A crise é o impasse absoluto do regime guiado pela dívida
A crise financeira não tem fim à vista. O modelo de crescimento baseado em endividamento, seguido nos países ricos, está num beco sem saída. Entrevista ao economista François Chesnais para o Folha de São Paulo.

A análise é do economista marxista François Chesnais, 77, que afirma que entrámos nas piores condições possíveis, numa era em que a civilização está a patinar. Para ele, os protestos em Londres, no Chile e no Médio Oriente são expressão “de uma doença mundial criada pelo caminho tomado pelo neoliberalismo e pela dominação das finanças”. Numa época de valorização do consumismo, são “reacções ao extraordinário abismo social”, afirma.

A crise financeira não tem fim à vista. O modelo de crescimento baseado em endividamento, seguido nos países ricos, está num beco sem saída. E o calcado em exportações de insumos [conjunto de elementos que entra na produção de bens ou serviços] – como o do Brasil – pode não funcionar por muito tempo.

Entrevista por Eleonora de Lucena/Folha de São Paulo, 15 de Agosto de 2011.

Folha – Qual a natureza da crise actual?

François Chesnais – O momento actual é um novo episódio na crise mundial. Ela começou há cinco anos, teve seu ponto mais crítico com a quebra do Lehmann Brothers, e não tem um fim à vista.

Foi prenunciada pela crise asiática (1997-1998) e pela quase quebra do Long Term Capital Management, no início da crise financeira russa. Eventos-chave nos anos 2000 e 2001 lançaram as bases para a eclosão da crise: o crash da Nasdaq, a resposta norte-americana ao 11 de Setembro, as guerras no Iraque e no Afeganistão e a entrada da China na Organização Mundial do Comércio.

Quais são as causas?

O funcionamento da economia mundial desde o início dos anos 2000 se baseou em dois pilares: o regime de crescimento guiado pela dívida, adoptado pelos EUA e pela Europa, e o regime de crescimento orientado por exportações globais, no qual a China é a principal base industrial, e o Brasil, a Argentina e a Indonésia são os provedores-chave de recursos naturais.

A crise representa o beco sem saída, o impasse absoluto do regime guiado pela dívida. O segundo pilar está levemente melhor, mas o crescimento baseado em exportações globais não poderá funcionar por muito tempo sem uma forte demanda externa, especialmente dos EUA e da União Europeia.

Por que há tensão nos mercados?

Os investidores financeiros estão extremamente preocupados. Há a perspectiva de um segundo mergulho da economia dos EUA, uma crise em forma de “W” nas economias avançadas.

Outro risco é a vulnerabilidade do sistema bancário europeu, na zona do euro e na Grã-Bretanha. Há também o perigo de que o lento crescimento faça com que empréstimos públicos e privados sejam cada vez mais difíceis de serem recuperados.

Qual a situação na Europa?

Na União Europeia, desde Abril de 2010, tem havido um contínuo fluxo de dinheiro público para alguns governos e para os bancos. Isso tem sido acoplado a políticas de austeridade muito drásticas em alguns países, que os arrastou à recessão (-4% na Grécia).

Com isso, fica impossível o repagamento da dívida soberana. Provoca a quebra de empresas, além de levar os sistemas bancários na Grécia, na Itália e na Espanha para uma cada vez maior proximidade do colapso. Isso ameaça bancos nos países do coração da zona do euro, especialmente na França.

A situação dos bancos é preocupante?

Os eventos nas Bolsas estão sendo subordinados a situações bancárias críticas. Em 2008, a ameaça às finanças globais veio dos bancos de investimento dos EUA e das grandes seguradoras. O próximo episódio financeiro maior acontecerá quando um segmento do sistema bancário da Europa entrar em colapso na Grécia, Espanha ou Itália. A actual turbulência nas Bolsas é a expressão do pânico do investidor, que tenta antecipar esse tipo de evento. Seu principal efeito é contribuir para a efectiva ocorrência de um desastre em algum lugar. Isso afita o comportamento do consumidor de renda mais alta e desencoraja investimentos da classe média.

Nos seus livros, o Sr. descreve os detalhes do avanço das finanças. Como avalia o actual momento na história do capitalismo?

