Egito: A revolta da população trabalhadora ignorada pelos meios de comunicação ocidentais
A revolução começou muito antes das manifestações na Praça Tahrir, e continuará durante muito tempo. Os trabalhadores revoltados contra as miseráveis condições de vida, contra uns salários de escravos e contra as “privatizações”, a jóia da coroa do neoliberalismo. Por Mike Whitney - analista político independente que vive no Estado do Washington e colabora regularmente com a revista norte-americana CounterPunch. Foto: Pormenor de uma manifestação na praça Tahrir, Cairo. Foto de nebedaay

“A Revolução no Egipto é uma expressão da vontade do povo, da determinação do povo, do compromisso do povo... Muçulmanos e cristãos trabalharam juntos nesta revolução, como o fizeram grupos islâmicos, partidos laicos, partidos nacionalistas e intelectuais... O certo é que todos os sectores fizeram parte desta revolução: os jovens, os velhos, as mulheres, os homens, os clérigos, os artistas, os intelectuais, os operários e os camponeses.” - Hassan Nasrallah, Secretário-Geral do Hezbollah

 

A história verdadeira do que está acontecendo no Egipto é ocultada nos Estado Unidos da América: não condiz com o lema das “maravilhas do capitalismo” que o meios de comunicação gostam de repetir até à náusea. A verdade nua é que o grosso das políticas económicas exportadas por Washington através do suborno e da coerção, causaram um mal estar massivo entre a população trabalhadora, o que acabou por provocar um incêndio no Médio Oriente. Mubarak é a primeira baixa nesta guerra contra o neoliberalismo; muitas mais virão. Na realidade, a demissão de Mubarak é, provavelmente, uma mera concessão aos trabalhadores egípcios para que sigam o conselho dos militares e regressem como cordeiros para que os executivos vaidosos com sede em Berlim e em Chicago possam extrair uns quantos centavos mais do seu penoso trabalho. No entanto, o mais provável é que não ocorra tal coisa, porque os 18 dias na Praça Tahrir tiveram um efeito transformador da consciência dos 80 milhões de egípcios que, subitamente, disseram “basta”. O povo despertou do seu estupor e agora está preparado para a luta.

A revolução começou muito antes das manifestações na Praça Tahrir, e continuará durante muito tempo. Os trabalhadores estão a revoltar-se por toda a parte contra as miseráveis condições de vida, contra uns salários de escravos e contra as “privatizações”, a jóia da coroa do neoliberalismo. A privatização das indústrias públicas no Egipto é a causa mais imediata do levantamento popular em curso. Conduziu a um declínio geral dos níveis de vida de tamanho extremismo que as pessoas preferem enfrentar os carros da polícia do que continuar a suportar mais do mesmo. Eis um extracto da revista Foreign Policy que ilustra bem o que está a acontecer:

“Nas fábricas suburbanas de El-Mahalla el-Kubra, uma cidade industrial situada a poucas horas de carro, a norte do Cairo, radica o que para muitos é o coração da revolução egípcia. 'É o nosso Sidi Bouzid', diz Muhammad Marai, um activista sindical, referindo-se à cidade tunisina onde um vendedor ambulante desesperado pegou fogo a si próprio e acabou por ser a faísca da revolução.

“Com efeito: as raízes do levantamento de massas que tirou o poder ao ditador Hosni Mubarak devem ser encontradas no papel determinante que, durante anos, aquela cidade inundada pela contaminação industrial desempenhou no início das greves operárias e em alguns movimentos sociais de base que acabaram por estender-se por todo o país. E é o núcleo simbólico da recente deriva até à revolução: uma onda de greves contra as desigualdades sociais e económicas que levaram à paralisação de boa parte do Egipto.

“Mais de 24 000 operários em dezenas de fábricas têxteis, públicas e privadas, e em particular na gigantesca fábrica de Egypt Spinning and Weaving Plant, foram à greve e ocuparam fábricas durante seis dias em 2006, conseguindo um aumento de salário e alguns benefícios assistenciais de saúde. Acções análogas tiveram lugar em 2007...

“ 'Logo depois de Mahalla em 2008, apareceram as primeiras debilidades do regime', disse Gamal Eid, da Rede Árabe de Informação sobre os Direitos Humanos. 'Nada foi igual no Egipto depois disso'.” (ver “Egypt's Cauldron of Revolt”, Anand Gopal, Foreign Policy.)

