O Pós Seul
Artigo de Wayne Madsen analisa o resultado do encontro do G20 em Seul: "...os Estados Unidos como a China estão numa rota de colisão: ambos os países tencionam promover exportações para promover o poder de compra das suas respectivas classes médias consumistas. Uma colisão económica entre Washington e Pequim tem ramificações para o resto do mundo".

Depois de permitir à Wall Street que se enriquecesse a si própria a expensas dos contribuintes americanos, a administração Obama está pronta para transmitir o resultado da sua economia de ficção ao resto do mundo. Todos nós podemos olhar a Europa pós I Guerra Mundial para entender o que acontece quando um país inunda a sua economia com divisas sem valor. A Alemanha imprimiu marcos e isto resultou na hiper-inflação. Logo o povo alemão procurou por um salvador para retirá-lo da sua depressão económica e livrá-lo dos males da cobiça capitalista sem peias. Os nacional-socialistas de Adolf Hitler prometiam algo melhor ao povo alemão. Eles e o resto do mundo foram mergulhados na II Guerra Mundial.

Na cimeira do G20 em Seul, os líderes das maiores potências económicas do mundo fracassaram em chegar a um acordo sobre o programa do U.S. Federal Reserve Bank de inundar com 600 mil milhões de dólares recém-impressos a economia internacional. A China declarou que se opõe firmemente a um movimento que é uma desvalorização de facto do US dólar.

Enfraquecer a força do US dólar, enquanto torna as exportações americanas mais baratas, também fará com que investidores como a China evitem investir na economia de ficção dos EUA. O espectro de guerras comerciais resultou numa declaração em Sul do primeiro-ministro britânico David Cameron na qual comparava a actual situação económica global ao período inter-guerras da Europa na década de 1930. Cameron disse que guerras de divisas, barreiras comerciais e nacionalismo económico podiam resultar numa repetição do anos 30.

Escrevendo no Christian Science Monitor de 13 de Novembro, o antigo secretário de Estado do Trabalho dos EUA, Robert Reich, enfatizou que Seul foi grande sobre generalidades mas faltou-lhe o específico. Escreveu Reich: "O comunicado de três páginas [do G-20} que está cheio até à borda de banalidades acerca da importância de 'reequilibrar' a economia global, de 'coordenar' políticas e de abster-se de 'desvalorizações competitivas' ". Reich acrescenta uma advertência terrível acerca do fracasso da administração Obama e do governo chinês em alcançarem um acordo: "... nem uma única palavra de acordo da China acerca da revalorização do Yuan, ou dos Estados Unidos acerca de abster-se de novos movimentos por parte do Fed para inundar a economia estado-unidense com dinheiro (reduzindo dessa forma taxas de juro, levando investidores globais a olharem alhures por retornos mais altos e reduzindo o valor do dólar)".

Por outras palavras, Reich diz que tanto os Estados Unidos como a China estão numa rota de colisão: ambos os países tencionam promover exportações para promover o poder de compra das suas respectivas classes médias consumistas. Uma colisão económica entre Washington e Pequim tem ramificações para o resto do mundo.

A Alemanha, um país que conhece demasiado bem acerca dos perigos da desvalorização da divisa, juntou-se à China ao criticar a desvalorização do dólar dos Estados Unidos. O Brasil, potência económica emergente, juntou-se à China e à Alemanha na crítica aos americanos sobre os planos de inundação de dólares do Federal Reserve.

O presidente Obama não ajudou a sua causa em Seul quando disse que o plano do Federal Reserve para inundar a economia com US$600 mil milhões em dólares recém-impressos não tinha como objectivo desvalorizar o US dólar. A China, o Brasil e a Alemanha sabiam que Obama estava a ser hipócrita, especialmente quando o antigo presidente do Fed, Alan Greenspan, ele próprio responsável pelo colapso do mercado habitacional dos EUA por meio do avanço do esquema de hipotecas sub-prime, escreveu no Financial Times que a facilidade quantitativa do Fed, o nome de fantasia para a impressão de dólares de ficção, portanto a desvalorização do dólar, era destinado a "enfraquecer a divisa".

O primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper, considerado um cãozinho de Washington, foi um dos poucos líderes em Seul que veio em defesa de Obama e apoiou a facilidade quantitativa do dólar. Contudo, o Canadá está tão interligado à economia em derrocada dos EUA, através da falsificação conhecida como North American Free Trade Agreement (NAFTA), que não tem outra escolha excepto aderir às políticas económicas americanas de inundação e ao seu vizinho moribundo.

É com um grau de schadenfreude [nt] que economias de mercado emergentes como a China, Índia, Rússia, Brasil e Turquia estão a testemunhar o colapso das economia de países como os Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, países que outrora dominavam os países da Ásia, Médio Oriente, América Latina e África através do clube da dominação económica e financeira.

Os governos Obama, Cameron, e Sarkozy estão a instituir planos de austeridade que transferirão os custos da trapaça e ganância provocada pela Wall Street e os banqueiros globais para pensionistas, os pobres e aqueles dependentes de cuidados de saúde e de educação subsidiados pelo governo. As potências económicas emergentes não querem qualquer parte dos planos para "internacionalizar" os excessos financeiros dos governos ocidentais e dos seus banqueiros amigos.

A Comissão Nacional sobre Responsabilidade Fiscal e Reforma do presidente Obama já está a declarar que a iminente aposentação população "baby boomer" da América provocará tensões na Segurança Social, Medicare e Medicaid para além do ponto de ruptura, um facto enfatizado durante anos pelo antigo Contabilista Geral (Comptroller General) David Walker antes de se aposentar indignado. Mas a administração Obama e a refortalecida oposição republicana pretendem continuar a gastar com defesa, o que mais correctamente deveria ser chamado "guerra", e com o contínuo o salvamento de criminosos da Wall Street, o que fará com que os inevitáveis cortes em programas de redes de segurança social sejam a expensas dos pobres e da classe média.

O Departamento do Tesouro dos EUA planeia agora transferir os US$259 mil milhões de perdas da Fannie Mae e do Freddie Mac, provocado pelos arrestos em hipotecas de risco de que foram a garantia final, para os contribuintes americanos. Este ultraje vem depois de os contribuintes americanos terem sido forçados a salvar a indústria automobilística dos EUA e firmas financeiras da Wall Street.

Tumultos, greves gerais e protestos de rua em massa na Grécia, Itália, Grã-Bretanha e Espanha sobre a transmissão da cobiça dos banqueiros globais significa que está acabado o business as usual para aqueles que se reúnem periodicamente em Bilderberg, Davos, Comissão Trilateral, G8, G20 e outros conclaves à porta fechada. Trabalhadores, desempregados, estudantes e pensionistas não mais se sentarão apaticamente enquanto as elites ricas empenham-se nas suas alquimias secretas das facilidades quantitativas, credit default swaps, obrigações de dívida colaterizadas, tramas de hedge funds e outros artifícios capitalistas predatórios enquanto a classe média desaparece e os pobres tornam-se mais desesperados.

O presidente sul-africano Jacob Zuma exprimiu os sentimentos de muitos países em desenvolvimento do mundo quando enfatizou a necessidade de transparência no desenvolvimento de qualquer novo sistema económico internacional. Zuma disse ali que deve haver "meios transparentes para implementar regras bem planeadas para a economia global".

Os protestantes contra o G20 em Seul foram duramente reprimidos pela polícia militar do regime sul coreano e as suas mensagens de oposição ao G20 foram rigorosamente censuradas pelos medias internacionais e internos da Coreia do Sul. A "lei especial" da Coreia do Sul permitiu à polícia atacar e prender manifestantes que tentavam aproximar-se do local da cimeira no Sul de Seul. Aqueles que afirmam que o futuro do mundo é determinado por uma elite degenerada de indivíduos convencidos e discretos tiveram uma confirmação. Quando chega o momento de conclaves globais que determinam o futuro de trabalhadores, divisas, indústrias e estados-nação, o segredo é a regra e a transparência é virtualmente não existente.

Milhares de milhões, não milhões, de pessoas por todo o mundo em breve darão vazão à sua cólera contra aqueles que mergulharam o mundo no colapso financeiro: as víboras, vampiros e abutres do capitalismo moderno.

[NT] Schadenfreude: prazer em ver o sofrimento dos outros.

O original encontra-se em http://www.strategic-culture.org/news/2010/11/15/the-seoul-aftermath.html

 
 
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