Estranha retomada
Aumenta a probabilidade de uma nova re-recessão. Neste contexto, os governos europeus teimam em levar avante políticas aterradoras, mantendo-se numa profunda cegueira. Por Michel Husson, Regards

Há um ano, era possível identificar estes quatro dilemas da “retoma”: 1. Dilema da distribuição: restabelecimento da rentabilidade versus emprego e procura; 2. Dilema da mundialização: redução dos desequilíbrios versus crescimento global; 3. Dilema orçamental: redução dos défices versus despesas sociais; 4. Dilema europeu: cada um por si versus coordenação1.

Estas contradições marcam a conjuntura actual. Primeiro dilema: a OCDE mostra-nos que “os lucros das empresas aumentaram acentuadamente”2 e essa recuperação mantém-se numa sobreposição de contexto de desemprego: "As taxas de desemprego não parecem aumentar, mas mantêm-se elevadas”. Mas a preocupação cresce: “o clima de incerteza provoca um abrandamento da retoma”. Esse pessimismo traduz-se num ajustamento brutal das previsões: em Maio passado, a OCDE previa um crescimento de 2,2 % em França no segundo semestre. Em Setembro, a previsão foi reduzida para 0,5 %. E o mesmo se passa com os principais países europeus e nos Estados Unidos. Segundo dilema: a crescente taxa de poupança das famílias nos Estados Unidos e os planos de austeridade na Europa podem, pelo menos em teoria, reduzir os défices (externo nos EUA , de orçamento na Europa) mas esta relativa redução dos desequilíbrios leva a um abrandamento do crescimento. Terceiro dilema: no caso europeu, os planos de ajustamento implicam uma redução das despesas sociais que terá como consequência a redução da procura da maioria dos cidadãos. Por último, o quarto dilema: a Europa enfrenta divergências, concretamente devido à estratégia alemã3.

Neste contexto, é necessário todo o talento de Mme Lagarde4 para encontrar os números convenientes perante os quais seja possível ficar-se extasiado: o crescimento foi de 0,6 % no segundo trimestre, e a taxa de desemprego recuou. Nada mais humano, nesta rentrée um pouco difícil, do que agarrar-se a estas estatísticas. O problema é que elas deformam a realidade. Comecemos pelas taxas de desemprego. Baixaram de 10 % para 9,7 % no primeiro semestre: grande proeza! Teríamos de recuar dez anos para encontrar um nível tão elevado. E olhando mais de perto, uma grande parte desse resultado explica-se pelo desânimo das pessoas que desistem da procura de emprego5, sem falar das exclusões das listas de inscritos pelo Centro de Emprego. Vejamos agora o emprego: foram criados 59.000 postos de trabalho no primeiro semestre. Belo resultado: o emprego total está hoje no mesmo nível de há cinco anos e continua a ser inferior em meio milhão ao que era antes da crise. Nesse ritmo, seriam necessários vários anos para sair da hecatombe. Além disso, a quase totalidade (95 %) destes novos empregos são provisórios. Quanto ao crescimento do segundo trimestre, ele teria sido nulo sem a contribuição dos stocks6. O optimismo de Lagarde e companhia não é simplesmente uma fachada, é também um verdadeiro insulto para a maioria da população que vive este período com dificuldade, sem ter acesso aos benefícios do Cac407: +85 % no primeiro semestre8.

Vários indicadores estão prestes a reverter-se, e aumenta a probabilidade de uma nova re-recessão. Neste contexto, os governos europeus teimam em levar avante políticas aterradoras9 mantendo-se numa profunda cegueira. Todos eles contam com o crescimento mas procuram encontrá-lo à custa de uma dupla austeridade (orçamental e salarial) que só consegue impedi-lo. E a única alternativa real, provavelmente, não é imaginar maneiras melhores de obter mais crescimento. Trata-se antes de repartir as riquezas de uma forma mais favorável à satisfação das necessidades sociais.

Publicado em Hussonet

Tradução de Deolinda Peralta para o Esquerda.net

1 Capitalisme : vers une régulation chaotique, septembre 2009.

2 Reprise … des profits, note hussonet n°18.

3 Le modèle allemand n’est pas viable, note hussonet n°19.

4 Christine Lagarde, ministra francesa da Economia, da Indústria e do Emprego

5 Guillaume Duval, Dans les coulisses de la baisse du chômage.

6 Insee, Premiers résultats du 2e trimestre 2010.

7 Índice das 40 maiores empresas cotadas em na Bolsa de Paris

8 Le Monde, 2 septembre 2010.

9 ver o Manifeste d’économistes atterrés.

 
 
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