Líbia: a revolução que se segue no mundo árabe?
Esta segunda-feira a Líbia viveu o seu oitavo dia de revolta com várias cidades a serem tomadas pelos manifestantes com a ajuda de deserções no exército. Em Tripoli o regime de Kadhafi respondeu com um massacre, há pelo menos 400 mortos. Violência extrema já foi condenada internacionalmente, ditador líbio é acusado de genocídio.

O mundo árabe está em convulsão sucessiva e a receita para a revolta tem sido comum: mensagens através do Facebook, Twitter e SMS. Quando os protestos rebentam no meio da cidade, os presidentes começam a tremer. Foi assim na Praça do Palácio, na Tunísia, na Praça Tahrir, no Egipto, e na Praça Pérola, no Bahrain. Agora, os líbios querem o mesmo.

Esta segunda-feira, várias cidades deste país, como Benghazi e Syrte caíram nas mãos dos manifestantes, aproveitando a deserção de muitos membros do exército. Segundo a presidente da Federação Internacional das Ligas de Direitos Humanos, Suhayr Belhassen, “os militares juntaram-se ao levantamento contra Muammar Kadhafi”, cita a France Presse.

No centro de Tripoli vários edifícios do governo foram incendiados esta madrugada por manifestantes que exigem o fim do regime, noticiou a televisão árabe Al-Arabiya.

De acordo com várias ONG, os confrontos entre a população e as forças de segurança, entretanto enviadas, já provocaram entre 300 a 400 mortos. Uns atacam com paus e pedras, enquanto os outros optam pela lei da bala. Contudo, Tripoli ainda consegue ser um bastião da resistência pró-Kadhafi. Um grupo de manifestantes tentou dirigir-se para a Praça Verde, no centro de Tripoli, mas os militares conseguiram afastá-los do objectivo ao atingi-los com gás lacrimogéneo. Só que ninguém sabe por quanto tempo é que será possível manter o bastião da cidade inviolável.

Esta segunda-feira, a situação na capital era de máxima tensão. De acordo com as agências noticiosas encontravam-se vários cadáveres espalhados pelas ruas da cidade e ouviam-se tiros em muitos bairros da capital – a estação de televisão Al Jazira noticiou ainda que avião e um helicóptero militares sobrevoaram a capital líbia e dispararam indiscriminadamente contra os manifestantes.

Os ataques começaram pouco depois de todas as comunicações telefónicas terem sido cortadas e menos de uma hora após a televisão líbia ter transmitido uma mensagem “urgente”, alegadamente emitida do comando das Forças Armadas. Nesta mensagem, foi anunciado o início de uma operação contra os “autores dos actos de destruição e sabotagem” e dirigido um pedido à população líbia para que colaborasse com as forças de segurança em todo o país.

A AFP cita um habitante que qualificou de “massacre” os ataques que viu em Tajoura, um dos bairros dos arredores de Tripoli, ao passo que uma outra testemunha diz ter presenciado a descida de um helicóptero de mercenários africanos em Fachloum, também nos subúrbios da capital.

Sabe-se também que dois pilotos líbios desviaram os seus aviões para Malta, para onde fugiram depois de terem recebido ordens para bombardear os locais dos protestos, adiantaram à Reuters responsáveis do Governo maltês. Os dois pilotos, ambos coronéis, descolaram de uma base aérea junto a Trípoli e um deles já pediu asilo político em Malta.

A violência já causou também algumas demissões no interior do Governo. O ministro da Justiça, Mustafa Mohamed Abud Al Jeleil, demitiu-se em protesto contra o "uso excessivo de violência" das forças de segurança contra os manifestantes, avançou o jornal privado "Quryna". Pouco antes tinham sido noticiadas as demissões de três diplomatas líbios, todos eles também em reacção à dura repressão das manifestações pró-democracia – entre eles o enviado líbio à Liga Árabe, Abdel Moneim al-Honi, que anunciou ir juntar-se "à revolução" e o embaixador da Líbia na Índia, Ali al-Essawi, o qual justificou a sua demissão como um "protesto" contra a violenta acção das autoridades.

Kadhafi acusado de "genocídio"

O embaixador da Líbia na ONU classificou como "genocídio" a repressão do regime contra os manifestantes e pediu à comunidade internacional para não dar asilo a Kadhafi. Também os 27 países da União Europeia condenaram esta segunda-feira, numa declaração conjunta, a repressão das manifestações na Líbia e pediram que seja posto “imediatamente” um fim à violência no país.

Cada vez mais vozes se juntam às críticas à acção das autoridades na repressão dos protestos: mais recentemente a do secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, o qual descreveu as reivindicações dos manifestantes como "legítimas" e instou o regime de Kadhafi a pôr termo à repressão violenta das manifestações. "Estamos perante novas circunstâncias na região, e estas circunstâncias exigem conversações e não o confronto", sublinhou Moussa, expressando a "profunda preocupação" da Liga Árabe com o que se passa na Líbia. A Liga Árabe vai reunir-se de urgência esta terça-feira à tarde, no Cairo, para analisar a crise na Líbia.

Respondendo aos rumores que indiciavam a saída do ditador do país, Khadafi apareceu, por instantes, na televisão estatal para desafiar os manifestantes e dizer "estou em Trípoli, não na Venezuela", adiantou a estação de televisão Al Arabiya.

Entretanto, o Governo português enviou um avião C130 para retirar os portugueses que vivem neste país do Norte de África.

Na Líbia, as forças leais a Kadhafi defendem a todo o custo a capital Tripoli. No Bahrain há esta terça-feira mais uma manifestação e na Argélia e Marrocos a situação continua tensa. 

Fonte: esquerda.net

 
 
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