“Com a ética, a natureza não é vista apenas como lucro”, afirma Dom Leonardo
Dom Leonardo destaca preocupação da Igreja com reforma do Código Florestal e pede consideração da dimensão ética frente aos interesses econômicos. Vinicius Mansur, de Brasília, para o Jornal Brasil de Fato

Dom Leonardo Ulrich Steiner é um porta-voz destacado na defesa das propostas da sociedade nos debates em torno do Código Florestal. Desde maio deste ano, está à frente da Secretaria-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entidade integrante do Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável. Em entrevista, Dom Leonardo destaca a preocupação crescente da Igreja com a relação seres humanos-natureza e os pontos que deveriam ser mudados no novo Código Florestal. Cobra, ainda, um maior protagonismo dos meios de comunicação.

Confira:

Brasil de Fato – Neste ano de grandes debates sobre o Código Florestal, a CNBB impulsionou a Campanha da Fraternidade com o lema “Fraternidade e a Vida no Planeta”. De que maneira esses temas se vinculam?

Dom Leonardo Ulrich Steiner – A Igreja vem participando do debate há mais tempo porque existe uma preocupação mundial em torno do tema. O aquecimento global e diversas manifestações da natureza têm trazido preocupação não somente aos cientistas, mas a pessoas ligadas à Igreja e à sociedade. A Igreja, como é sempre encarnada, atenta à realidade, procurou refletir sobre esse tema. Tivemos, primeiro, uma preocupação com a Amazônia – não apenas com a natureza, mas com a pessoa, com os povos que a habitam –, com a Campanha da Fraternidade de 2007. Neste ano refletimos sobre a vida no planeta de novo, preocupados com o nosso modo de viver, com o meio ambiente, com a vida do planeta, com a nossa própria existência. Nos textos dessas duas campanhas, existe uma grande preocupação com a relação que nós estabelecemos com a natureza. Uma coisa é estabelecermos uma relação de lucro, uma relação econômica; outra coisa é estabelecermos uma relação de convivência, por meio da qual nós aprendemos, somos partícipes, e a natureza faz parte da nossa vida e nós fazemos parte da vida da natureza. É o que São Francisco de Assis dizia de uma maneira tão singela e verdadeira quando chamava a natureza de irmã, porque via nela os sinais do amor de Deus.

 

É a dimensão ética que o senhor afirmou faltar nesse debate sobre o Código?

A ética é que determina as nossas relações, o modo de estabelecê-las, o respeito, a justiça, a equidade, a verdade. Com a ética, a natureza não é vista apenas como lucro. Tenho um pensamento muito bonito sobre isso. A sagrada escritura de Deus disse: “dominai a natureza”. Mas a compreensão do “dominai” não é “sugar”. “Dominar” vem da palavra em latim “domoi”, que quer dizer “casa”. Então, devemos tratar a natureza como nossa casa, ser senhor, porque senhor é aquele que cuida, que deixa todas as coisas se constituírem como a nossa casa. Isso seria a base ética de um Código Florestal que nos possibilitaria deixar a nossa casa em ordem.

Quais os principais problemas do texto que tramita no Congresso Nacional?

A agricultura familiar deve ser tratada de modo diferenciado dentro do Código. Um levantamento do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] mostra que essas propriedades correspondem a mais de 80% dos estabelecimentos rurais. O tamanho das áreas preservadas das pequenas propriedades não pode ser o mesmo das grandes propriedades, pois elas representam uma porção muito grande do terreno dos pequenos, restringindo a possibilidade de ganho e, logo, a permanência dessas famílias no campo. E nossas cidades já estão inchadas pelo êxodo rural. Além disso, nossos alimentos vêm da agricultura familiar, então, é justo que ela tenha tratamento próprio. Outra preocupação é fazer valer a lei, que não se dê a impressão de que existia uma lei e quem não a cumpriu não precisará cumpri-la como estava previsto antes. Queremos também que haja uma concepção de fundo no Código que seja não apenas de preservação, mas de cuidado.

O que isso significa?

O Brasil tem que ser harmônico com suas riquezas naturais, com as águas – temos os maiores aquíferos e devemos ser no futuro o país com mais água doce. Queremos que o Código melhore essa convivência para cuidarmos das riquezas que Deus nos deu, para não só estabelecermos uma relação mais digna com a natureza, mas também cuidarmos das riquezas que temos.

 

Como a CNBB está trabalhando para um Código nesses moldes?

Temos participado do debate, não nos ausentamos. Participamos do Comitê das Florestas e, inclusive, a Comissão de Justiça e Paz ajudou a secretariar, a elaborar propostas muito concretas. Também levamos esse debate às nossas reuniões, aos nossos colegiados, informando nossos bispos e estabelecendo diálogos com diversos parlamentares para mostrar a nossa posição e preocupação.

Esse debate tem recebido acolhida na base da Igreja?

Ainda não entramos em todas as comunidades, mas entramos no interior, porque havia um medo, uma tensão, de que o Código prejudicaria os nossos pequenos agricultores. Inclusive, foi esse debate que motivou a CNBB a acrescentar algumas sugestões.

 

O que ainda pode ser feito?

Eu sinto uma abertura muito grande no Senado. Cientistas e diversos segmentos da sociedade foram ouvidos e estamos sentindo que existe uma tentativa de ter um Código melhor. Tenho a sensação de que não será um Código que satisfará todo mundo, porque alguns puxam mais para um lado, outros mais para o outro. Vamos manter o diálogo, não nos ausentaremos.

Penso também que os grandes meios de comunicação poderiam ajudar mais. Veja a importância que eles têm na questão da corrupção. Eles podem ajudar também em torno das propostas do Código Florestal, levando a questão realmente ao público, porque eles têm condição de dar capilaridade à discussão. O debate é complicado, não é fácil tomar o texto e ver onde estão as maiores dificuldades.

 
 
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