Mídia e agronegócio
De acordo com dados oficiais do IBGE, a agricultura familiar/camponesa, apesar de ocupar apenas ¼ da área, responde por 77% das pessoas ocupadas no campo e por 38% do valor da produção. Mesmo cultivando uma área bem menor, ela é responsável por garantir a segurança alimentar do país, gerando mais de 70% dos produtos da cesta básica, demonstrando a potencialidade da agricultura familiar na ampliação da produção de alimentos para o mercado interno. Por Osvaldo Russo, ex-presidente do Incra, é conselheiro da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra). Fonte: Correio da Cidadania.
Quarta, 31 de Outubro de 2012 No Brasil, com a redemocratização do país em 1985, o governo federal assentou cerca de um milhão de famílias em projetos de reforma agrária e colonização em aproximadamente 80 milhões de hectares desapropriados e arrecadados por interesse social. Desse total, mais da metade ocorreu a partir de 2003 e, mesmo assim, os índices de concentração fundiária continuam elevados e pouco se alteraram nesse período. A mídia atribui ao agronegócio, detentor de grandes extensões de terra, uma pujança produtiva maior do que efetivamente se observa. De acordo com dados oficiais do IBGE, a agricultura familiar/camponesa, apesar de ocupar apenas ¼ da área, responde por 77% das pessoas ocupadas no campo e por 38% do valor da produção. Mesmo cultivando uma área bem menor, ela é responsável por garantir a segurança alimentar do país, gerando mais de 70% dos produtos da cesta básica, demonstrando a potencialidade da agricultura familiar na ampliação da produção de alimentos para o mercado interno. Ainda que a agricultura familiar responda pela maior parte da produção de alimentos para o abastecimento interno, o noticiário sobre o tema agrário indica que o debate democrático está contaminado por dois fatores principais, interesse econômico e preconceito cultural, que estão presentes nos meios de comunicação, estigmatizando, junto à opinião pública, os sem terra, assentados e agricultores familiares. Pode-se inferir que o preconceito cultural decorre da nossa herança colonial-escravista e da forma de dominação histórica das oligarquias rurais no território brasileiro. Pode-se também dizer que, no passado, os interesses econômicos entre os meios de comunicação e o velho latifúndio não eram tão fortes como na atualidade em relação ao agronegócio. Grosso modo, isso pode ser explicado, já que prevalecia um preconceito contra o meio rural associado ao modo de vida atrasado, e isso incluía tanto os trabalhadores como proprietários rurais. Hoje, multiplicam-se os interesses econômicos convergentes de variados setores empresariais com forte influência na mídia: agronegócio exportador, capital financeiro e multinacionais produtoras de alimentos e de insumos agrícolas. Isso pode ser exemplificado: no passado não muito distante (até 1997, por ocasião da Marcha dos 100 Mil do MST), a reforma agrária chegou a ser tema de novela e era percebida positivamente como necessária pela opinião pública brasileira. Hoje, a violência no campo é tratada e manipulada não como decorrente da exploração no meio rural e da injusta estrutura fundiária, mas da radicalidade “irresponsável” na luta pela terra e da ação “criminosa” das organizações camponesas e de seus líderes. Enquanto milhares de famílias vivem acampadas em beira de estradas, trabalhadores rurais são escravizados em pleno século 21 e camponeses, líderes sindicais, religiosos e advogados são assassinados, deixando sem punição os crimes do latifúndio e de sua pistolagem. Antes, a rebeldia dos escravos escandalizava, mas o açoite neles não. Foi o caso do escândalo orquestrado pela mídia com a destruição de dois hectares de um laranjal plantado em extensas terras da União, invadida ilegalmente por grande empresa privada em São Paulo. Esse caso é emblemático onde a rebeldia dos sem terra foi criminalizada pela mídia e a empresa grileira de terra pública foi enaltecida. A reforma agrária, moldada à realidade e às exigências contemporâneas, continua sendo uma bandeira de luta dos trabalhadores rurais e uma necessidade do Brasil. Mas, do ponto de vista ideológico, ela é vista pelo patronato rural como um atentado ao direito de propriedade e aos seus interesses e, sob a ótica econômica, é vista pelas grandes corporações econômicas e financeiras como desnecessária e improdutiva. Daí a importância da democratização dos meios de comunicação. A luta política intensa e desigual que os setores conservadores hegemônicos travam na sociedade, no parlamento, no governo, no judiciário e na mídia, em todos os níveis, visa enfraquecer a luta camponesa e manter a sua dominação ideológica, política, econômica e territorial. Osvaldo Russo, ex-presidente do Incra, é conselheiro da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra).
 
 
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