Biomassa ou biomassacre?
Dizem-nos também que a biomassa é uma fonte natural, que foi sempre a base do sustento humano, que é renovável, abundante e que, usando somente a parte celulósica e não comestível, se evitaria a concorrência com a produção alimentar. Mas todas estas afirmações são enganosas e pretendem disfarçar o desastre vindouro. Por Silvia Ribeiro, La Jornada

Com um entusiasmo crescente, empresas, políticos e alguns cientistas falam-nos de como irão resolver-se os desastres ambientais, a crise energética e climática e até a fome, recorrendo à utilização da “biomassa” em vez dos combustíveis fósseis. É apresentada como um elemento fundamental de uma transição para uma nova “economia verde” e, sendo composta por materiais biológicos, seria mais sustentável e benéfica para o ambiente. No fim de contas, soa bem comer num prato feito de milho ou de batata em vez de plástico, conduzir automóveis com “biocombustíveis” ou até voar em aviões com “bioturbosina”. Não há dúvida de que é urgente sair da civilização petrolífera, mas será esta nova onda de apropriação da biomassa realmente sustentável?

Um aspecto desta nova economia da biomassa, o dos agrocombustíveis, foi amplamente criticado, entre muitos outros problemas, porque ficou documentado que é o factor principal do aumento do preço dos alimentos. Com toda a gravidade inerente, isto é apenas a ponta do icebergue do impacto do aumento massivo do uso da biomassa do planeta, para combustíveis e outras utilizações industriais.

Actualmente 24% da biomassa terrestre global foi mercantilizada. Em jogo está a apropriação e a mercantilização dos 76% restantes, além da biomassa marinha. Decisivos para isso são os novos instrumentos tecnológicos, como a biologia sintética, que está a criar microorganismos sintéticos capazes de digerir celulose de forma mais eficiente (actualmente o processo é custoso e gasta mais energia do que aquela que gera). Isto é fundamental para transformar virtualmente qualquer vegetal em matéria-prima de novos polímeros que poderiam usar-se para combustíveis, produtos farmacêuticos, plásticos e muitas outras substâncias industriais. O potencial de lucro é enorme e por isso os actores são as maiores empresas do planeta: as principais multinacionais dos agronegócios e de plantações de árvores (Cargill, ADM, Bunge, Cosan, Stora Enso, Weyerhauser), grandes petrolíferas, empresas químicas e farmacêuticas (BP, Shell, Total Oil, Chevron, Exxon, DuPont, Basf) juntamente com multinacionais de biotecnologia, nanotecnologia e software (Monsanto, Syngenta, Amyris, Synthetic Genomics, Genencor, Novozymes) e outras.

Dentro do termo biomassa incluem-se desde bosques e arbustos a cultivos e algas, bem como bagaços e restos de colheitas. Ou seja, toda a matéria vegetal cultivada ou natural. Aqueles que promovem estas novas utilizações da biomassa costumam pôr o acento na utilização de restos e bagaços, como se estes fossem coisas marginais, sem qualquer utilidade, não referindo, por exemplo, que são uma das poucas fontes de devolução de matéria orgânica e de nutrientes aos solos, cuja erosão é um grande problema. Além disso, apesar de dizerem que usarão “restos”, a verdade é que os empreendimentos actuais para produzir plásticos e combustíveis apoiados pela biologia sintética (já em marcha em biorrefinarias dos Estados Unidos e do Brasil, com a participação de Amyris e de outras empresas), se baseiam no uso de plantações industriais de milho e cana-de-açúcar.

Dizem-nos também que a biomassa é uma fonte natural, que foi sempre a base do sustento humano, que é renovável, abundante e que, usando somente a parte celulósica e não comestível, se evitaria a concorrência com a produção alimentar.

No entanto, todas estas afirmações são enganosas e pretendem disfarçar o desastre vindouro. Para começar, escondem a necessidade de aumentar de forma exponencial as plantações industriais da monocultura de árvores e outras, como o pinhão manso (Jatropha), rícino, etc. Isto constitui uma ameaça à biodiversidade e disputa terra, água e nutrientes aos cultivos alimentícios, além de expulsar os camponeses dos seus territórios e de os levar a abandonar os seus cultivos tradicionais.

Além disso, embora 24% de mercantilização da biomassa nos possa parecer pouco, na realidade, e segundo dados do Global Footprint Network (que calcula a pegada ecológica produzida por diferentes actividades no planeta), já ultrapassámos a capacidade de recuperação e de renovação da biomassa ao seu próprio ritmo. Isto quer dizer que ao nível actual e sem o aumento massivo de consumo de biomassa que se planeia, já se está a diminuir a base natural.

Por outro lado, ainda que a matéria vegetal tenha sido o sustento da humanidade durante a maior parte da sua história, a procura de energia disparou com o industrialismo, vinte vezes superior ao existente há pouco mais de um século, provocando a maior devastação de solos da história global.

Esta nova economia da biomassa não tem nada a ver com a utilização sustentável da natureza e dos cultivos desenvolvida historicamente pelas comunidades locais, camponeses e indígenas, que são uma parte importante da solução para as crises energética, climática e alimentar. Agora trata-se de as empresas que lucraram devastando o planeta com os seus produtos baseados no petróleo estarem dispostas a uma nova onda de apropriação massiva da natureza, biodiversidade, territórios e comunidades, declarando-a sustentável.

30/07/2011

Silvia Ribeiro é investigadora do Grupo ETC (Mais dados no relatório Los nuevos amos de la biomasa www.etcgroup.org/es/node/5253)

Tradução de Helena Pitta para o Esquerda.net

 

 
 
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