Os paradoxos do clima
Em artigo publicado em maio, no Jornal O Popular, o jornalista e ambientalista Washington Novaes tece um panorama da situação climática mundial e traz dados alarmantes sobre as catástrofes ambientais.

É raro o dia em que jornais e televisão não tragam notícias sobre “eventos extremos”, desastres climáticos, deslizamentos de morros por chuvas. Ora são os tornados nos Estados Unidos, de magnitude não vista desde 1925, e enchentes no Mississipi; ora são, como nestas semanas, vários municípios de Alagoas,Sergipe, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Bahia e Maranhão em estado de calamidade,; ora é o Sul às voltas com secas ou inundações. Há poucos dias, este jornal informou que a temporada de incêndios este ano começou cedo no Cerrado e no Estado – aqui, 15 queimadas em um dia, ao mesmo tempo em que o Instituto Nacional de Meteorologia informava que em alguns pontos a umidade do ar já baixara para 30%. E que são esperados “níveis críticos” para agosto/setembro. Não bastasse, o Ministério do Meio Ambiente informa (Folha de S. Paulo, 9/5) que um terço (142 municípios da região Norte e vales do Mucuri e do Jequitinhonha) de Minas Gerais pode “virar deserto em 20 anos, por causa de desmatamento, monocultura e pecuária intensiva.
Paradoxalmente, os meios de comunicação trazem muitas notícias de que os países mais influentes no mundo já consideram “impossível” que se chegue a um “acordo vinculante” para reduzir as emissões de gases no mundo, na nova reunião da Convenção do Clima, marcada para o fim do ano, na África do Sul. E deixaram passar o prazo da ONU para apresentar um plano de assistência aos países em desenvolvimento para combater mudanças climáticas. Connie Hedegard, a representante da União Européia, disse, ao final da reunião de 17 potências em Bruxelas, há poucas semanas, que, embora todos reconheçam a indispensabilidade de “acordo vinculante”, só os europeus o querem de imediato. Já o representante norte-americano, Todd Stern, não considera o acordo nem “viável” agora, nem necessário nesse ritmo. E vários dos participantes já dizem abertamente que o caminho não será um acordo mundial, e sim legislações nacionais que limitem as emissões de poluentes e impeçam que a temperatura do planeta suba além de 2 graus Celsius (já subiu 0,8 grau). Por sua vez, o delegado russo afirmou que ninguém obrigará seu país assumir acordos, nem a contribuir para um Fundo de US$30 bilhões a vigorar em 2012, aprovado em 2009, para ajudar os países mais pobres a enfrentar os “eventos extremos” (Bloomberg, 29/4).
Quem acreditar que o caminho pode mesmo ser o de legislações nacionais deve tentar inteirar-se do que está acontecendo nos Estados Unidos, onde as mais poderosas entidades econômicas – Business Round Table, Câmara de Comércio, GE, Exxon , entre outras – advertem o presidente Obama para deixar de lado os esforços governamentais que querem reduzir emissões de indústrias e refinarias de petróleo, além de geradoras de energia, através de normas da Agência de Proteção Ambiental (EPA). Já tiveram uma primeira vitória na Câmara dos Representantes, onde a proposta do Executivo foi rejeitada em abril.
Não é muito melhor o panorama na China, que já se tornou a maior emissora do planeta, com 7,5 bilhões de toneladas de poluentes, contra 5,9 bilhões dos Estados Unidos, segundo colocado. Estudo do Lawrence Berkeley National Laboratory, da Califórnia, adianta que o pico das emissões chinesas acontecerá em 2030, com o aumento da população urbana e maior uso de refrigeradores, máquinas de lavar roupa, ar condicionado etc., na sua maior parte movidos a energia gerada pela queima de carvão, o mais poluente dos combustíveis fósseis. Entre 2030 e 2035, as emissões ali deverão atingir 12 bilhões de toneladas anuais; na melhor das hipóteses, 9,7 bilhões de toneladas, se houver programas eficientes de redução. É uma projeção até otimista, diante da visão do respeitado Sir Nicholas Stern, consultor do governo britânico, para quem a China chegará a 12 bilhões de toneladas anuais em 2020 e 15 bilhões em 2030, admitido um crescimento anual do PIB da ordem de 7%, mesmo com êxito nos esforços para reduzir as emissões por unidade do produto.
Por tudo isso, Stern acha difícil que se consiga deter o aumento da temperatura em dois graus. Mas o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, da Convenção do Clima), assegura que energias renováveis poderão atender a 80% das necessidades globais em 2050, se forem mais desenvolvidas. As eólicas já aumentaram 30%, a solar vinculada a redes de distribuição cresceu 50%, a geotérmica 4% e a solar para aquecimento de água 2%. O etanol cresceu 10%. Para desenvolver mais o setor serão necessários entre 1,3 e 5,1 bilhões de dólares na próxima década.
Não chega a consolar, mas um estudo (Envolverde, 29/4) da Universidade Purdue, Indiana, EUA, publicado pela Nature Science diz que o planeta pode recuperar-se de um grande desastre provocado pelo aquecimento global muito mais rapidamente do que se pensava: podem ser “apenas 40 mil anos” – quando há 46milhões de anos, com a temperatura da Terra elevada em 5 graus Celsius, a Terra levou 170 mil anos para restabelecer a situação anterior.
Melhor continuar pressionando para que as grandes potências – inclusive o Brasil – tomem juízo.
 


 


 
 
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