Ratzinger, a Teologia da Libertação e o cinema/ O Papa, quem diria, absolveu a política
Dois artigos do "Sul21" que analisam de forma antagônica os motivos da renúncia do Papa Bento XVI: de algoz da Teologia da Libertação à resistência aos ultraconservadores.
A imagem pode não corresponder à realidade. Mas, desde que assumiu a Congregação para a Doutrina da Fé, espécie de Inquisição dos tempos modernos, Joseph Ratzinger mostrou-se conservador. Foi ele, o futuro Papa Bento XVI, o algoz da Teologia da Libertação, nascida na América Latina. Teólogos da Libertação – sacerdotes e bispos – passaram a ser identificados como “padres comunistas”. Afinal, haviam feito a “opção preferencial pelos pobres” e, também, contra os regimes ditatoriais latino-americanos. A Igreja temia que as comunidades eclesiais de base espraiassem – como diria o ex-governador Olívio Dutra – o marxismo entre os católicos. A luta em favor da igualdade social e econômica e da liberdade de pensamento não era bem-vista nem bem-recebida pelo Vaticano. Sacerdotes deveriam se ater apenas à salvação da alma de seus fieis. Tradução: fechar os olhos às injustiças cometidas pelas classes altas e por regimes fortes. Um grupo expressivo de sacerdotes latinos recusou-se a fechar os olhos para o sofrimento de homens, mulheres, velhos e crianças, que vivem na miséria. Decidiu-se pela defesa dos direitos humanos. Não só produziram inúmeras obras como foram para a ação. Houve os que ajudaram na formação de novos partidos e até, é verdade, os que optaram pela guerrilha. Em alguns momentos, a Igreja da Libertação assumiu espaços importantes nos encontros do Celam – Conselho Episcopal Latino-americano. A ação firme do Vaticano, por meio da Congregação para a Doutrina da Fé, calou os porta-vozes da Teologia da Libertação. Hoje, bispos como Dom Paulo Evaristo Arns, homem de coragem e iniciativa na luta contra a ditadura brasileira, não têm mais poder na Igreja Católica. Estão afastados. Em sua página na internet e em entrevistas à imprensa, Frei Leonardo Boff, um dos teólogos brasileiros da libertação, calado por Ratzinger, em nome da Igreja, não se exime de criticar o agora renunciante sucessor de Pedro. Boff, apesar de respeitar Bento XVI e reconhecer a grandeza de sua renúncia, acusa-o de ter feito com que o catolicismo regredisse à Idade Média. Haverá entre os cardeais aptos para disputar a sucessão de Bento XVI alguém preparado para modernizar a Igreja e, por exemplo, a dar mais espaço às mulheres? O futuro do Vaticano depende do quanto será capaz de dialogar. A renúncia e o cinema A decisão de Bento XVI, além de lembrar seu papel no abafamento da Teologia da Libertação, evidente que nos faz recordar de dois grandes filmes. O clássico As sandálias do Pescador e Habemus Papam, há pouco exibido nos cinemas. As duas obras-primas podem ser vistas ou revistas em DVD. O conclave, que reúne os cardeais eleitores do novo Papa, é retratado em duas épocas diferentes e, ao mesmo, similares à que vivemos. Baseado no livro de Morris West, As sandálias, dirigido por Michael Anderson e estrelado por Anthony Quinn, é da época da Guerra Fria, nos anos 1960, de temores e desconfianças entre Ocidente e Oriente. A escolha recai em um cardeal não italiano, como Bento XVI. O russo Kiril Pavlovich Lakota estivera preso na Sibéria como inimigo do regime comunista e terá de intermediar uma crise entre russos e chineses. A realidade enfrentada hoje pelo Vaticano é outra: não precisa mais intermediar crises entre regimes capitalistas e socialistas. Necessita, sim, ter bom relacionamento com o Islã e seus seguidores. Bento XVI precisou pedir desculpar depois de criticar Maomé. O êxito de quem usar as sandálias de Pedro, sucessor de Cristo, o criador da Igreja, dependerá de sua capacidade de aceitação do contrário e de diálogo com quem não segue seus princípios. Encontrar alguém com esse perfil é missão do conclave, do qual participam cinco cardeais brasileiros. Mais próximo do imaginário popular sobre a renúncia de Ratzinger está Habemus Papam, de Nanni Moretti. O diretor declarou ao jornal italiano La Repubblica: “Às vezes, o cinema pode antecipar a realidade”. No filme de Moretti, já durante o conclave, todos os cotados rezavam a Deus para que afastasse deles o cálice do papado. Ao sair a fumaça branca, o eleito se recusava a aceitar a indicação e tremia ante a possibilidade de se apresentar aos fiéis que esperavam por ele na Praça de São Pedro. Enquanto o Vaticano montava estratégias para ludibriar o público que não arredava pé da Praça de São Pedro, o Cardeal Melville, interpretado por Michel Piccoli, se mostra cada vez mais angustiado, deprimido, assustado. A saída é tratar-se com um psiquiatra, personagem de Nanni Moretti. Nada, porém, o demove da decisão de renunciar ao cargo que não desejava. Não se imagina que Ratzinger tenha, já durante o conclave, pensando em um dia renunciar. Nem que haja recorrido a um psiquiatra. Pelo que revelam os veículos internacionais de comunicação, ele confessou seu desejo apenas ao irmão, também religioso, Georg