Compare-se esta história com a narrativa oferecida pelos meios de comunicação norte-americanos segundo os quais a revolução desencadeou-se por causa de umas mensagens no Twitter enviados aos amigos por uns ditos “jovens na casa dos vinte anos” que deambulam excitados pelas ruas do Cairo. Grotesco. Esta revolução está na classe operária; por isso, a imprensa establishment é tão relutante em explicar o realmente está a acontecer. Falar de 'classes' é coisa expressamente proibida nos meios de comunicação dos EUA porque isso vai apontar mais ou menos aos bolsos sem fundo dos barões ladrões que criaram os maiores extremos de desigualdade que a história universal regista. Vejamos o que disse Michael Collins no The Economist Populist:

“O Egipto iniciou uma série de reformas nos anos 90 que alteravam deliberadamente as coisas em prejuízo dos trabalhadores e dos pequenos agricultores. O governo liquidou a preço de saldo as grandes empresas públicas. Os novos proprietários privados tinham poucos incentivos para manter as pessoas nos seus postos de trabalho ou para conservar esses postos no Egipto. O governo aprovou novas medidas para proteger os grandes proprietários agrícolas, abandonando à sua sorte os pequenos produtores.

“Quando o primeiro-ministro conservador Ahmed Nafiz chegou ao poder em 2004, a situação tornou-se desesperada. À mercê de uma lei hostil ao mundo do trabalho, cresceu a pressão sobre os trabalhadores industriais. A Federação Egípcia dos Sindicatos do Comércio (Egyptian Trade Union Federation) tinha pouco para oferecer-lhes e, frequentemente, anulava os votos a favor da greve das secções locais...

“O mesmo movimento operário que impulsionou a greve de 2006 e a sua sequela em 2007, convocou uma greve nacional para o dia 6 de Abril de 2006 a favor do aumento do salário mínimo e em protesto pelos elevados preços dos alimentos. O governo de Mubarak enviou a polícia, que tomou a fábrica na esperança de abortar a greve. Rebentou, então, um conflito carregado de violência por parte da polícia contra os membros dos sindicatos que apelavam à greve. Prenderam-se trabalhadores. De seguida, vieram os processos, acusações e condenações. Outros sindicalistas continuaram o protestos.

“Um escritor egípcio observava: 'O levantamento de 6 de Abril, as reivindicações dos trabalhadores coincidiam com as do conjunto da população. As pessoas exigiam uma diminuição dos preços dos alimentos e os trabalhadores exigiam um salário mínimo'.

“Além disto, o Movimento juvenil do 6 de Abril apareceu como um actor chave a ponto de fixar os objectivos da greve nacional. É a mesma organização que foi central na mobilização de multidões por todos o país.” (Forces Behind de Egyptian Revolution”, Michael Collins, The Economist Populist.)

Vêem? Isto não vem de derrubar um ditador, vem da guerra de classes. E disso ninguém fala nos meios de comunicação ocidentais.

A revolução é um indício do auge do movimento operário organizado, e constitui um ataque frontal ao Consenso de Washington e ao regime que, lançando o Egipto em direcção ao abismo, pôs os trabalhadores num situação limite. Não ocorreu de um dia para o outro; essas forças forjaram-se durante muito tempo, e a mecha incendiou-se agora.

Trata-se tanto de uma luta pelos direitos dos trabalhadores e pelo poder político como de um luta pela melhoria salarial e das condições de trabalho. A demissão de Mubarak encorajou muita gente e robusteceu a sua determinação em combater por uma mudança estrutural real. É a sua oportunidade de configurar o futuro, e essa é a razão da preocupação de Washington. Foi também a razão pela qual as ONG apoiadas pelos EUA e seus agentes foram tão diligentes nas tentativas de deposição de Mubarak, porque acreditavam que, removido o tirano, poderiam apaziguar as massas e conseguir que voltassem tranquilamente para as suas fábricas e às suas sweatshops1 com um par de palmadinhas nas costas. Mas não é assim que as coisas estão a decorrer. Dir-se-ia que os trabalhadores sabem intuitivamente que Mubarak é uma peça perfeitamente substituível no mecanismo imperial. Até agora, não conseguiram aplacá-los, submetê-los ou cooptá-los, ainda que o bando de Obama e seu líder na junta militar, Tataui, tentassem fazê-lo desde o início. Eis aqui um fragmento da entrevista concedida pela professora Mona El-Ghobashy (da Universidade Barnard) ao Democracy Now, útil para entendermos melhor o contexto do que se está a passar no Cairo.

“Esta revolta tem um pré-história. A política egípcia não começou no dia 25 de Janeiro. O certo é que se viu afectado por uma extraordinária onda de protestos sociais desde, pelo menos, do ano 2000. Isto não é de modo algum novo. De nenhuma maneira é um fenómeno post-13 de Fevereiro. É algo que vem a ocorrer desde há algum tempo, com picos em 2006 e 2008, o que dá um peso extra ao protesto que disparou entre os funcionários, os polícias e outros empregados públicos... O que isto mostra é uma convergência do velho tipo de protesto com um ambiente político completamente mudado. É esse o seu significado...

“Assim que, se queremos entender o significado do que se passou hoje, temos que nos reportar ao tecido da política egípcia que começou em 2000, para ser breve, pois na realidade os protestos têm vindo a ocorrer deste os anos 90. Um dos protestos de maior dimensão foi uma greve de trabalhadores das pedreiras em 1996, sacudiu realmente o país. Claro, ninguém agora se recorda disso.

