Espanha: a crise era previsível
Era fácil ver que haveria uma crise muito grave. Na realidade, alguns de nós previmo-la. A enorme irresponsabilidade dos dirigentes do Banco de Espanha foi ignorar as vozes críticas dos que estavam a alertar para este problema.
Artigo | 3 Agosto, 2012 - 15:54 | Por Vicenç Navarro O preço da habitação subia e subia e, em contrapartida, o preço dos alugueres, por exemplo, quase não aumentava. Foto de Jaume D'Urgell O que é surpreendente nas declarações feitas às cortes espanholas por alguns dos maiores responsáveis das políticas financeiras do país é a admissão de que a crise apanhou todos de surpresa e que não podia ter sido evitada. Considero estas declarações muito preocupantes, pois era fácil prever que haveria uma crise muito grave. Na realidade, alguns de nós previmo-la. Não era difícil vê-la chegar. Vejamos por partes. E analisemos primeiro como se deteta uma bolha como, por exemplo, uma bolha imobiliária. Olha-se, em primeiro lugar, para a evolução dos preços do produto sujeito da bolha, neste caso, a habitação. E vê-se facilmente que estes preços sobem enormemente. Em si, este grande crescimento não é indicador de uma bolha. É-o sim, porém, quando todos os outros preços, a começar pelo preço do trabalho – quer dizer, os salários – não sobem. Então sim, há uma bolha. Os salários e o número de assalariados são, em qualquer país, um dos fatores mais importantes para conhecer o nível de procura de um produto de consumo popular. Pois bem, foi isto que ocorreu em Espanha de 1998 a 2007. O preço da habitação subia e subia e, em contrapartida, o preço dos alugueres, por exemplo, quase não aumentava. Na realidade, estava estancado. Se a causa do crescimento dos preços da habitação e da construção era o crescimento demográfico, como explicar que o preço do aluguer não subisse também? Correndo o risco de parecer repetitivo, é preciso sublinhar que uma das variáveis mais importantes para detetar uma bolha é a diferença entre o preço de um produto e o nível de capacidade aquisitiva da maioria da população, quer dizer, das classes populares, que é dado pelo que se chama de massa salarial, que são os salários de todos os trabalhadores. O nível salarial e o número de gente assalariada configuram uma variável chave para entender a capacidade aquisitiva da população, a grande maioria da qual são as classes populares. Como esta capacidade aquisitiva não subia, e o preço da habitação, esse sim, subia, a população teve de pedir emprestado muito, muito dinheiro. E esta é a raiz do enorme endividamento das famílias espanholas. Esta realidade pouco foi citada nos meios de maior difusão do país, que explicam o endividamento pelo fácil acesso ao crédito. É certo que a entrada da Espanha na zona euro facilitou o acesso ao crédito. Mas isso não é razão suficiente para explicar o enorme endividamento, pois outros países da zona euro também tinham fácil acesso ao crédito e o seu nível endividamento nunca alcançou os valores a que chegou o de Espanha. Mas enquanto o crédito continuava a fluir, tudo parecia normal. Mas um analista crítico da realidade poderia ter visto que tanto crédito era insustentável e podia criar um problema maior, como foi o caso. Quando a banca alemã, que era a maior fonte de crédito, assim como a francesa, paralisaram (cheias de pânico, porque descobriram que estavam contaminadas por produtos tóxicos procedentes da banca dos Estados Unidos) todo o sistema entrou em colapso, quer dizer, a enorme bolha imobiliária estourou, arrastando com ela 10% do PIB espanhol em questão de meses. Foi um tsunami financeiro, resultado, em grande parte, da enorme avareza dos especuladores – a banca e o sector imobiliário – e a cumplicidade, além da incompetência, da equipa diretiva do Banco de Espanha, que é, em teoria, o regulador da banca e a agência responsável de evitar esta catástrofe. A enorme irresponsabilidade desses dirigentes foi ignorar as vozes críticas dos que estavam a alertar para este problema, incluídas as de técnicos do Banco de Espanha. É impossível preencher este vazio de 10% do PIB substituindo-o por outras atividades, com as políticas de austeridade (cortes e mais cortes) que estão a ser seguidas em Espanha. Também o dissemos, no início da crise, uns poucos de nós, sem que nos dessem atenção. É óbvio que estas políticas são suicidas economicamente, porque quando o setor privado está tão endividado como está o espanhol, a única coisa que pode estimular a economia é o setor público. E estão a cortá-lo! Isto é um indicador do dogmatismo dos economistas neoliberais (que dominam a cultura económica do país) que, apesar da enorme evidência de que as políticas de austeridade estão a levar o país a um gigantesco desastre, continuam a promover e a levar a cabo essas políticas, insistindo milhares de vezes que tais medidas são necessárias para recuperar a famosa confiança dos mercados, ignorando que quem fixa os juros da dívida pública é o Banco Central Europeu que, como disse muitas vezes, não é um banco central, mas sim um lóbi da banca alemã e do banco central alemão. É importante assinalar que alguns destes neoliberais acrescentam que as políticas de austeridade são insuficientes e que é preciso complementá-las com políticas de crescimento, desconhecendo que estas últimas não serão eficazes a não ser que se eliminem as primeiras. Como todo o dogma, a causa de ele se reproduzir, apesar da sua óbvia falsidade, é o facto de servir interesses económicos e financeiros que são beneficiados com essas políticas. Documentei e publiquei uma longa lista de beneficiários da reprodução desse dogma neoliberal, que vão da grande banca e do grande patronato alemão à grande banca e ao grande patronato espanhol. A banca alemã beneficia-se do enorme fluxo de capitais da periferia (incluindo da Espanha) para o centro (Alemanha) e o grande patronato alemão beneficia-se dos relativamente baixos salários dos trabalhadores alemães (em relação à sua produtividade) e da impossibilidade de os países periféricos (incluindo a Espanha) desvalorizarem a sua moeda para poder competir com os seus produtos; a grande banca espanhola, porque está em curso a reestruturação do sistema financeiro em termos muito favoráveis a ela e com grande apoio de fundos públicos, e o grande patronato espanhol (que gera o seu próprio crédito) porque está a conseguir o que sempre desejou: baixar os salários e enfraquecer os sindicatos, e eliminar o Estado de Bem-estar social. Ora bem, existem alternativas (ver “Há Alternativas. Propostas para criar emprego e bem-estar social em Espanha” e “O que a Espanha precisa”. Uma réplica com propostas alternativas à política de cortes do PP, de Vicenç Navarro, Juan Torres e Alberto Garzón). A Espanha tem os recursos para sair da crise. Só um dado: se a Espanha tivesse a mesma arrecadação do Estado que a Suécia, o estado espanhol teria uma entrada de 200 mil milhões de euros mais, com o que se poderia criar cinco milhões de postos de trabalho, eliminando o desemprego, que é o problema humano, social e económico mais grave que a Espanha tem. O facto de isso não ocorrer deve-se não a causas económicas e/ou financeiras, mas sim políticas, quer dizer, ao enorme poder que as forças conservadoras têm sobre o estado espanhol. Tão claro como isto. Retirado do blog de Vicenç Navarro
 
 
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