Clima: Wikileaks revela como os EUA chantagearam o mundo
Os telegramas das embaixadas dos EUA revelados pelo Wikileaks contém informações reveladoras de como o governo deste país tem usado o seu poder diplomático para manipular as negociações climáticas. Por Ricardo Coelho

Desde o início deste ano que o governo de Obama se tem esforçado para que todo o mundo assine o Acordo de Copenhaga, um acordo voluntário que prevê modestos cortes nas emissões de gases com efeito de estufa, de forma a criar as condições necessárias para substituir Quioto por um acordo internacional ineficaz.

Um conjunto de telegramas divulgados no “Guardian” revela como os EUA usaram técnicas de chantagem e corrupção para convencer os países menos desenvolvidos a assinar um acordo que lhes é desvantajoso. Um telegrama mostra como os EUA usaram os seus diplomatas na ONU para espiar outros diplomatas e obter detalhes pessoais sobre eles, com o apoio da CIA, numa manobra digna dos livros de John Le Carré. Outras missivas mostram como os países pobres foram comprados. O governo das Maldivas, por exemplo, apesar de em Copenhaga ter exigido um acordo vinculativo e ambicioso para salvaguardar a sua sobrevivência, acabou por enviar um telegrama ao representante dos EUA nas negociações apenas duas semanas depois a expressar o seu desejo de aderir ao Acordo de Copenhaga, em troca de ajuda financeira. Outros países, como o Brasil e a Arábia Saudita, também fizeram questão de mencionar que o seu apoio ao acordo seria facilitado com a atribuição de ajudas externas pelos EUA.

A União Europeia foi cúmplice desta chantagem exercida sobre os países menos desenvolvidos. Connie Hedegaard, Comissária Europeia para a Acção Climática, disse a um embaixador dos EUA que os pequenos países insulares poderiam ser os melhores aliados do Acordo de Copenhaga, dado que necessitam de ajuda financeira dos países mais ricos. Hedegaard, ex-deputada do Partido Popular Conservador, foi a presidente das negociações climáticas de 2009, em Copenhaga.

A Comissária fez questão de salientar que a UE silenciaria as suas críticas ao processo negocial, de forma a permitir que decorra sem solavancos. O Presidente da UE, Herman van Rompuy, contudo, não se calou nas suas críticas, tendo-se referido à cimeira de Copenhaga como “um desastre completo”, prevendo igual destino para a cimeira de Cancún. Rompuy defendeu ainda que as negociações falharam porque tinham demasiados intervenientes e que tudo correria melhor se estivessem apenas presentes os EUA, a UE e a China.

Os telegramas denunciam também os esforços dos EUA e da UE para “neutralizar, co-optar ou marginalizar” países vistos como “um estorvo”, particularmente os países da ALBA, que se opuseram ao Acordo de Copenhaga e fazem hoje parte do reduzido grupo de países que se recusou a assiná-lo. Apenas dois meses depois, em Abril, a ajuda externa dos EUA à Bolívia e ao Equador foi cancelada, como forma de retaliação.

Nem o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, o órgão da ONU que sintetiza a ciência das alterações climáticas em relatórios para políticos, escapou à chantagem dos EUA. O governo de Obama usou a sua influência política junto deste órgão, de forma a impedir a nomeação de um cientista iraniano para co-presidente de um dos grupos de trabalho. A razão para tal pedido era o facto de o outro co-presidente do grupo de trabalho ser um cientista dos EUA, o que foi visto como uma ameaça para a política externa deste país. Rajendra Pachauri, presidente do painel, concordou com o pedido.


Ricardo Coelho, economista, especializado em Ambiente e Recursos Naturais.

Fonte: www.esquerda.net

 
 
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