Ratzinger, de 89 anos, quatro a mais que o Papa. E buscou inspiração em Celestino V, que teve um pontificado de quatro meses. Eleito em agosto de 1294, renunciou em dezembro do mesmo ano. Os verdadeiros bastidores e a real história dessa renúncia, provavelmente, nunca serão conhecidos. A debilidade física deve ter contado muito para a renúncia, mas as pressões, num momento de crise enfrentada pelo Vaticano, podem ter tido um peso igual ou maior na decisão do antigamente forte Ratzinger, o alemão que substituiu o polonês Karol Wojtyla, Papa João Paulo II. O Papa, quem diria, absolveu a política Foi, sem dúvida, uma surpresa a renúncia anunciada do Papa Bento XVI. Há 600 anos um Papa não renunciava. Sua Santidade explicitou o motivo que o levou a tal decisão: saúde. Nossa imprensa das Capitanias Hereditárias assumiu, da forma acrítica de sempre, a motivação papal e só se fala na saúde do Papa e no próximo pontífice. Joseph Ratzinger é de fato um homem velho. Aos 85 anos, tem os problemas naturais de sua idade. Mas basta olhar os vídeos de suas aparições públicas para ver que não há nenhum indício mais grave para a pressa que está impondo à renúncia anunciada. Se formos, então, buscar informações na imprensa de Portugal e Espanha, cuja cobertura sobre a Igreja é muito mais profunda que o condomínio de press-releases nacional, começa a surgir um quadro muito diferente. O Cardeal Ratzinger foi, durante 20 anos, o braço direito conservador de um Papa ainda mais conservador do que ele, João Paulo II. Foi eleito num conclave rapidíssimo, quase que por consenso, para um papado de transição, habitual na Igreja depois de papados longos e impactantes como o de seu antecessor. Mas como sempre, a História dita seu ritmo sem seguir as expectativas dos homens. A explosão das acusações de pedofilia, os problemas na relação com o Islã e as acusações de lavagem de dinheiro e corrupção no Banco do Vaticano transformaram seu período num tempo potencialmente explosivo. E embora conservador, Bento XVI não quis se submeter ao grupo que os estudiosos ibéricos chamam de Ultras, os ultraconservadores que dominam a Cúria, escorados em ordens como a Opus Dei e Legionários, e que não querem punir os pedófilos, precisam de um banco que lave dinheiro para financiar os crescentes déficits da Igreja e dos muçulmanos querem cada vez mais distância e não aproximação. O episodio do mordomo que vazou informações secretas do Papa no ano passado foi certamente a gota d’água que fez Bento XVI agir da forma que está agindo. Ficou claro para todo o mundo que há dentro da Cúria um grupo organizado que busca transformá-lo num fantoche e até mesmo afastá-lo completamente. O Papa viu que a situação poderia evoluir para um completo e desmoralizante domínio dos Ultras com uma consequente crise global causada pela reação da esquerda terceiro-mundista, que ele dedicou-se a enfraquecer durante todo seu reinado. Como se diz no Boxe ou no UFC, Bento XVI estava nas cordas. E ele contra-atacou brilhantemente. Com a renúncia, o Papa retoma a iniciativa. Convoca um conclave para eleger seu sucessor com ele vivo, atuante e com seu já grande prestígio aumentado exponencialmente pelo espetacular ato de humildade de um pontífice renunciar. Ele congrega os seus mais próximos, chamados de “conservadores modernizantes”, e busca atrair o terceiro mundo (de onde muito provavelmente sairá o novo Papa) para isolar os Ultras, fazendo um Papa mais jovem, mais carismático, que possa dominar a Cúria, o que ele não conseguiu, e com sua ajuda, que continuará residindo no Vaticano.T alvez dois papas consigam o que um só não foi capaz… Em português brasileiro: Joseph Ratzinger fez uma ousada manobra política para fortalecer seu Partido, constituir uma base aliada poderosa no Congresso e eleger o próximo Presidente. Sim, escandalizem-se, o Papa faz Política! Nos últimos tempos, a mesma imprensa que papagaia os problemas de saúde de Bento XVI tem buscado criminalizar a Política, tornando-a algo sujo e podre. Toda manobra político-partidária que se destine a dar governabilidade à nação é apresentada como um ato imoral e escuso. Como bem o disse o sociólogo Gerson Almeida em artigo sobre o filme Lincoln, publicado aqui no Sul21, o debate no Brasil está “cada vez mais dominado pela despolitização da política e a sua consequente substituição pela ideologia conservadora, que degrada a moral em moralismo”. Se seguisse o moralismo rasteiro dos colunistas de nossa grande imprensa, Bento XVI deveria permanecer até a morte no cargo, como fizeram todos os papas nos últimos 600 anos, e aguentar seu sofrimento com o estoicismo que o caracteriza. Mas não, ele agiu conforme a boa e velha política, e atacou seus adversários para obter o que ele entende que é o melhor para a Igreja. Ou alguém dirá que o Bento XVI também não agiu conforme a Moral? Jamais pensei que um dia encerraria um artigo dizendo isso: Muito bem, Joseph Ratzinger! Por Antônio Escosteguy Castro . Fonte: Antônio Escosteguy Castro
 
 
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