“Mas, voltando ao ponto que quero destacar, estamos a entrar num período, como observou Issandr, num momento realmente revolucionário na política egípcia: a constituição e o parlamento estão suspensos, porém, ao mesmo tempo, temos uma estrutura social em que quase toda a gente e praticamente todos os sectores da população estão a sair à rua e a aproveitar a oportunidade política oferecida pela mudança de regime, e estão a fazê-lo porque já sabiam como realizá-lo. Sabem como ocupar e acampar nas ruas. Sabem como negociar com os ministros do governo. Sabem quanta gente hão-de por numa esquina para conseguir que o ministro do governo vá falar-lhes à dita esquina. Por isso é que é significativo, não porque o dia 13 de Fevereiro seja um renascimento da política egípcia.” (Mona El-Ghibashy, Democracy Now.)

A administração Obama não “está a puxar os cordelinhos” desta revolução; a verdade é que está praticamente sem margem de manobra. Os EUA têm muito pouco controlo sobre os acontecimentos de base, e todos os seus esforços se centram no “controlo de danos”. Por isso, Obama continua com os seus pronunciamentos néscios, dia sim e dia sim, apelando a que os manifestantes protestem de formal pacífica e invocando as palavras de Martin Luther King para acalmar as águas. Mas ninguém presta atenção ao que diz Obama. É completamente irrelevante. Também lhes dá igual os pios desejos de Hillary Clinton para que o Congresso assine uma resolução para “ajudar ao crescimento de partidos políticos laicos”. Para quê, se o cavalo já saiu do estábulo?

Também os militares egípcios não têm controlo algum: por isso continuam a emitir comunicados contraditórios, ora celebrando o triunfo na Praça Tahrir, ora ameaçando com medidas drásticas se as pessoas não regressam aos seus postos de trabalho. Quando os militares se decidirem por uma determinada estratégia e começam a reprimir massivamente os trabalhadores em greve, começará a revolução real e aparecerá uma nova realidade política. Nada galvaniza tanto a atenção ou comove mais as raízes de classe, do que sangue nas ruas.

E não há fórmula estabelecida de antemão para dirigir uma revolução, não um manual para êxito. Cada revolução é diferente, como também são únicas as aspirações dos povos empenhados nelas. Rosa Luxemburgo apercebeu-se perfeitamente disso:

“A classe operária moderna não luta conforme um plano pré-estabelecido em algum livro teórico; a luta dos trabalhadores modernos é uma parte da história, uma parte do progresso social, e por meio da história, por meio do progresso e por meio do combate aprendemos o modo através do qual devemos combater... Isso é precisamente o que é digno de louvor nessa luta: precisamente por isso, esta colossal peça de cultura que é o movimento operário moderno define toda uma época histórica: as grande massas do povo trabalhador começam por forjar-se, a partir da sua própria consciência, a partir das suas próprias convicções e ainda a partir da sua própria compreensão dos acontecimentos, as armas da sua própria libertação.”

O povo egípcio evitou um confronto aberto com as forças governamentais com uma astúcia impressionante. Contudo, o perigo das medidas drásticas e repressivas continua a ser muito real. Os trabalhadores apresentaram as suas reivindicações e neste novo ambiente de activismo político, é improvável que retrocedam enquanto não conseguirem os seus objectivos. Não se conformam com a saída de Mubarak. Sabem que “o novo amo é semelhante ao velho.” Como declara no seu Manifesto, o Centro dos Sindicatos e dos Trabalhadores dos Serviços, já não se trata apenas de “salários decentes” ou de “assistência médica”; o povo egípcio “nega-se a continuar a viver uma vida de humilhações”.

Um extracto desse Manifesto dos sindicatos operários:

“... 300 jovens pagaram com as suas vida um preço pela nossa liberdade e pela nossa emancipação da humilhante escravidão em que vivíamos. E agora, a via, o rumo, está aberta para todos nós...

 

 

“A Liberdade não é uma exigência apenas da juventude... queremos liberdade para poder expressar as nossas reivindicações e reclamar os nossos direitos... para poder encontrar uma forma de gerir a riqueza do nosso país, os frutos roubados do nosso duro trabalho... para poder redistribuir com algum sentido de justiça... para que os diferentes sectores oprimidos da sociedade possam conseguir mais do que lhes é devido e não tenham de padecer desnecessariamente de fome e doenças.”

O povo egípcio quer o que lhe é devido: a sua liberdade, a sua dignidade, e uma porção equitativa do bolo. E, dir-se-ia, estão em condições de conseguir tudo isso.

Mike Whitney é um analista político independente que vive no Estado do Washington e colabora regularmente com a revista norte-americana CounterPunch.

20/02/11

Tradução de Sofia Gomes para o Esquerda.net

Traduzido de Sin Permiso

 
 
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