uma instituição não exista, jamais poderia se candidatar a um cargo nela, pois estaria,  justamente, com seu ato,  referendando o que nega em seu discurso.  Ou algum ateu se candidataria ao papado, com o discurso de acabar com a Igreja?  No mais, Piva se alinhou ao discurso “ecossocialista” de seu candidato ao governo, reforçando indiretamente a tese do PV de que passou da hora dos partidos se posicionarem com mais clareza  com relação  à questão ambiental.   

            Diante do exposto, fica com o eleitor a decisão sobre quem venceu o debate e é o mais preparado para defender o Paraná no Senado. Ou resta alguma dúvida?

 

Marcos H. Guimarães é jornalista, escritor e militante do PV em Curitiba.   

  

 
 
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