É possível traçar paralelos com o passado. Mas em nenhum período anterior foram tão elevados a quantidade de acções e títulos, os ganhos dos rentistas nem foi tão grande a quantidade em circulação do que chamo de “capital monetário fictício elevado à enézima potência”.

Nunca os lucros financeiros foram tão altos em comparação com a actividade produtiva. Nunca as finanças foram tão desreguladas. Nunca a capacidade dos governos de recuperar o controlo sobre as finanças foi tão fraca. A extrema fraqueza da liderança política é uma consequência directa disso. Mas há uma nova dimensão da história do capitalismo.

Qual é?

Essa nova dimensão é a crise ambiental, começando com as mudanças climáticas, que se desenvolve em paralelo à ascensão das finanças e de sua crise. Por isso, entramos nas piores condições possíveis numa era em que a civilização como a concebemos, no Ocidente e no Oriente, está patinando.

Os governos deveriam jogar mais dinheiro nos mercados financeiros?

As políticas fiscais anunciadas ou já decretadas são fortemente pró-cíclicas. Elas acentuam o beco sem saída do regime de crescimento e a incapacidade que a elite dirigente tem de imaginar qualquer outra maneira de reger a economia.

Não haverá fim para a crise mundial enquanto os bancos e os investidores financeiros estiverem no comando, fazendo políticas totalmente dirigidas pelos interesses dos rentistas e dando respostas à crise dominadas por tentativas de dar sobrevida ao regime guiado pela dívida.

O que precisaria ser feito para a retomada da crescimento?

Nos EUA e na Europa, a recuperação requer o restabelecimento do poder de compra das classes baixas e médias, a recriação e expansão da capacidade dos Estados de fazer os investimentos sociais e ambientais necessários e o estabelecimento de um sistema monetário internacional estável, não subordinado ao capital financeiro.

As condições para isso vão incluir o cancelamento de boa parte da dívida soberana, assim como de boa parte da dívida doméstica; o restabelecimento de uma taxação correcta para a renda das finanças e do capital; o restabelecimento de um verdadeiro controlo público do sistema de crédito; um controle restrito dos fluxos de capital e uma luta efectiva contra os paraísos fiscais.

Qual sua visão sobre o poder das agências de classificação de risco?

O poder das agências de classificação de risco apenas espelha o quanto os governos foram colocados nas mãos das finanças. Mostra a extensão da abdicação do poder dos governos, que mudaram as finanças públicas de uma forma baseada em impostos para uma baseada em dívida.

E o que ocorre agora?

As agências de risco estão pressionando a elite política francesa para aprofundar as políticas de austeridade. Isso no contexto de uma situação de quase recessão.

É possível que, nos próximos meses, ocorra na França uma reacção popular contra os cortes de orçamento.

As revoltas no Norte da África e no Oriente Médio, o movimento dos “indignados” na Espanha e agora os protestos em Londres têm alguma ligação?

Eu adicionaria à lista as enormes marchas em Tel Aviv, com 200 mil pessoas, e em outras cidades contra a alta nos preços dos alimentos e o desemprego. E também esse extraordinário movimento dos estudantes no Chile. Cada um desses movimentos precisa ser analisado com cuidado. São obviamente expressão de uma doença mundial criada pelo caminho tomado pelo neoliberalismo e pela dominação das finanças.

O que os movimentos têm em comum?

Eles têm em comum o facto de terem sido estimulados pela juventude. Em muitos casos são liderados por jovens líderes que estão emergindo do movimento. 

São todos reacções ao extraordinário abismo social num tempo em que o consumismo é projectado mundialmente pela tecnologia contemporânea e pelas estratégias de média. Cada um tem suas idiossincrasias nacionais e suas trajectórias políticas. Em cada caso há uma diferente mistura de um componente fundamental democrático, com conteúdo anticapitalista. Reagem ao facto de a eles ter sido negada a posse de bens que outros da sua mesma geração possuem no seu quotidiano. A crescente percepção da corrupção político-financeira atiça a indignação e, no caso dos jovens mais pobres, os faz usar os únicos métodos que têm à disposição.


Entrevista por Eleonora de Lucena/Folha de São Paulo, 15 de Agosto de 2011, publicada em outrapolitica.wordpress.com.
 

 
 
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