Brasil: país emergente com custo de vida elevado
Logo no início do ano, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revelou que, entre os países emergentes (eufemismo para “economicamente dependentes”), o Brasil é o único em que o custo de vida é mais elevado que nos EUA (Estados Unidos da América). E nosso povo, em “férias de começo de ano”, não deu bolas para tal informação. Porém, continua a pagar um preço muito elevado para viver ou mesmo para sobreviver – caso de mais de 40% da população que está situada abaixo da linha da pobreza. Artigo de Waldemar Rossi para o Correio da Cidadania.

Outra notícia veiculada nos fins de 2011 foi quanto ao preço dos carros em nosso país: os mais caros de todo o Planeta Terra, embora tenhamos os salários mais modestos que os de todos os países desenvolvidos. Há os que julgam maravilhoso que o Brasil tenha 14 fábricas de veículos motores, esquecendo que nenhuma dessas fábricas é de capital e tecnologia nacional. Todas alienígenas, exploradoras da mão-de-obra barata e dos incentivos que oferecemos. E poluidoras também.

 Outros setores importantes estão também nas mãos do capital externo, uns mais outros menos, como o financeiro, o siderúrgico, o químico-farmacêutico, a telefonia, a energia elétrica, a tecelagem, a produção de etanol, a indústria alimentícia, os supermercados e, agora, cada vez mais, com as concessões, a exploração do petróleo. Ainda contamos com empresas que vão, literalmente, nos envenenando, como a Monsanto, e tantas outras produtoras dos agrotóxicos que infestam nossa agricultura, obrigando-nos a ingerir, via alimentos contaminados, mais de cinco quilos de agrotóxicos anuais por pessoa. Depois se pergunta por que a cada dia surgem novas doenças gastrointestinais, pneumônicas e circulatórias, entre outras ainda de origens desconhecidas!

 É certo que ainda há setores da economia que são considerados como nacionais. Neste caso se destacam as empreiteiras, os tradicionais latifundiários, setores da produção industrial subsidiária. A pergunta é até quando restarão brasileiras já que inúmeras delas estão associadas a grandes empresas internacionais.

 Tais dados estão à disposição de todo e qualquer interessado. Basta averiguar, buscando as fontes oficiais, ou acompanhar atentamente as informações que a mídia burguesa nos oferece a cada dia. Portanto, se o custo de vida aqui é mais elevado que nos Estados Unidos e a economia é majoritariamente dominada pelo capital estrangeiro, não é difícil perceber por que no Brasil há tanta gente na linha da pobreza e abaixo dela; não é difícil perceber por que há tantos mendigos, moradores de rua, miseráveis que sobrevivem da cata do lixo. Torna-se fácil perceber quem ganha tanto à custa do povo trabalhador. Se há destaque para o capital que vem de fora, através da criminosa remessa de lucros, há também os exploradores internos que não vacilam em obter lucros e mais lucros, sugando ao máximo as parcas economias pessoais de quem depende do trabalho.

 Para que isto continue a acontecer, o capital conta com todo o apoio do sistema político que permite o crescimento incontrolado dessa exploração, baseada na falácia da “livre concorrência” e do “livre mercado”. Além dessa permissividade econômica, a maioria dos nossos políticos tem suas campanhas eleitorais patrocinadas por essas mesmas empresas e empresários (nacionais e estrangeiros), que, em troca, exigem dos eleitos a defesa dos seus interesses escusos como retorno do que investiram nas campanhas eleitorais. O retorno dessa corrupção eleitoral se efetua pelas concessões de terras públicas, por protecionismos através de pseudos incentivos fiscais, de contratos fraudulentos, de empréstimos oficiais com juros baixíssimos e a longos prazos, com a renegociação freqüente das dívidas com o Estado, e assim por diante.

 Outro jeito de se apropriar da economia popular é exigir dos nossos governantes investimentos em obras faraônicas, tais como estádios de futebol, pontes e viadutos vistosos – nem sempre eficientes e necessários -, em barragens gigantescas, em transposições como a do Rio São Francisco, em estradas de rodagem, avenidas e túneis para escoamento de veículos poluidores, obras que beneficiarão direta e indiretamente o grande e todo poderoso capital. Porém, tais investimentos exigem muito dinheiro público, porque não trazem retorno imediato nem em médio prazo, como exigem os investimentos capitalistas. Essa dinheirama toda vem dos impostos e taxas que o povo paga compulsoriamente e que deveria, portanto, retornar para o povo em forma de serviços públicos como: saúde, educação, transporte coletivo de qualidade, saneamento básico (água potável e esgoto tratado), reforma agrária, moradias populares decentes, preservação do meio ambiente, energia elétrica e telefonia a preços populares. Enfim, deveria retornar em função da vida do povo.

 Em síntese, os governantes não podem servir a dois senhores. Ou servem ao povo, com os votos de quem se elegeram, ou servem ao capital, que os corrompe pelo financiamento de suas campanhas eleitorais. E os eleitos não hesitam em ficar com seus financiadores. Até o dia em que o povo compreenda isto e resolva assumir as rédeas da política nacional.

  

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

 

 
 
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