Em luta contra a violência machista
A Marcha Nacional das Vadias, movimento que critica a responsabilização da mulher pela violência sofrida, ocorrerá no dia 26 de maio, em 14 cidades brasileiras. Após ações promovidas em 2011, quando a marcha ocorreu em diferentes datas em 12 municípios no Brasil, este ano a mobilização é nacionalmente organizada. Priscila Bernades, de São Paulo (SP) para o Jornal Brasil de Fato.

24/05/2012

Em algumas cidades, no entanto, o evento já foi realizado ou só vai ocorrer após a data nacional, totalizando ao menos 21 manifestações em 2012. De acordo com Sandra Muñoz, militante do Movimento de Lésbicas e Mulheres Bissexuais da Bahia e uma das organizadoras do ato em Salvador, já começam as articulações para que a marcha do próximo ano seja unificada em diversos países da América Latina.

A origem do movimento remete a abril do ano passado, quando um oficial da polícia de Toronto, no Canadá, disse que, para evitar estupros, as mulheres deveriam deixar de se vestir como vadias. A revolta provocada pela declaração levou à organização da SlutWalk, expressão traduzida no Brasil como Marcha das Vadias. Desde então, além do Brasil, o movimento já se espalhou por países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França, Holanda, Portugal, Israel, Índia, Argentina, México, Nicarágua e Colômbia.

Marcha das Vadias realizada em Brasília no ano passado
- Foto: Bianca Cardoso/CC

A mobilização pretende chamar a atenção sobre os diversos tipos de violência sofridos cotidianamente pelas mulheres, inclusive os considerados mais leves – como palavras e gestos a elas dirigidos por desconhecidos nas ruas das cidades. “Quando mexem comigo, me sinto ofendida e objetificada. Considero uma agressão”, declara a estudante Larissa Ladalardo. Ela conta que, além dos chamados “gracejos”, já foi seguida algumas vezes por homens, ao voltar sozinha da faculdade ou de festas. “Nunca me senti culpada pelas roupas que usava, por estar bêbada ou por estar andando de madrugada sozinha na rua. Compartilhei o caso com amigos e com familiares, mas o que ouvi foram broncas por ‘não tomar cuidado’”, desabafa.

Falta de apoio

É contra a responsabilização das mulheres pelas violências tentadas ou mesmo infringidas aelas que luta da Marcha das Vadias. “Segurança para mulheres nas ruas não é questão de sorte. É direito”, defende Elisa Gargiulo, vocalista da banda feminista de hardcore Dominatrix e ativista, com atuação em entidades como a União de Mulheres de São Paulo e Católicas pelo Direito de Decidir. Para isso, ela acredita na importância de estender a luta a todas as mulheres. “Precisa mos olhar no olho, conversar, trocar experiências de resistência e sobrevivência, criar laços solidários, incentivar a livre expressão individual e relembrar sempre que é uma marcha contra a violação do corpo da mulher”, destaca.

A reivindicação por mais segurança encontra fundamento na atual edição da pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado, da Fundação Perseu Abramo. A pesquisa estima que a cada 15 minutos uma mulher sofra estupro no Brasil.

Apesar do dado alarmante, quase não há visibilidade dos casos. Isso porque, segundo a pesquisa, 45% das mulheres não compartilham o ocorrido com ninguém, e apenas 3% denunciam à polícia. “A denúncia, em geral, envolve uma exposição da intimidade e da vida pessoal da vítima. Não raro, ocorre sua “revitimização” no decorrer dos procedimentos envolvidos na apuração. Enfrentar isso requer consciência, coragem, apoio social, familiar, psicológico e jurídico”, explica a doutora em Psicologia Social pela USP, Maria de Fátima Araújo, que é também pesquisadora do Núcleo de Estudos de Violência e Relações de Gênero da Unesp de Assis.

A comerciante Gisele*, de 23 anos, sentiu que não poderia contar com esse apoio. Isso porque no ano passado, quando foi estuprada por uma pessoa que conhecia há sete anos, não compartilhou o sofrimento com seus pais e amigos. Quanto aos amigos, não quis que sentissem dó e temia que mudassem o comportamento com ela. A falta de proximidade com o pai a fez pensar que não valeria a pena contar. Já a reação da mãe ela acredita que seria a mesma que poderia esperar de pessoas mais distantes: “Ela ia dizer que eu me ofereci, é bem capaz que ela dissesse isso. Além de tudo o que eu estava passando, seria julgada por uma coisa que eu não fiz, por uma culpa que não foi minha”, diz. 

“A culpa é dele”

A ajuda psicoterápica, no entanto, em certo momento se fez necessária. “Por vezes eu pensei que teria sido melhor se eu tivesse morrido, do que enfrentar o pós”, conta. Segundo ela, a terapia foi essencial para se livrar do que ela chama de “culpa emocional”. “Ficou bem claro: eu não fiz nada, eu não provoquei nada, eu não pedi por nada. A culpa é dele, o erro é dele, o crime foi dele”, conclui.

Cartaz da Marcha Nacional deste ano

Mesmo tendo mais clareza sobre o ocorrido, Gisele prefere não denunciar à polícia. “Para proteger minha identidade. Porque eu já fui tão exposta, tão humilhada por isso que não quero tornar isso público”, declara. Para a professora Maria de Fátima, o poder público não está preparado para lidar com esses casos. “A apuração e o julgamento ainda são muito influenciados pela subjetividade dos operadores da lei, ainda contaminados por discursos ideológicos discriminatórios de gênero e da condição social das vítimas. No caso do estupro de mulheres, ainda é muito freqüente o uso de argumentos estereotipados de gênero para desqualificá-la, seja pelo tipo de roupa usada, ou por conduta incompatível com o que a moral vigente estabelece como o comportamento de uma mulher honesta”, explica.

A possibilidade de a desqualificação da vítima deixar impune o agressor foi notoriamente demonstrada no final de março, quando o Superior Tribunal de Justiça absolveu o estuprador de três meninas sob a alegação de que elas se prostituíam. Contra a decisão, o Ministério Público Federal entrou com um tipo de recurso chamado “embargo de declaração”, que tem o objetivo de corrigir omissão, obscuridade ou contradição. A decisão só poderá ser modificada se for para regularizar alguma dessas situações.

* Nome fictício

A Marcha no País

No site oficial da Marcha Nacional das Vadias é possível conferir as cidades e horário das manifestações no Brasil: www.marchadasvadiasbr.wordpress.com/calendario 

 
 
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