Europa: Respostas ao Cataclismo
Perante as políticas de austeridade que desmantelam a Europa que conhecíamos, o autor aposta na mobilização e na denúncia das políticas de choque. Por Jérôme Duval, do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM). Na Espanha, quatro milhões de eurossaíram dos cofres do Estado para pagar a empresas privadas. Foto de por jazamarripae
Artigo | 11 Setembro, 2012 - 15:29 “Quem semeia ventos, colhe tempestades”. Numa tempestade estamos nós. Agora que o espectro do comunismo se desvaneceu paulatinamente desde a queda do Muro de Berlim, o capitalismo, sistema globalizado, já não tem necessidade de fazer concessões como as que fez Roosevelt na sua época com o New Deal. Pode terminar o trabalho iniciado na era Reagan-Thatcher para deitar por terra o Estado Social. O estado de choque em que a Europa mergulhou com a “crise da dívida” oferece a oportunidade de acelerar esse ataque contra os direitos que adquirimos a lutar. A precariedade espalha-se dentro dos próprios países considerados ricos. O sobre-endividamento e a pobreza massiva já não é propriedade exclusiva dos países do Sul: esses ingredientes inerentes ao capitalismo radical já não têm fronteiras. Dirigimo-nos para o mesmo caminho que os países da América Latina tomaram, pelos mesmos motivos, aquando da “década perdida” e das revoltas da fome, um caminho que a Grécia já percorreu. Espanha está a levar a cabo um resgate bancário enorme, nacionalizando as dívidas privadas em benefício dos detentores de capital, mas a que preço? Depois de ter oferecido cerca de 1 milhão de euros a cada uma das empresas privadas de auditoria Oliver Wyman e Roland Berger, o Governo de Rajoy pagou cerca de 2 milhões de euros à empresa privada Álvarez & Marsal para criar a entidade que vai gerir os ativos tóxicos dos bancos nacionalizados. Assim, são quatro milhões de euros que saem dos cofres do Estado para pagar a empresas privadas. Não esquecemos que os bancos privados espanhóis financiam-se junto do BCE a 1%, ao mesmo tempo que recebem juros da dívida pública do país do qual são credores. Uns lucros suculentos que parecem insuficientes para colmatar as perdas devidas a uma corrupção endémica, a salários proibitivos e a uma gestão desastrosa do setor imobiliário. Não basta conseguirem dinheiro barato através do BCE para que os bancos especulem e enriqueçam com a dívida pública? Também é preciso que a população venha em seu auxílio? Na Grécia, onde, em maio deste ano, o desemprego alcançou um novo recorde histórico de 23,1% da população ativa, o novo governo de Antonis Samaras está a preparar-se para reduzir a despesa pública em 11.500 milhões de euros em 2013-2014 para satisfazer a troika dos credores (União Europeia, BCE e o FMI). As pensões desceram 40% em dois anos. O desbloqueio ou não da próxima tranche do empréstimo da UE e do FMI esperado por Atenas, no valor de 31.500 milhões de euros, depende da aplicação desta nova onda de austeridade. Em agosto, a Grécia acaba de pagar 4.063 milhões de euros em títulos do tesouro a três meses, a uma taxa de 4,43%, para poder fazer frente a um vencimento de 3.200 milhões de euros do BCE. Afetada por um sobre-endividamento crónico cuidadosamente mantido, a Grécia não beneficia das suas entradas de capital, que desaparecem imediatamente sob a forma de reembolsos; apenas uma ínfima parte do dinheiro permanece nos cofres do Estado. Outros países estão a entrar na espiral infernal do ajuste estrutural, naquele em que o endividamento serve como pretexto para impor a austeridade. Depois do Chipre, as três principais agências privadas de rating baixaram o nível da dívida soberana da Eslovénia, onde os juros para empréstimos a longo prazo estavam até às nuvens. O grande plano de austeridade votado em princípios de Julho pelo Parlamento para reduzir o défice público de 6,4% para 4% do PIB até ao final de 2012 não basta. Nos próximos meses deveria tornar-se público um segundo plano destinado a cortar ainda mais a despesa pública, sob pena de a troika enviar um missão de peritos para investigar as contas públicas. O FMI suspendeu um pagamento à Ucrânia, que se negou a aumentar o preço do gás; o mesmo que fez à Grécia quando esperava o resultado das últimas eleições. Impera a ditadura dos credores. Perante os maiores retrocessos sociais desde a guerra, é hora de reclamar justiça, soberania popular e democracia real. É necessário rejeitar radicalmente esta política de austeridade que não oferece nenhuma saída da crise, apenas para quem, pelo contrário, aumenta o défice e a dívida. Chegou a hora de as forças de esquerda se unirem, sem concessões ao capitalismo, para fazer frente a este ataque sem precedentes contra a democracia. 30 de Agosto de 2012 Tradução de Sofia Gomes para o Esquerda.net
 
 
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