Papademos é o novo bombeiro do capitalismo na Grécia
Um austero homem de confiança dos "mercados" assumiu o destino político da Grécia até às eleições de fevereiro de 2012. Lukas Papademos, ex-vice-presidente do Banco Central Europeu, ex-conselheiro informal do demisssionário chefe do Executivo, Yorgos Papandreu, o homem dos bancos e do sistema financeiro, será o encarregado de colocar a Grécia na camisa de força das reformas e no calvário que acompanha todos os saneamentos liberais. "Não sou um político", disse ele em sua primeira declaração. Fonte: Carta Maior/CMS

Eduardo Febbro - Direto de Atenas

Um soldado rigoroso assumiu o destino político da Grécia até às eleições de fevereiro de 2012. Lukas Papademos, ex-vice-presidente do Banco Central Europeu, ex-conselheiro informal do demisssionário chefe do Executivo, Yorgos Papandreu, o homem dos bancos e do sistema financeiro, será o encarregado de colocar a Grécia na camisa de força das reformas e no calvário que acompanha todos os saneamentos liberais. Sua primeira declaração é tão enigmática como autêntica : « não sou um político », disse em plena rua. 

A frase soa como uma reconciliação em uma sociedade onde a classe política suscita um ódio profundo e arrasta a imagem de um clube de jogadores de poquer. Logo de saída, Papademos marcou o rumo do que virá : « ajustar a economia » e dedicar-se integralmente à aprovação do segundo pacote do resgate financeiro aprovado dia 26 de outubro em Bruxelas, cujo fio condutor é um avalanche de ajustes sociais, redução dos déficits, aumento de impostos, cortes de gastos públicos e uma milionária dívida bancária a ser paga.

Um comerciante da rua Mitropoleos disse com certa graça : « este homem ou é um santo, ou um perverso, ou um suicida ou um heroi ». Pode ser que sejam as quatro coisas juntas. Papademos assumiu o pior papel do filme : ser o homem mau sobre quem recai a responsabilidade de apertar os cintos e lançar um pacote de reformas, umas mais impopulares do que as outras. 

Um novo bombeiro do capitalismo, disciplinado e adepto do arrocho social. O nome de Papademos era dado como certo desde o início, mas ao cabo de quatro dias de negociações infrutíferas entre os socialistas do Pasok e a oposição de centro direita da Nova Democracia não havia se chegado a nenhum acordo até a tarde de quinta-feira.

O novo chefe do Executivo impôs condições drásticas para aceitar o cargo : que o prazo para as eleições de 19 de fevereiro seja flexível, o que equivale a dizer que podem ser adiadas, e que os partidos se comprometam a aceitar o resgate europeu. Essa última condição foi ditada expressamente por Bruxelas, em especial pela dupla composta pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, e pela chanceler alemã, Angela Merkel.

Ambos despertam na Grécia um ressentimento quase militante. Ninguém esquece em Atenas que Merkel chamou os gregos de « preguiçosos » e que Sarkozy e a chanceler alemã forçaram o ex-primeiro ministro Yorgos Papandreu a renunciar ao referendo que pensava convocar para consultar a população sobre as condições do plano de resgate europeu. Para a população, Merkel e Sarkozy humilharam o país e colocaram Papandreu de joelhos durante a cúpula do G20, realizada em Cannes, a Costa Zul francesa.

Imediatamente após a confirmação da indicação de Papademos, os comerciantes que trabalham nas imediações do Parlamento comentavam com ironia e sem nenhuma esperança : ‘Merkel será a primeira-ministra da Grécia, Sarkozy o ministro da Economia, o FMI a polícia financeira, o Banco Central Europeu o contador que verifica as contas e Papademos o empregado obediente. Como em quase toda Atenas, os comércios estão vazios. Propeitários e empregados passaram longas horas debatendo política e economia enquanto assistem o frenético ir e vir de carros oficiais em torno do Parlamento. 

Os gregos compartilham com o recém-nomeado primeiro ministro uma qualidade comum : sabem muito de economia. Os meses de crise tornaram os atenienses especialistas em todas as questões econômicas. Conhecem melhor do que ninguém os arcanos das finanças e os vícios que se escondem por trás de fórmulas crípticas.

Lukas Papademos era até bem pouco tempo professor de Economia em Harvard. Seu curso parece destinado à tarefa que tem pela frente : « A crise financeira mundial. Respostas e desafios ». Lukas Paoademos é o rosto que tranquiliza os lobos do sistema financeiro. É um economista austero, sem o mínimo encanto, mas respeitado nos círculos do dinheiro. 

Não é um desconhecido na Grécia. A sua maneira, é a segunda vez que se encontra com a história de seu país. Em 1985, Papademos, que ensinava na Columbia University, de Nova York, regressou a Grécia para ocupar o posto de chefe de economistas do Banco Central grego. Em 1994, converteu-se no governador do banco e, neste cargo, assinou o atestado de óbito da moeda nacional, o Dracma,substituído pelo euro. 

A moeda única europeia é irreal, e não só na Grécia. Em um país cuja dívida chega a 170% de seu PIB, um taxi do aeroporto ao centro de Atenas custa 120 dólares. É impossível saber de onde sai o dinheiro para pagar essa ficção.

Com a entrada de Papademos na cena política, a Grécia poderá receber os 8 bilhões de euros que os países da eurozona bloquearam até que a partida de pôquer entre os atores políticos do país não fique clara. Papademos é o homem do euro, o capitão chamado a evitar que a Grécia saia do euro e arraste os demais países ao precipício. Lukas Papademos é um calmante para os mercados, não para sua sociedade. 

A crise da zona euro já derrubou quatro primeiro ministros : Itália, Portugal, Irlanda e Grécia. A fissura é profunda. Papademos é a carta do sistema para salvar-se e o sistema o vigiará com microscópio. Além do FMI, o Banco Central Europeu, Bruxelas, Sarkozy e Merkel, o professor Papademos tem um país convulsionado, mobilizado em dezenas de protestos sociais, e a classe política tradicional. Esta não cederá seus direitos de um dia para o outro, nem tampouco a sociedade civil.

Os gregos perderam quase tudo, menos a afabilidade e o sorriso : « São tempos para rir desde o amanhecer », diz Natalia, uma estudante de Direito. A jovem observava o circo político armado pelos meios de comunicação e os políticos na Praça da Constituição como se todo aquele alvoroço não fosse mais que « a encenação de nossa próxima derrota », como diz com um sorriso banhado no sol benigno e tênue da tarde.

Tradução: Katarina Peixoto

 
 
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