Dívida grega: quando a banca faz as suas próprias leis
A banca criou a sua própria lei e a sua própria justiça. E as instituições políticas europeias, a Comissão Europeia, o BCE ou os governos dos Estados membros, concordam em ficar vinculados à decisão de organizações privadas. Standard & Poors, Fitch e Moody’s anunciaram que mediante qualquer mudança nos termos das obrigações do Estado, declarariam a falência da Grécia, o que impediria Atenas de conseguir qualquer financiamento nos mercados, arruinaria os bancos e a economia grega e colocaria alguns problemas aos grandes bancos alemães e franceses. O destino dos gregos parece jogar-se tanto nas ruas de Atenas, em torno do Parlamento, como nos corredores da Comissão em Bruxelas. É uma ilusão, o verdadeiro poder está nas mãos de agências de rating ou dos principais bancos que implementaram os seus próprios critérios, ou até mesmo a sua própria jurisdição! Entretanto, a Moody's colocou três bancos franceses sob vigilância negativa. Artigo de Hervé Nathan, publicado em Marianne.

O destino dos gregos parece jogar-se tanto nas ruas de Atenas, em torno do Parlamento, como nos corredores da Comissão em Bruxelas. É uma ilusão, o verdadeiro poder está nas mãos de agências de rating ou dos principais bancos que implementaram os seus próprios critérios, ou até mesmo a sua própria jurisdição! Entretanto, a Moody's colocou três bancos franceses sob vigilância negativa.

Para os cidadãos, o futuro da Grécia e, por conseguinte, da zona Euro, joga-se em Bruxelas. Reunidos em 14 de Junho em Bruxelas, os Ministros das Finanças da União reunir-se-ão novamente na próxima semana, com o objectivo de chegar a um acordo em 26 de Junho no Conselho Europeu, que reúne os chefes de Estado e de governo. Infelizmente, isto faz parte de uma encenação, porque o poder real está noutro lugar, nomeadamente nas agências de rating de crédito e nos grandes bancos internacionais. A única solução para a Grécia seria reduzir a sua dívida.

 A 330 mil milhões de euros, a mesma representa uma carga de 150% do seu PIB. Para começar a reduzir, seria necessário cortar um excedente orçamental de...10% do PIB! Para alcançar uma dívida "sustentável", seria necessário retirar uma parte e prolongar os prazos para o resto. É então que as agências de rating mostram onde está o poder real.

 Em vários avisos convergentes, as famosas Standard & Poors, Fitch e Moody’s, que não viram motivos para reclamar dos produtos subprime até 2007, anunciaram que mediante qualquer mudança nos termos das obrigações do Estado, declarariam a falência da Grécia, o que impediria Atenas de conseguir qualquer financiamento nos mercados, arruinaria os bancos e a economia grega e colocaria alguns problemas aos grandes bancos alemães e franceses.

As agências, que cotaram os empréstimos subprime em AAA, são intransigentes com os Estados. Segundo a Fitch, até mesmo a "troca voluntária" de um empréstimo grego antigo por outro daria origem à declaração de falência. Como aviso, a Moody’s colocou os bancos franceses BNP-Paribas, Société Générale e Crédit Agricole sob vigilância negativa, sob o pretexto de sua exposição ao risco grego.

Pior ainda, em caso de falência é uma comissão de 15 banqueiros da Association Internationale des Swaps et Dérivés (ISDA), que inclui, entre outros, Merrill Lynch, Barclays, Citibank, JP Morgan, Société Générale, UBS... que decidiria soberanamente honrar os CDS[i]("credit default swaps"), estes produtos financeiros complexos que permitiram que os especuladores atacassem a Grécia.

5,2 mil milhões de euros de CDS foram subscritos, o que equivalerá a um considerável montante de lucro fácil a ser realizado. Novamente, os Estados não podem fazer nada porque a ISDA não reconhece qualquer autoridade além de si mesma. A banca criou a sua própria lei e a sua própria justiça. E as instituições políticas europeias, a Comissão Europeia, o BCE ou os governos dos Estados membros, concordam em ficar vinculados à decisão de organizações privadas. Até quando?

*Hervé Nathan

Jornalista, 56 anos. É actualmente editor na área económica e social na Marianne, depois de ter pertencido ao La Tribune e Libération. É co-autor, juntamente com Nicolas Prisset, do Journal du Dimanche, do livro “Les bobards économiques”, Hachette Littérature.

 http://www.marianne2.fr/hervenathan/Dette-grecque-quand-la-finance-fait-sa-loi-_a117.html



[i]Espécie de seguro quanto ao risco de incumprimento.

 
 
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