Margin Call, a patética inutilidade do mundo financeiro
Desde 2007, Hollywood produziu vários filmes e documentários sobre a crise e o submundo financeiro, numa lógica de exposição da decadência de um sistema moral e eticamente indefensável. Mas nenhum é tão eficaz como Margin Call. Tiago Ivo Cruz,programador cultural, para o esquerda.net

No meio desta crise consigo perceber para que serve um artista mas ainda não descobri função útil para um especulador financeiro.

Desde 2007, Hollywood produziu vários filmes e documentários sobre a crise e o submundo financeiro, numa lógica de exposição da decadência de um sistema moral e eticamente indefensável. 'Maxed Out: Hard Times, Easy Credit and the Era of Predatory Lenders' (2007), I.O.U.S.A (2008), 'Capitalism: A Love Story' (2009), 'American Casino' (2009), 'Wall Street: Money Never Sleeps' (2010), 'The Company Men' (2011), mas nenhum deles é tão eficaz como Margin Call. Esta ficção tem a história mais simples de todos eles, mas também a mais rica em informação humana, em cultura do mundo financeiro.

Uma grande firma de Wall Street que vende produtos financeiros descobre que eles não têm qualquer valor real e toma decisões que aqui não revelo. A firma onde se desenvolve a ação é anónima, diria que propositadamente. Poderia ser qualquer uma das grandes especuladoras de Wall Street. A história tem espaço em 24 horas, as 24 horas que antecedem o despoletar da crise do subprime.

O motor da narrativa é a descoberta do problema e a decisão que é tomada, mas este processo simples é acompanhado de uma tensão psicológica profunda que não larga o espetador, onde qualquer diálogo mas também qualquer silêncio é rico em significado.

Um cast de luxo garante personagens bem construídas, mas Kevin Spacey e Jeremy Irons destacam-se como as grandes personagens do filme. Os próprios nomes das personagens pouco ou nada interessam, cada papel está perfeitamente integrado no significado geral. Jeremy Irons interpreta o presidente sem escrúpulos da firma, Kevin Spacey o vendedor com problemas de consciência. Entre estas duas personagens revela-se o processo moral e humano que é necessário para permitir o sistema funcionar.

Um documentário sobre um processo semelhante revelaria documentos, declarações públicas, talvez conversas gravadas em segredo, mas nenhuma delas nos permite entender o interior de uma sala de reuniões com o presidente da Goldman-Sachs, a forma como ele pensa, como domina, como exerce poder, como fala com os seus colaboradores e como toma decisões.

Este filme não demoniza ou explora de forma ativista a imoralidade do sistema. As personagens e a extraordinária plausabilidade da sua interação permite, de forma pateticamente neutral, demonstrar que tipo de humanidade é necessária e permitida para o deboche moral do mundo financeiro acontecer. Um filme que permite chegar à conclusão inequívoca de que um especulador financeiro é o elemento mais inútil da nossa sociedade.

 
 
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