Clima: Durban adiou o urgente
A 17.ª Conferência do Clima da ONU, que terminou a 11 de dezembro, determinou que os países continuem a dormir até 2020. Enquanto isso, aumentam as catástrofes naturais agravadas pelo aquecimento global. Quando um eventual novo acordo, ainda por definir, entrar em vigor, metade do planeta já poderá estar inabitável. Por Hugo Evangelista

Estamos a 1,2ºC de ultrapassar a temperatura que os cientistas apontam como o limite para que a humanidade tenha 50% de probabilidades de evitar uma catástrofe climática mundial sem retorno. Nesta situação, os responsáveis pelo aumento da temperatura tentam evitar o pior: diminuir sua a taxa de lucro.

Este domingo 11 de dezembro chegou-se a um acordo para responder à urgência desta crise climática em Durban. Resumindo, este acordo determina que os países continuem a dormir até 2020. Enquanto isso, aumentam as catástrofes naturais agravadas pelo aquecimento global, como as cheias no Paquistão, Tailândia, Filipinas ou Bangladesh. Quando um eventual novo acordo, ainda por definir, entrar em vigor metade do planeta já poderá estar inabitável. Adivinhem em que metade os 1% mais ricos vão viver.

Como todos os países concordaram em negociar um novo acordo a ser assinado em 2015 para ter início em 2020, Assunção Cristas, a ministra do Ambiente, já à vontade com o seu novo estilo de populismo verde, ficou muito satisfeita e avalia como "um passo em frente" (http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2177735) esta promessa, mesmo que na prática tudo esteja na mesma, ou seja, pior porque o tempo para terminar com a ameaça à vida de milhões de pessoas está a terminar.

Durban é a demonstração de falhanço deste sistema económico capitalista na resposta não só da atual crise económica e social mas também da ambiental.

A notícia menos má é que deverá haver um provável compromisso para continuação do Protocolo de Quioto após 2012, a confirmar ainda no COP 18 no Qatar. Tendo este protocolo alguns pontos positivos, por ser um compromisso vinculativo de redução de emissões assinado entre vários países, este acordo mantém uma lógica assente no mercado que serve, em primeiro lugar, para garantir lucro fácil aos cartéis do carbono . Se queremos mesmo responder a esta crise ambiental, não é assim que lá chegamos.

Não nos esqueçamos que de fora de Quioto estão países com um dívida ecológica enorme, pondo em causa todos os outros: EUA, Rússia, Japão e Canadá, que desistiu recentemente, por ter aumentado as emissões em 24%. Este é um problema global. Por isso deve ter solução global. Qualquer acordo que exclua os países mais desenvolvidos na redução da emissão dos gases de efeito de estufa não tem o impacto que precisa de ter.

E não nos esqueçamos que Quioto admite a implementação de projetos REDD+ que ameaçam comunidades indígenas e outras comunidades dependentes da floresta, em troca de plantações florestais em monoculturas que não tornam a nossa economia mais “verde”. A lista de projetos fraudulentos para obtenção de dinheiro dos créditos de carbono é muito mais extensa.

Voltemos ao que saiu de Durban.

Foram estabelecidas algumas regras para a atribuição de 100 mil milhões de dólares para o Green Climate Fund, para ajudar os países sub-desenvolvidos. Ainda nenhum dólar saiu da mão dos países desenvolvidos, mas já se sabe quem o vai gerir. O dinheiro ficará sob controlo do imparcial Banco Mundial, o mesmo que asfixia os países de terceiro mundo com dívidas impagáveis.

Estas negociações foram mais uma oportunidade perdida para uma solução justa e comprometida com a nossa existência neste planeta. A contagem decrescente para impedir o aquecimento do planeta continua, para evitar o limite de aumento de 2ºC (em relação a 1990), mas a cada momento que passa teremos de fazer um esforço mais drástico no corte de emissões. É que se tivesse havido um acordo este ano, bastaria reduzirmos as nossas emissões de carbono em 3,7% por ano, mas no ano de 2020 a redução terá de ser de 9% por ano. Os custos económicos e sociais de uma redução tão apressada e drástica são muito diferentes de uma redução atempada e planeada das emissões. Por isso este adiamento vai criar um "apartheid climático" disse Nnimmo Bassey, da Friend of the Earth (http://www.newint.org/blog/2011/11/28/challenging-climate-apartheid-cop1...).

A nossa resposta passa, em primeiro lugar, por estar do lado dos países e dos povos mais vulneráveis, que mais têm sofrido com o aumento do eventos de catástrofes climáticas, que menos responsabilidades históricas têm sobre a emissão de gases com efeito de estufa e que têm direitos a desenvolver a sua economia, de produzir aquilo que lhes é essencial para erradicar a pobreza e permitir uma melhor qualidade de vida.

Por parte dos países desenvolvidos precisamos de um novo paradigma económico, um que não se faça à custa de modelos extrativistas e produtivistas, mas um de conversão para uma economia que não esteja viciada em combustíveis fósseis e planeada de acordo com os interesses e necessidades da população.

Isto deverá incluir a produção descentralizada de energias renováveis, reabilitação das habitações, legislação que proíba a obsolescência programada nos produtos que compramos, o crescimento nas redes de transportes públicos e tornando-os acessíveis a toda a população, ...

Para ganhar este modelo económico diferente, não podemos fazê-lo sozinhos. Precisamos de unir os agricultores, os sindicatos, ambientalistas e cientistas. A ideia nem é nova. A campanha “One Million Climate Jobs”(http://www.climate-change-jobs.org/), na Inglaterra, tem feito um bom trabalho em unir activistas do movimento ecossocialista e sindicatos de sectores mais poluidores, mostrando que é possível preservar os empregos com direitos e o nosso planeta.

A responsabilidade de agir é nossa. Vamos?

 
 
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